Freira convocada por erro para reunião de cardeais antes do conclave que vai decidir sucessor do Papa Francisco

A Irmã Simona Brambilla, superiora do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica — conhecido como Dicastério para os Religiosos — recebeu por engano um convite para participar nas congregações gerais que antecedem o conclave, reservado exclusivamente aos cardeais.

Pedro Zagacho Gonçalves

Numa altura em que a Igreja Católica se encontra em luto pela morte do Papa Francisco e se prepara para eleger o seu sucessor, um erro administrativo no Vaticano acabou por simbolizar, de forma inesperada, a marca reformista do pontificado que agora termina. A Irmã Simona Brambilla, superiora do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica — conhecido como Dicastério para os Religiosos — recebeu por engano um convite para participar nas congregações gerais que antecedem o conclave, reservado exclusivamente aos cardeais.

Segundo revelou o portal Crux, o convite foi enviado na segunda-feira, 21 de abril, por iniciativa do cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, que endereçou uma comunicação padrão aos responsáveis pelos diversos dicastérios vaticanos. A mensagem, no entanto, foi remetida a Brambilla com a fórmula “Il prefetto Simona Brambilla”, utilizando o artigo masculino tradicionalmente reservado a homens no cargo — numa alusão implícita às normas que impedem mulheres de aceder ao cardinalato e, por extensão, à participação em reuniões de cardeais.

Um gesto acidental, mas que não deixa de ter carga simbólica
A participação nas congregações gerais, que se realizam antes do conclave, está legal e canonicamente reservada aos cardeais — todos homens, dado que apenas clérigos ordenados podem ser elevados ao cardinalato. São nestas sessões que se discutem os principais desafios da Igreja e o perfil do novo papa. Apesar de haver há anos debates sobre a eventual inclusão de mulheres neste processo, ou mesmo a hipótese de se nomearem cardeais do sexo feminino, nenhuma destas reformas foi concretizada por Francisco.

Ainda assim, o convite inadvertido dirigido a Brambilla acaba por evidenciar, com ironia, os avanços reais alcançados durante o pontificado do Papa argentino e os limites que, apesar das expectativas, se mantiveram inalterados.

Ao longo do seu pontificado, o Papa Francisco defendeu repetidamente uma maior participação das mulheres na liderança da Igreja, embora rejeitando a “clericalização” feminina. Sublinhou que a ordenação sacerdotal das mulheres estava fora de questão, afirmando que “a porta está fechada”, mas promoveu o debate sobre o diaconado feminino e nomeou várias mulheres para cargos de elevada responsabilidade na Cúria Romana.

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Em janeiro deste ano, Francisco causou surpresa ao nomear Simona Brambilla como prefeita do Dicastério para os Religiosos, tornando-se a primeira mulher a liderar um departamento vaticano com tal estatuto. A decisão foi ainda mais notável por, ao mesmo tempo, ter sido nomeado um cardeal como pro-prefeito subordinado a Brambilla, invertendo a hierarquia tradicional. A medida gerou reações diversas, dado que, até então, se considerava que apenas clérigos ordenados podiam tomar decisões vinculativas em nome do papa.

Francisco procurou reformar essa ideia com a constituição Praedicate Evangelium, publicada em 2022, onde separa de forma mais clara o exercício do governo eclesiástico da necessidade de ordenação, abrindo caminho para que leigos — e leigas — ocupem cargos até então reservados a sacerdotes.

Em fevereiro, já depois de ter sido hospitalizado, Francisco voltou a surpreender ao nomear a Irmã Raffaella Petrini como secretária-geral do Governo do Estado da Cidade do Vaticano, cargo que, embora não seja formalmente o de prefeita de um dicastério, lhe confere uma autoridade significativa, tornando-a uma das figuras mais poderosas da Santa Sé.

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Estas nomeações espelham um dos legados mais visíveis do Papa Francisco: a tentativa de desconstruir hierarquias rígidas e abrir espaço para a presença feminina em posições de decisão, mesmo sem alterar formalmente as regras do acesso ao sacerdócio ou ao cardinalato.

Embora o convite dirigido a Simona Brambilla tenha sido um erro administrativo, não deixou de gerar comentários no seio do Vaticano e entre observadores da vida eclesial. Para muitos, tratou-se de um lembrete involuntário — mas eloquente — das mudanças que Francisco iniciou, bem como das reformas que ficaram por concretizar.

Numa fase em que os cardeais se preparam para escolher o próximo papa, este incidente serve também como sinal do caminho percorrido e dos debates que inevitavelmente continuarão no seio da Igreja Católica.

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