O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou um pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para autorizar a utilização de bases aéreas no Reino Unido em caso de um ataque preventivo ao Irão. A decisão, segundo vários órgãos da imprensa britânica que citam fontes governamentais, assenta em preocupações de que tal autorização possa violar o direito internacional.
De acordo com o The Times de Londres, que avançou inicialmente com a notícia, Starmer bloqueou a utilização da base da RAF Fairford, em Inglaterra, e da base de Diego Garcia, território ultramarino britânico no Oceano Índico, para qualquer operação militar contra o Irão. A BBC, o The Guardian e o The Telegraph publicaram posteriormente informações no mesmo sentido, citando igualmente fontes do Governo britânico.
Preocupações legais e papel estratégico das bases
A RAF Fairford é considerada a principal base avançada de operações para bombardeiros estratégicos norte-americanos na Europa, enquanto Diego Garcia tem sido, há décadas, um ponto de apoio fundamental para a frota de bombardeiros pesados dos Estados Unidos em missões de longo alcance. Segundo o The Times, o Reino Unido teme que permitir a utilização destas instalações possa constituir uma violação do direito internacional, que não distingue entre o Estado que executa um ataque e aqueles que o apoiam, caso tenham conhecimento das circunstâncias de um acto internacionalmente ilícito.
Os pedidos norte-americanos para utilizar bases britânicas para fins operacionais são tradicionalmente avaliados caso a caso, com critérios específicos mantidos confidenciais por razões de segurança, ao abrigo de acordos bilaterais de longa data. Em Janeiro, o ministro dos Veteranos, Al Carns, afirmou que todas as decisões deste tipo têm em conta o enquadramento jurídico e a justificação política de qualquer actividade proposta, numa resposta a perguntas do deputado independente Jeremy Corbyn citada pelo UK Defence Journal.
Contactos diplomáticos e tensão em torno das Ilhas Chagos
Keir Starmer e Donald Trump mantiveram uma conversa telefónica na noite de terça-feira, durante a qual discutiram a situação no Médio Oriente e na Europa. No dia seguinte, Trump recorreu à sua plataforma Truth Social para retirar apoio a um acordo que previa a transferência da soberania das Ilhas Chagos — arquipélago no Oceano Índico que alberga a instalação conjunta de apoio naval EUA-Reino Unido em Diego Garcia — para as Maurícias, em troca de um arrendamento de 99 anos da base militar.
O Reino Unido separou as Ilhas Chagos das Maurícias antes da independência da antiga colónia, uma decisão que tem gerado fricção diplomática e várias batalhas legais com os habitantes locais que foram expulsos. Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça determinou que Londres deveria devolver o arquipélago “o mais rapidamente possível”, de forma a permitir a sua descolonização.
Desde então, o Governo britânico tem analisado um acordo de devolução, defendendo que um compromisso de arrendamento evitaria processos judiciais dispendiosos e provavelmente infrutíferos, assegurando ao mesmo tempo a continuidade do acesso militar no Oceano Índico. Trump, que inicialmente se opôs ao acordo entre o Reino Unido e as Maurícias, afirmou no início de Fevereiro que este era o melhor resultado possível, mas alterou a sua posição à medida que Washington reforçou a sua presença militar na região.
Bases não utilizadas em ataques anteriores
Nem Diego Garcia nem a RAF Fairford foram utilizadas no ataque pontual com bombardeiros furtivos B-2 a instalações nucleares iranianas em Junho passado. Nessa operação, as aeronaves realizaram uma missão de ida e volta de cerca de 37 horas a partir da sua base no Missouri. Analistas antecipam, contudo, que um eventual novo ataque dos Estados Unidos ao Irão poderá assumir a forma de uma campanha mais prolongada, possivelmente com várias semanas de duração.
Num cenário desse tipo, operar bombardeiros B-2, B-1 e B-52 a partir de bases situadas a milhares de quilómetros mais perto do Irão permitiria rotações mais rápidas para rearmamento e reabastecimento. Ainda assim, recorrer a bases em países aliados mais próximos do território iraniano poderia expor a valiosa frota de bombardeiros pesados norte-americanos a eventuais ataques retaliatórios com mísseis iranianos.






