Fórum Económico Mundial arranca entre crise interna e rutura global: Trump leva maior representação americana de sempre

O encontro decorre até 23 de janeiro e tem como tema “O espírito do diálogo”, uma formulação que reflete a ambição de promover consensos num mundo cada vez mais fragmentado política, económica e geopoliticamente

Executive Digest

O Fórum Económico Mundial regressa esta segunda-feira a Davos, na Suíça, num dos momentos mais delicados da sua história recente. À entrada da 55ª edição, o encontro que durante décadas se afirmou como espaço privilegiado de concertação global enfrenta simultaneamente uma crise interna de governação e um contexto internacional marcado pela maior instabilidade do multilateralismo desde a Segunda Guerra Mundial.

O encontro decorre até 23 de janeiro e tem como tema “O espírito do diálogo”, uma formulação que reflete a ambição de promover consensos num mundo cada vez mais fragmentado política, económica e geopoliticamente. Durante cinco dias, líderes políticos, empresariais e representantes da sociedade civil debatem novas fontes de crescimento económico, o reforço da cooperação internacional e a procura de prosperidade compatível com os limites ambientais do planeta.

Trump regressa a Davos com a maior delegação americana de sempre

Um dos principais focos desta edição será o regresso presencial de Donald Trump ao Fórum Económico Mundial, pela primeira vez desde 2020. O presidente dos Estados Unidos participa acompanhado pela maior delegação americana de sempre, numa clara demonstração da centralidade que Washington pretende atribuir ao encontro de 2026.

Entre os nomes que acompanham Trump estão o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o secretário de Estado, Marco Rubio, e enviados especiais da Casa Branca para os conflitos na Ucrânia. A presença contrasta com a edição de 2025, em que Trump, poucos dias após iniciar o seu segundo mandato, interveio apenas por videoconferência, anunciando então o maior corte de impostos da história dos Estados Unidos, o fim do Green New Deal e os primeiros sinais de uma nova guerra comercial global.

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Desta vez, a aposta é claramente mais ambiciosa. Além da dimensão política, o presidente norte-americano deverá aproveitar Davos como palco privilegiado para reforçar relações com grandes grupos empresariais internacionais e promover os Estados Unidos como destino preferencial de investimento.

Um fórum cada vez mais marcado pela influência americana

A edição deste ano confirma também a crescente influência americana no seio da instituição. Em agosto, o CEO da BlackRock, Larry Fink, assumiu a copresidência do Fórum Económico Mundial, ao lado do vice-presidente do grupo farmacêutico suíço Roche, numa mudança que reforça o peso do capital financeiro global na liderança do evento.

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A reestruturação ocorreu após a saída do fundador do fórum, Klaus Schwab, que abandonou a presidência na sequência de uma investigação interna sobre práticas de governação, incluindo alegações de uso indevido de recursos. Embora Schwab tenha sido ilibado de irregularidades materiais, não regressou ao cargo, num episódio que contribuiu para fragilizar a imagem da instituição.

Davos e a perda de relevância do multilateralismo

O escândalo surge num momento em que o próprio papel do Fórum Económico Mundial é cada vez mais questionado. O modelo que fez de Davos um espaço informal de coordenação global, particularmente influente nas décadas de 1990 e 2000, perdeu tração à medida que a ordem internacional se tornou mais fragmentada e competitiva.

Hoje, tal como acontece com outras instituições multilaterais, como a ONU ou a Organização Mundial do Comércio, o fórum vê diminuída a sua capacidade de definir agendas comuns e de influenciar de forma decisiva os rumos dos investimentos privados e das políticas externas dos Estados.

Ainda assim, a lista de participantes confirma a importância simbólica do encontro. Estão confirmadas as presenças de 64 chefes de Estado e de Governo e de cerca de 850 líderes empresariais. Entre os participantes destacam-se Volodymyr Zelensky, seis dos sete líderes do G7, o presidente argentino Javier Milei, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. A China também marcará presença com uma delegação liderada pelo vice-primeiro-ministro.

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Num mundo em transição acelerada, Davos inicia mais uma edição tentando provar que continua a ser um espaço relevante de diálogo global — mesmo quando o consenso parece cada vez mais distante.

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