Geração pós-covid força agricultura a inovar e a insistir na tão desejada autosuficiência

“Iremos aproveitar esta crise para repensar o modelo de produção agrícola de Portugal, combatendo a dependência alimentar exterior?”, questiona o mais recente estudo “Agricultura: Outlook Primavera”, elaborado Centro de Competências da Agricultura da Moneris.

A Primavera de 2020 fica marcada pelo contexto de pandemia mundial, associada à covid-19. Os impactos sentidos na economia mundial devem-se sobretudo ao encerramento das fronteiras, às medidas de confinamento impostas por grande parte dos países afetados, assim como à perda de confiança dos consumidores. Todos os setores de atividade foram impactados e no caso da agricultura sofreu uma pressão adicional dos mercados.

Em 2019, ainda que com uma ténue melhoria, Portugal manteve o saldo da balança alimentar negativo. Com a inflação  a manter-se com valores nulos, a descida acentuada dos preços dos produtos energéticos anulou o efeito do aumento dos preços dos alimentos.

Segundo dados mais atuais do INE, os preços energéticos caíram em abril 9.1%, após uma queda de 3.7% no mês de  março. Já os produtos alimentares subiram 8.4% em abril, devido à forte procura registada, levando ao maior consumo destes alimentos por parte dos portugueses.

Numa perspetiva futura, de recuperação da atvidade, o estudo frisa que a disrupção na agricultura no período pós-crise prende-se com a necessidade imediata em proteger o ambiente: incorporando a tecnologia, atingindo níveis de produção cada vez maiores, mas com menores fatores de produção.

“Existirá uma geração pré e pós Covid. Existem novos hábitos, novos costumes e maior consciência. Sabemos desde já, que Portugal, a Europa e o Mundo estão a enfrentar uma grave recessão económica, que perdurará ao longo dos próximos anos. É premente que o mundo se una, proteja, promova, e reposicione a agricultura, pois só ela poderá alimentar o mundo”, alertam os analistas.

Importa ainda “proteger o pequeno agricultor pois terá efeitos bilaterais muito positivos”, sublinham. Para além de sustentarem a economia local e a promoção nacional, existe uma contribuição geral para a pegada carbónica generalizada. Tem existido, de facto, uma escolha emotiva e racional do consumidor na procura de bens de proximidade e esperemos que esse hábito se mantenha e que se possa proteger e manter o que é nacional.

O défice alimentar em Portugal continua a ser dos mais altos da UE-28. 10% do total das nossas importações são agrícolas
(4º setor que mais importa), o que significa que dependemos dos outros países para nos alimentarmos. Ainda que em
2018, fossemos autosuficientes em vinho, azeite, leite, mel, ovos, hortícolas, arroz e tomate, não é suficiente na
nossa cadeia de alimentar. O grau de autoaprovisionamento nos cereais está abaixo de 25%, na carne abaixo de 76% e
nas frutas de 68% (ainda que em algumas frutas sejamos autosuficientes).

Peso crescente nas exportações

Em 2019 em Portugal, um dos principais produtos responsáveis pela evolução positiva das exportações foram as frutas
(que revelaram um aumento de 58,4 milhões de euros), com destaque para os frutos de pequena baga.

A exportação do vinho, até outubro de 2019, bateu recordes, atingindo valores de 678 milhões de euros, um crescimento
de 4%, em que os principais destinos fora da UE foram e são os EUA, Brasil e Angola. Infelizmente, prevê-se que este saldo
positivo não se vá repercutir este ano.

Portugal é também o terceiro maior exportador de azeite na UE e, só em 2019, exportou 56 mil toneladas para fora
da UE, correspondendo a 257,1 milhões de euros para os produtores nacionais, sendo que a maior parte destas
exportações têm como destino principal os EUA, Brasil e Japão, cujas fronteiras estão, neste momento, condicionadas.

No entanto, alertam os analistas, “os maiores consumidores são os principais produtores e, com hábitos de consumo diferentes, a procura destes países deverá cair, pelo que sabemos de antemão que haverá um excedente de produção mundial de azeite, e  consequentemente uma descida nos preços”.

No mercado interno, Portugal exportou 321 milhões de euros.

Os pequenos produtores nacionais, cuja produção só dependia do canal HORECA (hotéis, restaurantes e similares), como é o caso dos queijos, ovinos, caprinos e os leitões, esta Primavera saíram altamente prejudicados e, imediatamente repensaram em novos canais de distribuição.

Segundo o Outlook, o grande problema prende-se com o facto do comportamento do consumidor em casa ser totalmente diferente dos hábitos alimentares num hotel (enquanto estamos de férias), num restaurante (enquanto desfrutamos de uma refeição fora de casa) e até mesmo nos cafés.

“Mesmo que toda a população esteja a consumir mais em casa, nunca será compensatório ao que se consumia fora de casa, para certos mercados. E mesmo quando tudo voltar à ‘normalidade’ o consumo será diferente”, reforçam.

Os consumidores procuram o comércio online e vão menos vezes às compras, pelo que a sua compra é mais racional,
preferem produtos com uma maior longevidade, o que afeta os bens perecíveis.

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