Galinhas nascem de “ovos artificiais”: empresa que quer ressuscitar animais extintos há séculos anuncia avanço polémico

Tecnologia é apresentada como um passo importante para um objetivo ainda mais ambicioso: tentar desenvolver aves extintas de grande dimensão, como o moa gigante da Ilha Sul da Nova Zelândia

Francisco Laranjeira

A empresa americana de biotecnologia Colossal Biosciences, conhecida pelos seus projetos para tentar recriar animais extintos como o mamute-lanoso, o dodó ou o lobo-terrível, anunciou ter conseguido criar galinhas vivas a partir de “ovos artificiais” impressos em 3D.

A tecnologia, avança o ‘El País’, é apresentada como um passo importante para um objetivo ainda mais ambicioso: tentar desenvolver aves extintas de grande dimensão, como o moa gigante da Ilha Sul da Nova Zelândia.

Segundo a empresa, 26 pintos saudáveis da raça Leghorn nasceram em estruturas artificiais feitas com uma membrana transparente de silicone, concebida para imitar as funções de um ovo natural. A raça Leghorn é amplamente usada na produção avícola, sobretudo pelos seus ovos brancos.

Andrew Pask, responsável de biologia da Colossal, explicou ao ‘El País’ que se trata de uma prova de conceito para demonstrar que a tecnologia pode ser escalada e que o sistema procura imitar um ovo natural da forma mais fiel possível. Quando o embrião está pronto para nascer, o “ovo” é retirado da incubadora e o pinto rompe a membrana, num processo semelhante à eclosão de um ovo normal.

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A Colossal defende que a principal inovação está no facto de estes ovos artificiais não exigirem oxigénio suplementar. A membrana macia permitiria a passagem natural de oxigénio, resolvendo uma das barreiras técnicas que dificultaram experiências anteriores com incubação artificial. A transparência do sistema permite ainda observar o desenvolvimento do embrião em tempo real.

A notícia foi também avançada pela ‘Associated Press’, que refere que a tecnologia usa uma estrutura artificial para permitir o desenvolvimento de embriões fora da casca biológica, mas sublinha que especialistas independentes continuam cautelosos perante o anúncio.

O objetivo maior da empresa passa pelo moa gigante, uma ave extinta da Nova Zelândia que podia atingir quase quatro metros de altura e pesar cerca de 85 quilos. Os moas desapareceram há cerca de 600 anos, após a chegada dos polinésios à Nova Zelândia e de espécies introduzidas como cães e ratos. Por causa da dimensão dos ovos, seria impossível recorrer a aves atuais como substitutas naturais para gerar um animal semelhante.

A Colossal afirma estar a recolher DNA das nove espécies extintas de moa, incluindo o moa gigante da Ilha Sul, para tentar obter genomas completos. A partir daí, o objetivo seria criar embriões geneticamente modificados e desenvolvê-los em ovos artificiais adaptados à sua escala.

Ainda assim, o anúncio não é acompanhado por um estudo científico revisto por pares. Este tem sido um ponto recorrente nas comunicações da Colossal, que já apresentou outros avanços mediáticos sem publicação científica independente, incluindo ratos com características genéticas associadas ao mamute-lanoso e lobos-cinzentos editados para se assemelharem ao lobo-terrível.

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O ‘The Guardian’, que também noticiou o anúncio, sublinha que a ausência de dados publicados dificulta a avaliação independente da tecnologia e que continuam por resolver desafios centrais, como a reconstrução fiável de genomas completos, o desenvolvimento embrionário e o enquadramento ecológico dos animais que viessem a ser criados.

Cientistas independentes reagiram com uma mistura de interesse e ceticismo. A geneticista Louise Johnson, da Universidade de Reading, considerou que o anúncio “parece impressionante”, mas lembrou que isso seria expectável num comunicado de imprensa. Para a investigadora, são necessários dados concretos para perceber se está em causa um verdadeiro salto científico.

Carles Lalueza-Fox, geneticista do Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha, reconheceu que a Colossal conseguiu desenvolver um sistema sem precedentes comparáveis, potencialmente útil para espécies com ovos de grandes dimensões. Mas alertou para as dúvidas éticas e ecológicas: mesmo que uma ave atual fosse redesenhada geneticamente para se parecer com um moa, isso não significaria recuperar verdadeiramente a espécie extinta.

A mesma reserva é partilhada por Dusko Ilic, médico e biólogo molecular do King’s College London. Para o especialista, a tecnologia de incubação pode ser interessante, mas deve ser separada da narrativa da “desextinção”. Recriar uma espécie como o moa exigiria muito mais do que um ovo artificial: seria necessário reconstruir o genoma, garantir desenvolvimento adequado, comportamento, bem-estar animal e um contexto ecológico viável.

A Colossal, cofundada em 2021 pelo geneticista George Church, da Universidade de Harvard, já angariou mais de 620 milhões de dólares, cerca de 548 milhões de euros, junto de investidores como Paris Hilton, Peter Jackson e Thomas Tull, um dos nomes ligados a Jurassic World. A empresa defende que a desextinção pode ser uma ferramenta para conservar espécies ameaçadas e restaurar funções ecológicas perdidas.

Os críticos, porém, acusam a Colossal de misturar avanços científicos reais com comunicação altamente promocional. A tecnologia dos ovos artificiais pode vir a ter aplicações úteis na conservação de aves ameaçadas, na investigação biomédica ou na produção de anticorpos. Mas, para já, a promessa de trazer de volta o moa, o dodó ou o mamute continua a levantar mais perguntas do que respostas.

O ponto essencial é este: nascerem galinhas em ovos artificiais pode ser um avanço técnico relevante. Mas transformar esse feito na “ressurreição” de espécies extintas exige prudência científica, validação independente e uma discussão ética que ainda está longe de estar encerrada.

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