Governo muda dois terços das administrações de saúde: 69% dos novos presidentes têm ligações a PSD ou CDS

Governo de Luís Montenegro nomeou, em pouco mais de dois anos, 26 novos presidentes para os conselhos de administração das Unidades Locais de Saúde, mudando dois terços das 39 ULS do país

Revista de Imprensa

O Governo de Luís Montenegro nomeou, em pouco mais de dois anos, 26 novos presidentes para os conselhos de administração das Unidades Locais de Saúde, mudando dois terços das 39 ULS do país, escreve o ‘Observador’. Entre os novos responsáveis escolhidos, 18 têm ligações conhecidas ao PSD ou ao CDS, partidos que suportam o Executivo.

Na prática, 69% dos novos presidentes das ULS são próximos dos partidos do Governo, muitos deles militantes sociais-democratas ou democratas-cristãos. Entre os nomes identificados estão antigos deputados, autarcas, candidatos autárquicos, dirigentes locais do PSD e responsáveis que interromperam mandatos políticos para assumirem cargos de gestão no Serviço Nacional de Saúde.

As ULS resultam da reforma que concentrou a gestão dos cuidados de saúde primários e hospitalares numa mesma estrutura. Em várias das administrações agora alteradas, ocorreram trocas diretas entre militantes do PS e militantes do PSD. Desde que Ana Paula Martins assumiu a pasta da Saúde, oito conselhos de administração foram mesmo exonerados antes do fim dos respetivos mandatos.

A ministra da Saúde já tinha garantido, em fevereiro de 2025, que “o PSD não manda” nas nomeações para o SNS, acusando o PS de ter “muito pouca moralidade” para criticar escolhas políticas, depois de os socialistas terem nomeado os 39 conselhos de administração das ULS quando o Governo de António Costa estava em gestão.

A Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública pronunciou-se favoravelmente sobre todas as 18 nomeações de dirigentes com ligações conhecidas a PSD e CDS. Ainda assim, o tema voltou a ganhar força com as críticas de Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, que defendeu ao ‘Observador’ a necessidade de “despolitizar” as escolhas para as administrações das ULS.

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Entre os casos mais recentes está o de Ricardo Correia de Matos, nomeado em maio para presidir à ULS da Região de Aveiro, depois da exoneração da anterior administração. O enfermeiro tinha integrado a lista da AD à Câmara de Aveiro nas autárquicas de outubro de 2025, mas não foi eleito para o executivo municipal.

Outro exemplo é Miguel Abrunhosa, presidente da concelhia do PSD de Bragança, escolhido em abril para liderar a ULS do Nordeste, responsável por três hospitais e 14 centros de saúde. Até há pouco tempo, era vereador social-democrata na Câmara de Bragança e tinha sido chefe de gabinete do antigo presidente da autarquia.

Há também casos de antigos autarcas que deixaram cargos eleitos para aceitarem funções no SNS. José Luís Gaspar, antigo presidente da Câmara de Amarante, foi nomeado para a ULS do Tâmega e Sousa a menos de seis meses de terminar o terceiro e último mandato autárquico permitido por lei.

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Em Lisboa, Miguel Paiva, militante do PSD e antigo membro do Conselho Nacional do partido, passou da ULS de Entre o Douro e Vouga para a presidência da ULS de São José, substituindo Rosa Valente de Matos, militante do PS. A Procuradoria-Geral da República confirmou em março ao ‘Correio da Manhã’ que Miguel Paiva estava a ser investigado por suspeitas ligadas à adjudicação de contratos públicos para obras hospitalares.

Nem todos os novos presidentes com ligações à AD têm o mesmo grau de experiência em saúde ou administração hospitalar. Alguns apresentam carreiras longas na gestão hospitalar ou clínica, enquanto outros chegaram aos cargos sem formação específica na área da Saúde ou sem experiência direta em administração hospitalar.

O ‘Observador’ identifica ainda oito presidentes de ULS nomeados pelos governos de Luís Montenegro sem ligações públicas conhecidas ao PSD. Entre eles há perfis técnicos, médicos, gestores e administradores com experiência anterior no setor, incluindo casos com passado político ligado ao PS.

As mudanças nas administrações das ULS ainda podem não estar concluídas. Há seis administrações à espera de recondução ou substituição, segundo informação avançada pela Direção Executiva do SNS ao ‘Público’, sendo que uma delas já terá sido nomeada pelo Governo da AD.

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