A França é o último país da Europa que mantém os traços do seu antigo império. E, aparentemente, esse império não gosta do seu presidente, o recém-eleito Emmanuel Macron. Na primeira volta das eleições presidenciais, em Martina, Guadalupe, Reunião e Guiana Francesa, o candidato mais votado foi o esquerdista Jean-Luc Mélenchon. Nas ilhas do Pacífico, o triunfo coube a Marine le Pen. Nem mesmo na segunda volta Macron conseguiu a maioria dos votos nessas regiões.
No início da década de 1950, as colónias francesas estendiam-se ao redor do globo e cobriam 15 milhões de milhas. Mais de 70 anos volvidos, ainda é o país da União Europeia com mais regiões ultraperiféricas longe do Velho Continente. A França ultramarina representa 18% de todo o território da República francesa e 4% da população – a maior parte destes 120 mil quilómetros quadrados são formados por ilhas e arquipélagos espalhados pelos Oceano Pacífico, Índico e Atlântico. O único território integrado num continente é a Guiana Francesa, na América do Sul, onde aliás se pode encontrar o Centro Espacial de Kourou, base de lançamentos da Agência Espacial Europeia (ESA).
Os territórios do ultramar franceses estão divididos em departamentos, regiões e comunidades – mas as relações destes territórios com a metrópole nem sempre foram fáceis. No atol da Polinésia francesa, por exemplo, a decisão do Governo francês em realizar testes nucleares levou a população local a expressar abertamente o seu ressentimento.
Entre os anos 1960 e 1990, França realizou cerca de 200 testes nucleares nas ilhas da Polinésia Francesa. O impacto destes à saúde dos habitantes do arquipélago nunca foi muito claro mas um relatório independente de 2021 apontou que cerca de 110 mil pessoas foram afetadas pelos níveis de radiação dos testes, um número praticamente equivalente ao total da população à altura das explosões.
O projeto foi descontinuado após protestos sobre a falta de transparência do Governo francês. Durante todo esse tempo, os reais impactos na população local, nos trabalhadores do projeto e nos soldados ficaram escondidos da opinião pública. No entanto, as suspeitas de graves consequências não pararam de crescer: nas últimas décadas, a Polinésia francesa viu os seus níveis de cancro crescerem acima do normal. O Governo francês foi pressionado a investigar mas não assumiu as responsabilidades: em 2006, a Comissão Francesa de Energias Alternativas e Energia Atómica estimou a quantidade dos níveis radioativos e concluiu que menos de 10 mil pessoas tenham sido afetadas diretamente.
Sucedem-se os pedidos de indemnização mas até agora somente 500 pessoas receberam algum tipo de indemnização – a maioria eram soldados ou ocupavam algum cargo no Governo. Apenas 63 eram habitatntes da Polinésia Francesa, sem relação direta aos testes. Cerca de 80% das solicitações de indemnização foram negas sem uma justificação sólida.
Leucemia, linfomas, cancro em órgãos como tiroide, pulmão, mama e estômago são consequências dos testes que ainda estão altamente presentes na população da Polinésia Francesa.
Na Nova Caledónia, a luta passa pela independência já provocou distúrbios violentos e um referendo já foi votado em três ocasiões. De acordo com os resultados oficiais definitivos, em dezembro de 2021, o “não” venceu por 96,49% dos votos, enquanto o “sim” ficou com 3,51%. Os votos brancos e nulos somaram 2,99%. A participação foi de 43,9%, uma queda expressiva em comparação com os índices de abstenção apresentados nos referendos anteriores. “A França fica mais bonita porque a Nova Caledónia decidiu ficar”, disse o presidente francês Emmanuel Macron, após a divulgação dos resultados.











