Um grupo acusado de promover narrativas pró-Rússia, pseudociência e teorias da conspiração relacionadas com extraterrestres recebeu autorização para organizar um evento no Parlamento Europeu, em Bruxelas. A informação é avançada pelo ‘POLITICO’, que revela que o AllatRa Global Research Center realizou em fevereiro uma sessão sobre os perigos dos nanoplásticos, em conjunto com o eurodeputado checo de extrema-direita Ondřej Knotek, do grupo Patriotas.
Apesar das queixas apresentadas por eurodeputados sobre a presença da organização nas instalações do Parlamento, o órgão responsável por matérias administrativas concluiu que não existiam “fundamentos suficientes para conduzir uma investigação”.
O caso levantou preocupações sobre o risco reputacional para a instituição europeia, sobretudo devido às acusações que rodeiam o AllatRa e às ligações apontadas entre o grupo, narrativas de desinformação e ecossistemas associados à Rússia.
Grupo apresenta-se como centro de investigação, mas acumula polémicas
O AllatRa Global Research Center descreve-se como um “think tank” internacional dedicado a riscos planetários, desafios ambientais sistémicos, direitos humanos e liberdades. Mas a organização é vista de forma muito diferente pelos seus críticos.
O centro está ligado ao movimento religioso AllatRa, fundado na Ucrânia e atualmente sediado nos Estados Unidos. Os serviços de segurança ucranianos acusaram o movimento de justificar a agressão armada da Rússia e de promover publicamente narrativas do Kremlin sob a aparência de “trabalho missionário”.
Os textos fundadores do AllatRa afirmam que seres extraterrestres influenciam a vida humana há muito tempo. O ‘POLITICO’ cita ainda relatos segundo os quais o grupo defende que todos os povos eslavos se irão unir no futuro, sobretudo graças a uma espécie de salvador com características semelhantes a Vladimir Putin.
Outras investigações apontam também que o AllatRa e a sua ramificação Creative Society negam que a atividade humana seja a principal causa do aquecimento global e defendem que o mundo terminará em 2036.
Cofundador investigado na Ucrânia
Igor Danilov, cofundador do AllatRa e quiroprático ucraniano, está sob investigação policial na Ucrânia por suspeitas de alta traição, participação em organização criminosa e ameaça à segurança nacional.
Danilov não respondeu ao pedido de comentário citado no texto original. Já o AllatRa rejeitou “categoricamente” as acusações de ser pró-Rússia ou de estar ligado a ecossistemas de desinformação russos, afirmando também que condena a agressão armada da Federação Russa contra a Ucrânia.
Um porta-voz da organização referiu que, na própria Rússia, o AllatRa foi declarado primeiro uma organização “indesejável” e depois “extremista”. O grupo apontou ainda para uma decisão judicial de Kiev, este ano, que manteve a recusa de proibir a organização, considerando que não tinham sido apresentadas provas adequadas e admissíveis de atividade anti-ucraniana ou pró-Rússia.
Questionado sobre crenças relacionadas com extraterrestres, o AllatRa não respondeu diretamente, mas afirmou que as acusações de “pseudociência” ou “teorias da conspiração” não refletem a posição oficial nem as atividades da organização.
Eurodeputados alertam para risco reputacional
A presença do AllatRa no Parlamento Europeu levou dois eurodeputados checos do Partido Popular Europeu, Danuše Nerudová e Jan Farský, e o eurodeputado eslovaco Martin Hojsík, do grupo liberal Renew, a apresentarem queixa.
Segundo as atas de uma reunião administrativa interna do Parlamento Europeu vistas pelo POLITICO, os três eurodeputados afirmaram que o AllatRa tem sido “repetidamente identificado” como uma organização associada a narrativas pró-Rússia e a ecossistemas de desinformação ligados à Rússia.
Os parlamentares defenderam que permitir eventos deste tipo nas instalações do Parlamento representa um “risco reputacional” e pode dar legitimidade institucional a organizações associadas a influência estrangeira ou atividades de desinformação.
Martin Hojsík foi mais longe e classificou o AllatRa como uma seita que estaria a penetrar estruturas políticas e de segurança na Europa. O eurodeputado acusou ainda o grupo de tentar perseguir e levar à justiça pessoas que investigam as suas atividades.
Em resposta, o porta-voz do AllatRa afirmou que exercer o direito de proteger a reputação e corrigir informação considerada incorreta não constitui assédio.
Eurodeputado diz que evento não teve “narrativa política”
Ondřej Knotek, o eurodeputado checo que participou no evento, defendeu que a sessão não teve “narrativa política”. O parlamentar lembrou ainda que o grupo está inscrito no Registo de Transparência da União Europeia, o que permite a lobistas acesso às instituições europeias.
“Se se tem uma grande organização, pode haver pessoas loucas lá dentro”, afirmou Knotek. “Isso não significa que todos sejam loucos.”
As regras permitem que eurodeputados e grupos políticos coorganizem eventos com empresas privadas e indivíduos nas instalações parlamentares. Para isso, podem recorrer a linhas orçamentais específicas e solicitar interpretação e salas ao departamento logístico do Parlamento Europeu.
Entre os convidados do evento esteve também o pastor americano Mark Burns, presidente da iniciativa Spiritual Diplomats e conselheiro espiritual do presidente americano Donald Trump. O AllatRa descreveu-o como um líder cristão reconhecido globalmente e orador internacional.
Parlamento não viu fundamentos para investigar
Os questores, grupo de eurodeputados responsável por questões administrativas e financeiras, concluíram que não existiam fundamentos suficientes para abrir uma investigação ao evento.
De acordo com as atas parlamentares internas, entenderam que não havia elementos “conclusivos e inequívocos” sobre as alegações dos queixosos relativamente a narrativas pró-Rússia e ligações a ecossistemas de desinformação associados à Rússia.
Martin Hojsík também contestou a presença do AllatRa Global Research Center no Registo de Transparência europeu, uma base de dados online da União Europeia que reúne organizações e indivíduos que procuram influenciar a legislação. A inscrição no registo facilita o acesso às instituições europeias, embora o grupo não apareça listado como tendo reunido com eurodeputados.
Um porta-voz do Parlamento Europeu afirmou que está a ser finalizada uma carta ao secretariado do registo, destinada a informá-lo sobre a queixa e sobre a informação recolhida pelos serviços parlamentares acerca do AllatRa.













