‘Frota fantasma’ do Irão que transporta milhões de toneladas de petróleo é “bomba-relógio” ambiental, avisam especialistas

Uma frota de petroleiros envelhecidos utilizada pelo Irão para contornar sanções internacionais está a gerar sérias preocupações entre especialistas em segurança marítima e ambiente, que alertam para o risco iminente de um derrame petrolífero de grandes dimensões, potencialmente superior ao histórico desastre do Exxon Valdez.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 10, 2026
13:20

Uma frota de petroleiros envelhecidos utilizada pelo Irão para contornar sanções internacionais está a gerar sérias preocupações entre especialistas em segurança marítima e ambiente, que alertam para o risco iminente de um derrame petrolífero de grandes dimensões, potencialmente superior ao histórico desastre do Exxon Valdez, no Alasca.

Segundo uma investigação citada pelo The Guardian, analistas de inteligência marítima consideram que os navios operam em condições precárias, muitas vezes fora dos sistemas de monitorização e sem cumprir padrões internacionais de segurança, configurando aquilo que descrevem como uma verdadeira “bomba-relógio” ambiental.



A análise foi conduzida pela Pole Star Global, que avaliou 29 embarcações iranianas que desapareceram dos sistemas de rastreio por satélite — prática conhecida como “ir dark” — depois de os Estados Unidos terem apreendido, em dezembro, um petroleiro venezuelano.

Metade destes navios já ultrapassou os 20 anos de vida útil recomendados como limite de segurança. Sete foram classificados como de “risco extremo”, com mais de 25 anos, e três ultrapassam mesmo os 30 anos de operação. Cinco pertencem à categoria de “very large crude carriers”, capazes de transportar cerca de 300 mil toneladas de petróleo.

Por operarem na sombra, estas embarcações são consideradas mal mantidas e propensas a falhas técnicas, podendo não cumprir normas internacionais básicas de segurança.

Risco de derrame “muito maior” do que a Exxon Valdez
Os especialistas admitem que o impacto de um eventual acidente poderá ultrapassar o registado em 1989, quando o Exxon Valdez libertou 37 mil toneladas de crude no mar, num dos piores desastres ambientais da história.

Saleem Khan, responsável pelos dados e análises da Pole Star Global, foi direto ao classificar a situação: “É como uma bomba-relógio”, acrescentando que é apenas “uma questão de tempo” até que um destes navios encalhe, se parta ou sofra uma explosão que provoque um derrame de grande escala.

O especialista explicou que estas embarcações transportam petróleo frequentemente sob pressão e dependem de maquinaria que tem de funcionar na perfeição para evitar incêndios ou explosões, frisando que “a grande questão é a dimensão que um desastre destes pode atingir – pode ser múltiplas vezes superior ao Exxon Valdez”.

Ainda assim, reconheceu que se trata de um negócio altamente lucrativo para os envolvidos, o que reduz incentivos para mudanças: “É um comércio muito rentável para todos os participantes. Têm interesse em mantê-lo.”

Falta de seguro agrava custos para os países afetados
Outro fator crítico é a ausência de seguros. De acordo com os analistas, a maioria dos petroleiros da chamada “frota fantasma” não tem cobertura, o que significa que, em caso de acidente, os custos de limpeza e recuperação ambiental recairiam sobre o país afetado.

As estimativas apontam para despesas entre 860 milhões e 1,6 mil milhões de dólares por derrame.

Nos últimos anos, foram registados mais de 50 incidentes envolvendo petroleiros clandestinos em todo o mundo, incluindo colisões e marés negras. Entre 2021 e 2024, nove manchas de óleo na Tailândia, Itália e México foram atribuídas a navios russos da chamada “dark fleet”. A frota iraniana, contudo, tem sido menos escrutinada.

Frota global às centenas
No total, estima-se que existam centenas de petroleiros a operar em condições semelhantes, representando cerca de 17% da frota mundial.

A Rússia possui atualmente a maior frota paralela. Em dezembro de 2024, dois petroleiros russos envelhecidos provocaram um derrame significativo no Mar Negro, após o afundamento de um e o encalhe do outro.

Mark Spalding, presidente da Ocean Foundation, reforçou os alertas, afirmando que “a frota fantasma do Irão representa uma ameaça ambiental significativa e crescente”. Para o responsável, “a questão não é se ocorrerá um grande incidente, mas quando e que comunidades costeiras e ecossistemas marinhos pagarão o preço de um sistema de transporte concebido para fugir à responsabilização”.

Spalding acrescentou ainda que “a dimensão ambiental destas operações tem recebido atenção insuficiente”.

Estratégias para fugir às sanções
Estes navios recorrem frequentemente a práticas enganosas, como bandeiras falsas, registos fictícios de propriedade e manipulação ou bloqueio dos sistemas de identificação automática (AIS), de forma a transportar mercadorias sujeitas a sanções.

O comércio de petróleo nestas condições movimenta milhares de milhões de dólares por ano. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou em outubro que apenas o comércio clandestino russo vale cerca de 30 mil milhões de euros anuais, financiando entre 30% e 40% do esforço de guerra na Ucrânia.

Pressão internacional ainda descoordenada
Os Estados Unidos têm liderado as ações contra estas frotas, apreendendo navios ligados à Rússia e à Venezuela. França, Alemanha, Estónia e outros países também intercetaram embarcações.

O Reino Unido, apesar de controlar um ponto estratégico de passagem no Canal da Mancha, tem sido mais cauteloso, embora tenha recentemente ameaçado apreender um petroleiro ligado à Rússia. Em janeiro, o navio Marinera foi perseguido do Caribe até ao Atlântico Norte e acabou apreendido entre a Escócia e a Islândia, com apoio britânico.

A Pole Star Global concluiu que “a combinação de idade avançada das embarcações, ausência de seguro ocidental e padrões de manutenção reduzidos sob sanções cria um risco elevado de danos ambientais catastróficos”.

Um único acidente com um dos maiores navios poderá gerar manchas tóxicas de óleo a cobrir milhares de quilómetros quadrados, provocar mortalidade massiva de vida marinha, contaminar entre 500 e 1.000 milhas de costa e afetar gravemente a saúde pública e os meios de subsistência locais.

Os especialistas defendem maior monitorização por satélite, inspeções portuárias mais rigorosas e sanções direcionadas aos proprietários efetivos dos navios de maior risco. Ainda assim, Khan reconheceu que “não existe qualquer esforço internacional coordenado”.

A Organização Marítima Internacional (IMO) recordou que embarcações que não cumpram regras de segurança e ambiente “colocam os marítimos, o meio marinho e o comércio global em risco”, estando atualmente a rever mecanismos legais para reforçar transparência e impedir registos falsos.

O governo britânico afirmou, por seu lado, que continua empenhado em travar estas operações, pedindo prova de seguro e aplicando sanções. Desde outubro de 2024, Londres já terá desafiado cerca de 600 navios suspeitos de integrarem a frota clandestina.

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