Uma investigação do The New York Times revelou que o general Sergei Surovikin, então comandante das forças russas na Ucrânia, ponderou recorrer a armas nucleares táticas para impedir o avanço das tropas ucranianas em direção à Crimeia no outono de 2022. A informação terá sido obtida pelos serviços de inteligência norte-americanos, embora ainda não tenha sido possível verificar de forma independente estas alegações.
A possibilidade de utilização de armamento nuclear tem sido um elemento constante na retórica do Kremlin desde o início da invasão em fevereiro de 2022. O presidente russo, Vladimir Putin, chegou a colocar as forças estratégicas de dissuasão nuclear em estado de alerta máximo poucos dias após o início da ofensiva. Além disso, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou, meses depois, que o risco de um conflito nuclear tinha aumentado significativamente.
As declarações agora divulgadas reforçam as preocupações da comunidade internacional sobre a escalada do conflito. A administração norte-americana, liderada por Joe Biden, tem procurado evitar ações que possam agravar ainda mais a guerra, adotando uma posição prudente em relação ao fornecimento de armamento avançado a Kiev.
A ameaça nuclear e o avanço ucraniano
Segundo o The New York Times, a hipótese de uso de armas nucleares táticas por parte de Moscovo foi considerada em outubro de 2022, numa altura em que as forças ucranianas estavam a consolidar uma contraofensiva bem-sucedida no sul do país. Estas armas, diferentes das estratégicas limitadas pelo tratado New START, são concebidas para uso no campo de batalha e possuem um menor poder destrutivo.
Na altura, as agências de inteligência norte-americanas estimavam que a probabilidade de Moscovo recorrer a este tipo de armamento rondava os 5% a 10%. No entanto, caso a Ucrânia conseguisse recuperar território suficiente para ameaçar seriamente a ligação terrestre entre a Rússia e a Crimeia, essa possibilidade poderia aumentar para cerca de 50%.
Em novembro de 2022, a Rússia acabou por retirar as suas tropas para a margem oriental do rio Dnipro, permitindo à Ucrânia retomar o controlo da cidade de Kherson. A perda deste território foi um duro golpe para Moscovo, que poucos meses antes, em setembro, tinha anunciado a anexação de Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Luhansk. No entanto, esta anexação não foi reconhecida internacionalmente e, na prática, a Rússia nunca controlou totalmente essas regiões.
A Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, continua a ser um dos principais objetivos militares de Kiev, que prometeu recuperar a península. Caso as tropas ucranianas conseguissem avançar significativamente na região sul, a Rússia poderia ver ameaçada a sua chamada “ponte terrestre”, uma faixa de território que liga a Crimeia às áreas ocupadas no leste da Ucrânia.
A posição do general Surovikin
Surovikin, conhecido pelo seu papel brutal na campanha russa na Síria, liderou as operações militares na Ucrânia entre outubro de 2022 e janeiro de 2023. Foi substituído pelo general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior russo, como parte de uma reorganização do comando militar de Moscovo.
Apelidado de “General Armageddon” devido à sua estratégia implacável, Surovikin foi afastado do cargo de comandante das forças aeroespaciais russas em agosto de 2023, após um período de ausência pública na sequência da rebelião do Grupo Wagner contra o Kremlin em junho daquele ano.
O antigo comandante das forças armadas ucranianas e atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido, Valery Zaluzhnyi, alertou recentemente para a possibilidade de Moscovo recorrer a armas nucleares táticas “sob certas circunstâncias”. A ameaça continua a ser levada a sério por especialistas em segurança internacional.
Entretanto, continuam as negociações entre Kiev, Washington e Moscovo, com uma nova ronda de conversações marcada para meados de abril na Arábia Saudita. A administração norte-americana, agora sob uma nova liderança, tem procurado alcançar progressos diplomáticos, incluindo um possível cessar-fogo parcial em relação à infraestrutura energética e aos combates no Mar Negro. No entanto, recentes declarações de Donald Trump sobre a Rússia indicam que ainda existem divergências significativas entre as partes envolvidas.
O ex-presidente dos EUA revelou ainda que terá uma nova conversa com Vladimir Putin esta semana, reforçando a incerteza em torno do rumo das negociações sobre a guerra na Ucrânia.









