A presença de uma das mais modernas fragatas da Marinha russa ao largo da ilha alemã de Fehmarn elevou a tensão no mar Báltico. O Almirante Kasatonov, navio de guerra da classe Project 22350, foi avistado numa das zonas marítimas mais movimentadas da Europa e surge num momento de crescente confronto entre Moscovo e países europeus devido às operações contra a chamada «frota sombra» russa.
A informação é avançada pelo ABC, que dá conta da presença da fragata russa junto à costa alemã e enquadra o movimento nas recentes ameaças do Kremlin contra países europeus que têm intercetado navios utilizados para contornar as sanções impostas à Rússia. O navio terá navegado aparentemente sem o transponder ligado, o que faz com que não seja apresentado nos sistemas de radar convencionais.
Fehmarn é uma ilha turística alemã conhecida pelas suas cerca de 2.000 horas de sol por ano, mas a paisagem habitual junto à costa ganhou uma dimensão muito diferente este verão. A poucos quilómetros das praias surgiu um navio militar russo equipado com sistemas de armas sofisticados, incluindo mísseis hipersónicos com capacidade nuclear, armamento ofensivo de longo alcance e meios avançados para operações de guerra antissubmarina.
O Almirante Kasatonov pertence ao Project 22350, uma das classes mais modernas de fragatas russas. O armamento deste tipo de navio inclui mísseis antinavio Oniks e Kalibr, o sistema de defesa antiaérea Poliment-Redut, torpedos antissubmarinos Paket-NK e uma peça de artilharia.
A presença da fragata assume particular relevância por ocorrer numa das principais rotas comerciais marítimas europeias e num contexto de crescente atividade militar russa nas proximidades do território da NATO. O artigo aponta ainda para informações de inteligência relativas à construção de instalações militares russas ocultas junto à fronteira com a Ucrânia, destinadas à produção de drones de ataque capazes de atingir alvos a grande profundidade.
O Kasatonov não é, contudo, o primeiro navio de guerra russo a aparecer recentemente no Báltico. Em julho, também foi registada na região a presença do Almirante Levchenko, um contratorpedeiro do Project 1155.
Moscovo reage às operações contra a frota sombra
A deslocação do navio russo para junto da costa alemã surge num momento particularmente tenso nas relações entre Moscovo e vários países europeus. Reino Unido e França têm realizado operações contra navios associados à chamada «frota sombra» russa, constituída por petroleiros que utilizam bandeiras de outros países e são acusados de recorrer a mecanismos destinados a contornar as sanções europeias.
As interceções e apreensões de embarcações provocaram forte reação do Kremlin e aumentaram os receios de eventuais represálias russas. O presidente russo, Vladimir Putin, deixou uma ameaça explícita esta semana ao afirmar: «Seremos obrigados a reagir da mesma forma… A Rússia pode responder em qualquer área que consideremos necessária e apropriada».
A presença do Almirante Kasatonov no Báltico é, neste contexto, apresentada como uma possível demonstração de força e uma resposta às ações desenvolvidas por Londres e Paris contra os navios ligados à frota sombra. A intensificação destas operações levou também ao reforço da vigilância naval no Atlântico e no Canal da Mancha.
O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, adotou igualmente um tom ameaçador ao afirmar: «vamos endurecer muito os nossos métodos para destruir tudo aquilo que a máquina de guerra de Kiev alimente a partir do Ocidente, já o estamos a fazer». O chefe da diplomacia alemã classificou estas declarações como «propaganda absurda».
NATO reforça atividade aérea junto a Kaliningrado
A resposta ocidental também se traduziu num aumento da atividade militar no Báltico. Nas últimas 48 horas, a NATO intensificou a sua presença nas proximidades de Kaliningrado, enclave russo situado entre a Polónia e a Lituânia, com cerca de 25 aeronaves a realizar manobras na região.
Entre os aparelhos identificados pelo serviço de radar AirNav encontravam-se C-40A Clipper e EA-37B Compass Call II norte-americanos, um E-3A Sentry de deteção e vigilância por radar de longo alcance, aeronaves polacas Gulfstream G550, aviões de reabastecimento Airbus A330 MRTT da Frota Multinacional, um helicóptero lituano Let L-410UVP e helicópteros de ataque norte-americanos AH-64E Apache Guardian.
A atividade militar não se limitou às proximidades de Kaliningrado. No estreito de Skagerrak, entre a Noruega e a Dinamarca, um avião britânico de patrulhamento marítimo P-8A Poseidon e uma aeronave militar alemã efetuaram também vários sobrevoos na zona.
A NATO não revelou quais eram exatamente as missões desempenhadas pelos aparelhos durante estas movimentações. O Comando das Forças Aéreas Aliadas da NATO justificou o aumento da atividade com os esforços contínuos da Aliança para reforçar as suas capacidades defensivas, invocando razões de segurança operacional para não divulgar mais informações sobre o dispositivo utilizado.
Berlim acusa Moscovo de recorrer a ameaças e desinformação
O aumento da atividade militar ocorre numa altura em que a Alemanha procura responder politicamente às ameaças provenientes de Moscovo. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul, afirmou que o Kremlin está a tentar aumentar a pressão sobre os países que apoiam a Ucrânia.
«Perante os efeitos económicos e sociais da fracassada guerra de conquista contra a Ucrânia, que são sentidos de forma cada vez mais dolorosa na Rússia, o Kremlin está a tentar desesperadamente pressionar os apoiantes internacionais da Ucrânia através de ameaças e desinformação», declarou Wadephul.
A presença do Almirante Kasatonov ao largo de Fehmarn acrescenta, assim, um novo elemento à crescente tensão militar no norte da Europa. O navio russo encontra-se equipado para desempenhar missões de combate antinavio, defesa antiaérea e guerra antissubmarina, ao mesmo tempo que a sua classe pode utilizar mísseis de longo alcance.
A circulação aparentemente sem transponder aumenta ainda a dificuldade de acompanhar o navio através dos sistemas convencionais de identificação marítima. A sua presença é particularmente sensível por ocorrer junto a uma importante rota comercial e num espaço marítimo onde a atividade militar russa e da NATO tem aumentado.














