Fundadores do Chega deixam partido e denunciam ilegalidades

Dois fundadores do Chega decidiram deixar o partido mas não o fizeram em silêncio. Jorge Castela e Pedro Perestrello deixam críticas a André Ventura, presidente e deputado eleito para a Assembleia da República, denunciam pressões e ilegalidades internas. Em entrevista à revista Sábado, Pedro Perestrello recorda, por exemplo, os contornos dúbios da forma como foram recolhidas as assinaturas necessárias para o Chega assumir o título de partido.

«O Nuno [Afonso] estava sempre a esconder e a evitar que olhássemos para as assinaturas. Pedimos várias vezes. Nós achávamos muito estranho», afirma o responsável. «Entre nós, nunca ninguém acreditou que o responsável por organizar e contar as assinaturas não tenha reparado que existem cerca de 300 páginas todas com a mesma caneta, a mesma letra e assinaturas todas parecidas», acrescenta Pedro Perestrello.

Das 8.312 fichas entregues ao Tribunal Constitucional a 23 de Janeiro deste ano, 1.813 não foram validadas. Sublinha a Sábado que mais de mil levantaram suspeitas de falsificação, levando o Ministério Público a extrair certidão para abrir um processo-crime.

Entretanto, Nuno Afonso, o responsável pelas assinaturas, subiu a chefe de gabinete de André Ventura e Jorge Castela e Pedro Perestrello abandonaram o partido. O primeiro a sair foi mesmo Jorge Castela, no dia em que soube que o Ministério Público investigava as assinaturas. O advogado e ex-administrador no Grupo PT (de 1999 a 2006) terá enviado um email à cúpula do Chega a 6 de Março, onde se distancia da questão das assinaturas e vinca a gravidade daquilo que apelida de «prática criminosa».

A investigação da mesma publicação revela que, detectadas as assinaturas falsas por parte do Tribunal Constitucional, o Chega tinha 10 dias úteis para substituir as fichas invalidadas, de forma a conseguir as 7.500 necessárias. O partido apresentou mais 2.223 mas, mesmo assim, 826 voltaram a apresentar problemas. Ao todo, foram consideradas irregulares cerca de 2.600 assinaturas a favor da criação do Chega.

No acórdão de 9 de Abril a que a Sábado teve acesso, o Tribunal Constitucional afirma que “os indícios revelados por aquele exame não são tranquilizadores quanto à forma como foram feitas ou obtidas as subscrições não validadas (…) Mas não cabe a este Tribunal, neste âmbito, retirar quaisquer consequência desses indícios no plano criminal, sendo certo que o Ministério Público, a quem compete a acção penal, já requereu – e obteve – nos presentes autos a extracção de certidão, por considerar que poderá estar indiciada a prática de crimes, designadamente do crime de falsificação ou contrafacção de documentos”.

Nuno Afonso garante não ter qualquer responsabilidade nas falsificações das assinaturas, assegurando que muitas pessoas do partido saíram para a rua em busca de assinaturas. André Ventura, por seu turno, afirma ter confiança no seu chefe de gabinete: «Com o timing que tínhamos, pressionados em tornar-nos partido a tempo das Europeias, era muito difícil fazer um controlo de verificação. É muito injusto responsabilizar o Nuno Afonso por isso – ele assumiu uma função de risco, que mais ninguém queria.»

Depois de Jorge Castela, Pedro Perestrello também saiu do partido. Neste caso, foi depois de André Ventura propor uma Comissão Instaladora que seria hierarquicamente dependente de Nuno Afonso. Mas há mais pessoas a deixar o barco, nomeadamente elementos dos núcleos de Portimão, Silves, Albufeira, Loulé, Faro, São Brás de Alportel, Tavira, Olhão e Vila Real de Santo António. Adair Ribeiro, que era responsável pela página de Facebook do partido, também saiu.

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