Fumo branco na Alemanha: Merz e SPD anunciam coligação com reforço da defesa, deportações e serviço militar voluntário

Conservadores e social-democratas selam acordo de governo com promessas de estabilidade, mais gastos militares, medidas restritivas na imigração e reforma do Estado. SPD vai consultar militantes antes da ratificação final.

Pedro Gonçalves
Abril 9, 2025
16:00

A Alemanha terá um novo governo liderado por uma coligação entre os conservadores da CDU/CSU e os sociais-democratas do SPD. O futuro chanceler, Friedrich Merz, anunciou esta quarta-feira à tarde o acordo político, depois de seis semanas de intensas negociações, garantindo que se trata de uma aliança que pretende oferecer “estabilidade e força” não apenas ao país, mas também a toda a Europa.

“Este acordo é um sinal claro para os cidadãos alemães, mas também para os restantes europeus: a Alemanha vai ter um novo governo que trará estabilidade e força”, declarou Merz, ao apresentar os termos do pacto com os sociais-democratas. Segundo o líder da CDU, o novo executivo procurará governar a partir do centro político, numa resposta implícita à crescente popularidade da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), que, desde as eleições de 23 de fevereiro, atingiu 24% nas sondagens — empatando com a CDU.



Merz sublinhou que o país deve participar “ativamente no ponto de inflexão global” em matéria de política externa e segurança. Por isso, anunciou um aumento significativo dos gastos com a defesa e a revalorização do serviço militar com base na voluntariedade, inspirando-se no modelo sueco. “A Alemanha tem de melhorar nas áreas da política externa e da segurança”, afirmou o futuro chanceler.

O documento que estabelece a base do novo governo foi intitulado Responsabilidade para a Alemanha e contém diversas medidas prioritárias nas áreas da defesa, economia e imigração. Markus Söder, presidente da Baviera e destacado aliado de Merz, sintetizou o programa com a fórmula: “mais liberdade e menos burocracia, mais eficiência e menos impostos, mais Bundeswehr e menos imigração ilegal”.

Políticas migratórias mais restritivas
Um dos pontos mais sensíveis do acordo foi precisamente a imigração. A coligação compromete-se a endurecer as políticas migratórias, regressando a práticas anteriores a 2015, como os controlos fronteiriços e as deportações de criminosos para países como o Afeganistão e a Síria. Estão também previstos o fim dos programas de acolhimento voluntário e a introdução, a nível nacional, de um sistema de pagamento com cartão para refugiados.

Além disso, os refugiados ucranianos deixarão de receber apoios sociais, numa medida que já está a gerar debate público. Ainda assim, Lars Klingbeil, líder do SPD e futuro ministro das Finanças, garantiu que “a Alemanha é e continuará a ser um país de imigração”, sublinhando que o acordo representa um equilíbrio entre firmeza e integração.

Apesar do entendimento com a CDU, o SPD irá submeter o acordo à aprovação das suas bases. Klingbeil já começou a preparar os militantes para as dificuldades que se avizinham: “No futuro não poderemos permitir-nos tudo”, advertiu. E acrescentou: “A CDU e o SPD combateram duramente durante a campanha, mas agora uniram-se. Isso já não é uma coisa natural nos tempos que correm e é mais necessário do que nunca construir pontes.”

O líder social-democrata reconheceu ainda que os desafios exigem mais do que recursos financeiros: “O dinheiro, por si só, não chega. Este governo exige uma mudança de mentalidade na Alemanha. Temos de nos livrar das máquinas de fax no nosso país.”

No novo executivo, os conservadores ficarão com os ministérios da Economia e Energia, Negócios Estrangeiros, Família, Saúde, Transportes, Digitalização e Modernização do Estado, Administração Interna, Investigação e Tecnologia e Agricultura. Já os sociais-democratas liderarão as pastas das Finanças, Justiça, Trabalho, Defesa, Ambiente, Cooperação para o Desenvolvimento e Habitação.

Num contexto marcado pela pressão internacional, pela política de tarifas de Donald Trump e pelo crescimento da AfD, a nova coligação procura responder com pragmatismo e estabilidade. “Estamos aqui para vos proteger e apoiar, a todos os que trabalham arduamente neste país, independentemente de onde tenham nascido”, reforçou Markus Söder, numa das frases mais simbólicas da apresentação do acordo de governo.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.