O Bundestag elege esta terça-feira o conservador Friedrich Merz como novo chanceler da Alemanha, marcando o início de um novo ciclo político no país. O líder da União Democrata-Cristã (CDU), que venceu as eleições federais antecipadas a 23 de fevereiro numa coligação com a União Social-Cristã (CSU), deverá assumir oficialmente a chefia do Governo após a votação na câmara baixa do parlamento alemão, onde se espera que conquiste a maioria dos 630 deputados.
A eleição de Merz põe fim ao mandato de Olaf Scholz, que liderava o executivo desde dezembro de 2021. A transição de poder será acompanhada da constituição formal do novo Governo federal, um executivo de coligação entre os conservadores (CDU/CSU) e o Partido Social-Democrata (SPD), num arranjo inédito que reúne forças tradicionalmente rivais no espectro político alemão.
Apesar da clara vitória da CDU/CSU nas eleições de fevereiro, a formação do novo Governo só agora será formalizada, com a apresentação integral das pastas e respetivos responsáveis. Os conservadores já anunciaram os nomes dos seus dez ministros.
Entre os nomes já conhecidos, destaca-se Lars Klingbeil, co-líder do SPD, que ficará com o Ministério das Finanças e assumirá ainda o cargo de vice-chanceler. Klingbeil, que ocupava anteriormente o cargo de secretário-geral do partido, foi um dos principais negociadores do SPD nas conversações de coligação, apesar do fraco desempenho eleitoral dos sociais-democratas.
O SPD deverá assumir, além das Finanças, as pastas da Defesa, Trabalho e Assuntos Sociais, Justiça e Proteção ao Consumidor, Ambiente e Proteção Climática, Cooperação e Desenvolvimento Económico, Habitação, Desenvolvimento Urbano e Construção.
No núcleo mais próximo de Friedrich Merz estará Thorsten Frei, nomeado ministro da Chancelaria. Frei, deputado desde 2013, é uma figura controversa pelas suas posições sobre política de asilo, defendendo publicamente o fim do direito individual ao asilo e a criação de um sistema de quotas. Terá um papel-chave na coordenação do Governo e no contacto com os estados federados.
Uma das grandes novidades estruturais é a criação de dois novos ministérios: o da Digitalização e Modernização do Estado e o do Desporto e Voluntariado. O primeiro será liderado por Karsten Wildberger, um independente vindo do setor privado, com carreira nas telecomunicações e no retalho tecnológico. O segundo ficará a cargo de Christiane Schenderlei, filósofa com trabalho reconhecido no campo do voluntariado, mas praticamente desconhecida no meio desportivo alemão.
Na Economia e Energia, o cargo será ocupado por Katherina Reiche, da CDU, uma ex-parlamentar formada em Química que esteve vários anos no setor energético privado, à frente da Westenergie. A escolha é vista como um regresso surpreendente à política ativa.
Alexander Dobrindt, da CSU, assumirá o Ministério do Interior. Figura de linha dura, é conhecido pelas suas posições firmes em matéria de segurança e imigração, alinhadas com uma política de “lei e ordem”.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros será liderado por Johann Wadephul, da CDU, advogado, ex-militar e especialista em assuntos internacionais e defesa. Próximo de Merz, Wadephul é também vice-presidente do grupo parlamentar da CDU/CSU e da Assembleia Parlamentar da NATO, e terá a missão de redefinir a política externa alemã num momento de incerteza global.
Mais mulheres no executivo, mas nomes ainda por confirmar no SPD
O novo elenco ministerial da CDU/CSU inclui ainda Nina Warken (Saúde), Karin Prien (Educação e Família), Patrick Schnieder (Transportes), Dotothee Bär (Investigação, Tecnologia e Espaço) e Alois Rainer (Agricultura).
A composição final do Governo ficará completa com os nomes restantes do SPD, que serão anunciados no dia seguinte à posse de Merz. Ainda assim, os primeiros detalhes revelam um executivo equilibrado em termos partidários, com uma representação significativa de mulheres, e marcado por uma aposta na modernização do Estado e no reforço de áreas como o desporto e o ambiente.
A eleição de Friedrich Merz como chanceler marca o regresso da CDU ao poder após quatro anos na oposição. Com um perfil mais liberal-conservador, Merz herda uma Alemanha em transformação — pressionada pelas mudanças geopolíticas, pela transição energética e por um debate interno sobre imigração, identidade e futuro económico.












