GameStop: Câmara dos Representantes começa hoje a ouvir principais atores

A saga da GameStop tem sido descrita como uma vitória dos pequenos investidores sobre Wall Street, mas nem todos concordam, incluindo congressistas em Washington, promotores de uma audição na Câmara dos Representantes, que começa hoje.

A comissão dos Serviços Financeiros vai procurar esclarecer o episódio que levou as ações da GameStop a valorizarem 1.600% em janeiro antes de regressarem à Terra.

Envolvidos no assunto estão grandes fundos de investimentos especulativo (‘hedge funds’), administradores de uma plataforma de comunicação virtual e investidores normais que queriam participar neste investimento, entre outros.

Entre as pessoas que vão ser ouvidas estão uma controversa personalidade do Youtube e promotor da GameStop de 34 anos; um dos investidores bolsistas mais ricos e proeminentes; e o presidente executivo da plataforma de transações em linha Robinhood, que acolheu uma imensa vaga de investimentos especulativos na GameStop, mas enfrentou intensas críticas por ter restringido as transações no pico das transações.

O presidente executivo, Vlad Tenev, está a negar especulações de alguns congressistas de a Robinhood ter favorecido os seus grandes clientes de Wall Street quando bloqueou as aquisições de ações da GameStop e de uma dezena de outras empresas, em 28 de janeiro. Este bloqueio durou dias.

A acusação de que a Robinhood mudou as regras a meio do jogo para favorecer os grandes clientes, que continuariam a perder dinheiro se as ações da GameStop continuassem a subir.

“Qualquer alegação de que a Robinhood agiu para ajudar os ‘hedge funds’ ou outros interesses em detrimento dos nossos clientes é absolutamente falso e retórica distorcedora do mercado”, disse Tenev, no testemunho escrito que preparou para a audição. “Os nossos clientes são a nossa principal prioridade”.

Tenev reiterou a posição da Robinhood de que tinha imposto as restrições às transações apenas para cumprir os requisitos de capital definidos pelos reguladores.

Com o interrogatório a Tenev e outros envolvidos, os congressistas e os reguladores vão procurar ver o que a especulação com a GameStop diz sobre as linhas de fratura e os conflitos potenciais na estrutura do mercado que podem prejudicar investidores inexperientes.

O entusiasta promotor em linha da GameStop, Keith Gill, pretende dizer aos congressistas que obteve um lucro com os seus investimentos porque fez o trabalho de casa, e não porque propagandeou a ação junto de investidores sem traquejo, segundo as declarações que já preparou.

Entre os que vão depor no congresso está Tenev, que iniciou a Robinhood em 2013, com um colega estudante de Matemática da Universidade de Stanford.

A popularidade desta plataforma, com 13 milhões de utilizadores, tem crescido, graças a um formato simplificado e à gratuitidade da realização das operações. Esta empresa de Silicon Valley tencionava abrir o capital ao público este ano, mas o caso GameStop deu-lhe uma publicidade indesejada.

Com a sua missão declarada de “democratizar as finanças para todos”, a Robinhood oferecia transações sem cobrar comissões. Os seus críticos têm apontado que os utilizadores pagavam de outra maneira, mais escondida, porque a Robinhood dava a informação sobre as ações que estavam a comprar e vender a grandes firmas de Wall Street. E estas pagam à Robinhood e similares pelo envio das ordens dos clientes para as executarem.

De certeza que Tenev vai ser questionado se a suspensão abrupta, decidida pela Robinhood, das compras de títulos da GameStop foi feita no interesse da Citadel, uma das principais operadoras de Wall Street e o primeiro parceiro da Robinhood, ou de outras importantes operadoras.

A Citadel já assegurou que não instruiu nem forçou qualquer paragem, suspensão ou limitação, nem qualquer outra forma de negociar, em firmas de transações bolsistas”.

O presidente executivo da Citadel, Ken Griffin, é um dos gestores de mais rico ‘hedge fund’, em um setor cheio de multimilionários, que gerem ativos de biliões de dólares, e é conhecido pela sua propensão para um uso generalizado de vendas a descoberto (‘short-selling’), nas quais os fundos essencialmente apostam na desvalorização das ações. Griffin tem ligações políticas e tem sido um financiador importante dos republicanos.

Baseada em Chicago, a Citadel é um dos maiores ‘hege funds’ e o seu departamento de transações em títulos intervém em cerca de 25% de todas as transações bolsistas nos EUA.

A Citadel, juntamente com mais alguns fundos, participou no salvamento da Melvin Capital Management depois de esta ter sorrido prejuízos de milhares de milhões de dólares nas suas apostas na GameStop. O fundador e diretor de investimentos da Melvin, Gabriel Plotkin, também vai ser ouvido na Câmara dos Representantes.

O regulador da bolsa (SEC, na sigla em Inglês) já disse que está a investigar as restrições às transações da ação GameStop e outras pela Robinhood e outros intermediários em linha, bem como o papel que as vendas a descoberto podem ter na variação extrema das cotações do título GameStop.

Os pequenos investidores foram vistos como os vencedores depois de se terem mobilizado em linha contra os pesos pesados de Wall Street. As suas compras fizeram disparar a cotação da GameStop e outras empresas com problemas além do que a imaginação podia conceber.

Sem ser coincidência, isto traduziu-se em perdas de milhares de milhões de dólares aos ‘hedge funds’ que servem os ultra ricos e tinham apostado na baixa do título.

A estratégia populista dos investidores foi claramente arriscada. Depois da fortíssima valorização de janeiro, caiu 60% em 02 de fevereiro, para 90 dólares, e mais 42% em 04 de fevereiro, para 53. Agora, evolui em torno dos 46 dólares.

Entretanto, está a correr uma série de processos em tribunais federais conta a Robinhood, com os queixosos a acusá-la de lhes ter provocado perdas, com o congelamento das transações da GameStop

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