Gouveia e Melo responde a Marques Mendes e diz que não se sente “obrigado a ficar calado” sobre as questões-chave para o futuro de Portugal

O ex-coordenador da campanha de vacinação fez duras críticas à gestão da defesa nacional e à burocracia que envolve a aquisição de material para as Forças Armadas, ao mesmo tempo em que defendeu uma visão estratégica e mais pragmática para a economia portuguesa.

Revista de Imprensa
Abril 4, 2025
9:47

O vice-almirante Gouveia e Melo, conhecido pelo seu papel de liderança na Task Force da vacinação, afirmou em entrevista ao Diário de Notícias que não se sente “obrigado a ficar calado” sobre questões cruciais para o futuro de Portugal. A afirmação surge como ‘resposta’ às declarações de Marques Mendes, que questionou as intervençoes do almirante quando ainda não anunciou oficialmente a candidatura à Presidência da República. O ex-coordenador da campanha de vacinação fez duras críticas à gestão da defesa nacional e à burocracia que envolve a aquisição de material para as Forças Armadas, ao mesmo tempo em que defendeu uma visão estratégica e mais pragmática para a economia portuguesa.

Gouveia e Melo abordou uma série de temas estratégicos, não só para a área da defesa, mas também para a economia nacional, destacando a urgência de Portugal se adaptar à nova ordem mundial. Ao longo da entrevista, o vice-almirante sublinhou que o país precisa agir rapidamente para não perder uma grande oportunidade de investir no setor da defesa, que pode impulsionar a economia, sem comprometer o Estado Social.



Defesa nacional: a urgência de agir e a crítica ao sistema de contratação
A primeira questão debatida foi a situação da defesa nacional, com Gouveia e Melo a criticar abertamente o atual sistema de contratação de material para as Forças Armadas. Segundo afirma, o processo atual é um “verdadeiramente kafkiano”, o que dificulta a aquisição de recursos vitais para o país. Gouveia e Melo apontou que, frequentemente, não há tempo suficiente dentro do ano económico para que as Forças Armadas realizem a contratação pública de forma eficaz.

“A questão não é só a aquisição de material, mas sim a maneira como o sistema atual engessa a capacidade de resposta rápida. As Forças Armadas muitas vezes não conseguem adquirir os materiais necessários a tempo de enfrentar crises imediatas”, afirmou, criticando a falta de flexibilidade que torna o processo ineficaz.

Apesar da crítica, Gouveia e Melo reconheceu que a transparência deve ser mantida a todo custo, algo que, segundo o almirante, se perde muitas vezes nos processos longos e complicados. “O grande problema é não se perder a transparência”, declarou, sugerindo ainda que seria fundamental criar uma equipa de especialistas independentes para supervisionar essas aquisições e garantir um processo mais eficaz e ético.

Soberania e a nova ordem mundial
Outro ponto de destaque na entrevista foi a análise de Gouveia e Melo sobre a atual ordem mundial e a posição de Portugal no cenário global. O vice-almirante comparou o contexto atual ao da Conferência de Yalta, que em 1945 dividiu o mundo entre as grandes potências da época. De acordo com Gouveia e Melo, a dinâmica atual é diferente, com potências como a Rússia, China e Estados Unidos a determinarem regras que beneficiam os seus próprios interesses, sem grandes preocupações com os países menores, como Portugal.

“Se houvesse uma conferência de Yalta hoje, quem é que lá estaria? Putin, o Xi Jinping e Trump. E o que é que eles iriam discutir? Iam discutir regras que beneficiassem essas três potências de forma descarada”, afirmou, destacando a necessidade de Portugal se posicionar de forma inteligente e independente para garantir a sua soberania e liberdade de ação.

No entanto, Gouveia e Melo não vê com pessimismo a posição de Portugal. Para o almirante, é essencial que o país aproveite as oportunidades no mar e no espaço aéreo, aproveitando as suas vantagens geográficas, e desenvolvendo tecnologia no setor da defesa que possa ser reaproveitada em outros setores da economia. O vice-almirante sublinhou que a soberania não está apenas ligada ao território, mas também ao espaço e ao mar, onde Portugal tem grandes interesses estratégicos.

Tecnologia e economia: aproveitamento das oportunidades
Gouveia e Melo fez ainda um forte apelo à necessidade de Portugal integrar tecnologia avançada em sua economia, através do setor da defesa. O almirante argumentou que os investimentos em defesa podem gerar benefícios indiretos para outras indústrias do país. O exemplo dado foi o das tecnologias usadas em veículos militares, como sistemas de deteção visual, que podem ser reaproveitadas para a indústria automóvel, aumentando o valor acrescentado da economia.

“O material que vamos comprar deve ser português. Não podendo, material com incorporação de qualquer coisa portuguesa. Não podendo, material europeu e não podendo, material americano”, afirmou, explicando que Portugal deve procurar aproveitar ao máximo os seus próprios recursos e, se necessário, colaborar com os aliados europeus ou americanos, mas sem perder a autonomia.

Para Gouveia e Melo, a chave está em garantir que a tecnologia desenvolvida para a defesa possa ser reaproveitada para promover uma economia mais produtiva. “A única forma é fazer com que esses investimentos promovam tecnologia, que essa tecnologia promova uma economia de maior valor acrescentado”, explicou, reforçando que, com uma economia mais eficiente, o Estado Social poderá ser beneficiado, criando um ciclo positivo de geração de riqueza.

O papel do Presidente da República e a visão estratégica
Ao longo da entrevista, Gouveia e Melo também abordou a sua visão sobre o papel do Presidente da República em Portugal, afirmando que o líder do país deve ter uma visão de longo prazo, em vez de se envolver em disputas políticas imediatas. “O Presidente da República deve induzir no sistema de governação, por influência, uma visão de longo prazo e não uma visão de curto prazo”, afirmou, sugerindo que o Presidente deve, ao contrário de se envolver em questões da “pequena aldeia”, fomentar discussões sobre questões mais globais e estruturais.

Para Gouveia e Melo, o Presidente da República deve guiar o país para o futuro, oferecendo uma perspetiva estratégica e menos sensível aos interesses políticos de curto prazo. Gouveia e Melo fez ainda uma crítica à postura de algumas figuras políticas, que acabam por perder o foco nas questões que realmente importam, em detrimento de questões menores que não afetam o futuro do país.

A economia portuguesa e a internacionalização das empresas
Em termos económicos, o vice-almirante também fez críticas à atual situação da economia portuguesa, dizendo que a burocracia e a desconfiança em relação aos empresários são dois obstáculos principais ao crescimento. Segundo a sua visão, é urgente que o país mude a mentalidade em relação aos empresários, que muitas vezes são vistos com desconfiança, como se fossem criminosos. “Toda essa estrutura e toda essa cultura acaba por deprimir a economia”, declarou, apontando a necessidade de criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo e ao investimento.

Gouveia e Melo também reconheceu que Portugal tem muito a aprender com países como a Espanha, especialmente no que diz respeito à internacionalização das suas empresas. De acordo com o que defendeu na entrevista, o país deve criar as condições necessárias para que as empresas possam prosperar, e a estratégia económica deve ser voltada para o médio e longo prazo. A chave para o sucesso está em estabelecer um ambiente previsível e seguro para os negócios, que permita às empresas crescerem e se expandirem para mercados internacionais.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.