A pandemia da Covid-19 dá mostras de estar a entrar na sua fase final mas deixou diversos alertas a nível mundial. Um dos mais prementes, face à aceitação de que teremos de nos habituar a conviver com este coronavírus agora a nível endémico, é como lidar com doenças infeciosas emergentes e pandemias futuras, evitando o ‘transbordamento’ de doenças de animais para humanos. Um novo estudo, publicado na revista científica ‘Science Advances’, apontou um plano para tentar controlar eventos futuros – investigadores da Harvard TH Chan School of Public Health apontaram três ações económicas para ajudar a minorar os efeitos de possíveis pandemias.
Na opinião dos especialistas, as técnicas de prevenção incluem melhor vigilância de patógenos, melhor gestão do comércio e caça de animais selvagens e redução do desmatamento. Os custos anuais dessas ações de ‘prevenção primária de pandemias’ (17,45 mil milhões de euros) são menos de 5% do menor valor estimado de vidas perdidas por doenças infeciosas emergentes todos os anos, menos de 10% dos custos económicos e fornecem cobenefícios substanciais.
“Se a Covid-19 nos ensinou alguma coisa, é que testes, tratamentos e vacinas podem prevenir mortes mas não impedem a propagação de vírus em todo o mundo e podem nunca impedir o aparecimento de novos patógenos. Ao olharmos para o futuro, não podemos confiar apenas em estratégias pós-transbordamento para nos proteger”, apontou Aaron Bernstein, diretor do Centro de Clima, Saúde e Meio Ambiente Global da Harvard TH Chan School of Public Health, e líder de uma equipa de 20 especialistas responsáveis pelo estudo. “Gastar apenas cinco cêntimos de dólar pode ajudar a evitar o próximo tsunami de vidas perdidas por pandemias, tomando ações económicas que impedem que a onda emerja, em vez de pagar milhares de milhões de dólares para ‘consertar o estrago'”, referiu.
É estimado que 3,3 milhões de pessoas morram a cada ano de doenças infeciosas zoonóticas virais. O valor estimado destas mortes é – no mínimo – de 305,3 mil milhões de euros, com um adicional de 184,93 mil milhões em perdas económicas indiretas. Este valor é baseado em vidas perdidas de cada nova zoonose viral – doenças que ‘transbordam’ para humanos – desde 1918.
A prevenção é, para os autores do estudo, raramente abordada quando são discutidos os riscos pandémicos e recomendaram a revisão das “fases de emergência de doenças infeciosas” da Organização Mundial de Saúde para incluir uma fase específica para o ‘transbordamento’ de doenças infeciosas.
“Os recursos destinados à redução do desmatamento são um investimento para prevenir futuras epidemias, mas também para mitigar ameaças atuais, como a malária e doenças respiratórias associadas à queima da floresta”, lembrou Marcia Castro, professora de demografia da Andelot e presidente do Departamento de Saúde Global e População na Harvard Chan School. “Fazer estes investimentos em prevenção traz retornos à saúde humana, ao meio ambiente e ao desenvolvimento económico.”
Os investigadores recomendaram as seguintes ações para evitar o avanço para uma pandemia:
Melhor vigilância de patógenos que se podem espalhar de animais para pessoas – uma descoberta viral global deve ser desenvolvida para direcionar as atividades de prevenção geograficamente. Essa biblioteca pode ajudar a identificar rapidamente os patógenos quando eles surgem e acelerar a nossa capacidade de desenvolver testes e vacinas rapidamente e implantá-los amplamente. Veterinários mais bem treinados são necessários, especialmente em hotspots de ‘transbordamento’, para monitorizar doenças infeciosas emergentes.
Melhor gestão do comércio de vida selvagem e caça – a monitorização e a vigilância inadequados do comércio de animais permitem o aparecimento de doenças zoonóticas. É necessário um maior orçamento e pessoal para a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES), a Organização Mundial de Saúde Animal e agências nacionais encarregues de acompanhar a importação de animais.
Redução do desmatamento – o desmatamento, particularmente nos trópicos, coloca as pessoas em contato com os animais quando entram nas florestas, ou seja, cria bordas florestais que facilitam o contato entre pessoas e hospedeiros de reservatórios virais. A mitigação do desmatamento na Amazónia, por exemplo, é uma pedra angular da prevenção primária da pandemia. Florestas menores também são fontes importantes de patógenos emergentes devido à sua proximidade com zonas densamente povoadas. É preciso vincular medidas de conservação a investimentos no fortalecimento do sistema de saúde para apoiar as comunidades que vivem dentro e ao redor das florestas.
Em 2021, uma ‘task force’ liderada por Aaron Bernstein descobriu que o ‘transbordamento’ de patógenos com potencial para causar pandemias ocorre sobretudo nas operações de gado; caça e comércio de animais selvagens; destruição de florestas tropicais; expansão de terras agrícolas, especialmente perto de assentamentos humanos; e urbanização rápida e não planeada.




