Grande êxodo de refugiados ucranianos não é um acidente: é parte do plano de Putin para desestabilizar a Europa

Mais de 6,3 milhões de ucranianos fugiram do seu país desde que a Rússia decidiu pela invasão, a 24 de fevereiro último

Francisco Laranjeira

Mais de 6,3 milhões de ucranianos fugiram do seu país desde que a Rússia decidiu pela invasão, a 24 de fevereiro último. A União Europeia abriu as portas aos refugiados ucranianos, permitindo que entram em qualquer um dos 27 Estados-membros sem visto e possam morar ou trabalhar durante três anos. Muitos europeus também abriram as suas portas – e bolsos – para hospedar ucranianos e ajudá-los a encontrar creches, por exemplo, entre outros serviços.

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Mas ainda há uma realidade desconfortável: os refugiados ucranianos também são peões políticos do presidente russo, Vladimir Putin, destinados a desestabilizar politicamente a União Europeia e a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Muitos polacos, por exemplo, ofereceram-se para ajudar os ucranianos. Mas agora, mais de dois meses após o início da guerra, há sinais de que a compaixão pública está a desaparecer.

A população de Varsóvia aumentou 15% desde o início da guerra, levando ao autarca da cidade, Rafal Trzaskowski, a propor uma estratégia para lidar com os custos crescentes. “A maior parte do fardo está sobre nós”, avançou.

Hospedar refugiados ucranianos pode custar aos países mais de 28 mil milhões de euros apenas no primeiro ano, de acordo com a análise do Centro de Desenvolvimento Global, o que pode representar novos desafios para a economia europeia, que já está sob stress devido à elevada inflação.

Nos últimos anos, especialistas em segurança nacional têm considerado cada vez mais a migração humana como um fator-chave que pode influenciar a estabilidade política. O número de pessoas forçadas principalmente pela violência ou pelas mudanças climáticas a migrar em todo o mundo quase duplicou entre 2010 e 2020 – passando de 41 milhões para 78,5 milhões nesse período, segundo as Nações Unidas.

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Uma migração em massa pode funcionar como ferramenta política de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, a chegada repentina de muitos recém-chegados pode sobrecarregar a habitação, os cuidados de saúde e outros recursos e testar a paciência das populações recetoras, o que coloca pressões mais amplas sobre ligações políticas como a União Europeia, que depende dos países membros para partilhar os custos de acolhimento de migrantes.

Esta não é a primeira tentativa de Putin de usar a migração em massa para promover as suas ambições políticas na Europa. Esse tipo de tática remonta a uma prática da era soviética de “engenharia étnica”, que significa tentar exacerbar as tensões políticas com base nas diferentes origens religiosas, étnicas ou linguísticas das pessoas.

De acordo com autoridades e especialistas ocidentais, Putin ajudou a criar a crise migratória europeia de 2015 e 2016 a partir do Médio Oriente. Estima-se que 1,3 milhões de pessoas à procura de asilo e outros migrantes tenham chegado à Europa nessa época. A maioria dos migrantes era da Síria, como resultado da guerra civil mortal. Putin e o presidente sírio Bashar Assad usaram bombas e outras armas para aterrorizar civis e forçá-los a deixar as suas casas para a Turquia e países da União Europeia.

Em 2016, o general da Força Aérea dos EUA, Philip Breedlove, que serviu como comandante militar da NATO na época, alertou que Putin e Assad estavam “deliberadamente a armar a migração numa tentativa de sobrecarregar as estruturas europeias e quebrar a determinação europeia”.

Em resposta à onda de recém-chegados, a União Europeia concordou em acolher refugiados sírios que estavam na Turquia. Mas a Hungria, Polónia, Eslováquia e República Checa recusaram-se a aceitar os refugiados, o que resultou numa tensão política entre os países da União Europeia, assim como o aumento de partidos políticos antimigrantes e nacionalistas, sobretudo na Alemanha e Itália, que aceitaram um grande número de sírios. Não convém esquecer que a preocupação pública com a imigração também levou os cidadãos britânicos a votar em 2016 pela saída do Reino Unido da União Europeia.

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Poucos meses antes da guerra na Ucrânia, a cartilha de migração como arma de Putin inspirou o aliado político, o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que prometeu publicamente às pessoas do Iraque e de outros países que, se viessem para a Bielorrússia, iria ajudá-los a entrar na União Europeia. Lukashenko forneceu aos migrantes transporte gratuito para a Bielorrússia e a fronteira polaca. Mas os guardas de fronteira da Polónia impediram violentamente que esses imigrantes entrassem no seu país.

Em dezembro de 2021, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou a tática de Lukashenko de “ataque híbrido”. “Esta não é uma crise de migração”, referiu. “Esta é uma tentativa de um regime autoritário de tentar desestabilizar os seus vizinhos democráticos. Isso não vai dar certo.”

Polónia, Hungria e Eslováquia estão agora entre os países que acolhem o maior número de refugiados ucranianos. Enquanto algumas comunidades europeias chamam os ucranianos de “convidados” e não de “refugiados”, outras comunidades locais estão sobrecarregadas – em Varsóvia, por exemplo, será necessário construir 75 novas escolas para educar crianças refugiadas ucranianas.

“É como estar sentado numa bombarrelógio”, apontou Agnieszka Kosowicz, presidente do Fórum de Migração Polaco, com sede em Varsóvia. “Os polacos simplesmente não têm recursos para sustentar os seus níveis iniciais de generosidade”, referiu.

Até agora, os políticos europeus não chamaram de crise a onda de refugiados ucranianos, o que levou alguns especialistas a garantir que se deve ao facto de os ucranianos serem predominantemente brancos e cristãos.

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Putin sabe que as ansiedades económicas alimentam a retórica antimigração na Hungria, França e outros países, o que pode criar novas ameaças à solidariedade da UE e, por extensão, à segurança europeia.

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