Os líderes europeus reunidos em Berlim apresentaram a Volodymyr Zelensky um conjunto de propostas que inclui o envio de uma força multinacional para a Ucrânia, o destacamento em tempo de paz de até 800 mil soldados para reforçar o exército ucraniano e a criação de um mecanismo de monitorização e verificação liderado pelos EUA para supervisionar um eventual cessar-fogo, segundo a publicação ‘El Español’.
A hipótese de enviar tropas europeias para território ucraniano não é nova. O plano começou a ganhar forma em março, no âmbito da chamada Coligação de Voluntários, com o objetivo declarado de apoiar a regeneração das forças ucranianas, reforçar a segurança do espaço aéreo e contribuir para a segurança marítima, incluindo operações dentro da própria Ucrânia.
A proposta enfrenta, contudo, uma rejeição categórica de Moscovo. O presidente russo, Vladimir Putin, não aceitará “em circunstância alguma” a presença de soldados europeus na Ucrânia, posição reiterada esta terça-feira pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Ryabkov. “Não, não e não outra vez”, sublinhou o diplomata, numa declaração citada por meios internacionais.
Ainda assim, o encontro em Berlim entre representantes ucranianos, europeus e americanos serviu para clarificar várias dúvidas acumuladas desde que a administração Trump decidiu imprimir um novo impulso às negociações de paz, tentando desbloquear o impasse dos últimos meses.
Pressão de Washington e exigências de Kiev
Nos últimos dias, o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, e Jared Kushner realizaram reuniões com a delegação ucraniana com o objetivo de reduzir tensões e encontrar uma fórmula que pudesse levar Kiev a aceitar concessões territoriais no Donbass. Zelensky, que no domingo voltou a defender a integração da Ucrânia na NATO, insinuou que os emissários americanos lhe apresentaram garantias de segurança semelhantes ao artigo 5º da Aliança Atlântica.
“Temos cinco documentos. Alguns referem-se a garantias de segurança juridicamente vinculativas, aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos”, afirmou o presidente ucraniano a jornalistas. Washington, no entanto, mantém-se cauteloso, limitando-se a garantir que as garantias de segurança serão “muito fortes”, reiterando que não haverá envio de tropas americanas para o terreno.
Donbass continua a ser o ponto crítico
Onde Zelensky não admite recuos é no Donbass. O líder ucraniano deixou em aberto a possibilidade de um referendo para que os cidadãos decidam sobre o futuro dos territórios, mas rejeitou qualquer cedência direta. “Eles querem o nosso Donbass, e nós não queremos abdicar do nosso Donbass”, afirmou, comentando também a proposta americana de criar uma “zona económica livre” na região. Segundo Zelensky, isso não implicaria, em caso algum, liderança russa.
Moscovo insiste na extensão da sua soberania sobre o Donbass, incluindo áreas que não controla militarmente após quase quatro anos de guerra. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a posição russa é “consistente, transparente e clara” tanto para Washington como para Kiev.
Oleksiy Haran, professor de Política Comparada na Universidade Nacional de Kyiv, sublinhou ao ‘El Español’ que a questão central permanece sem resposta: quem controlará política e militarmente esses territórios. O académico admite que o Donbass possa vir a tornar-se uma zona desmilitarizada, mas apenas se houver uma retirada simétrica das forças de ambos os lados, algo que, segundo observa, contrasta com a intenção russa de mobilizar a Guarda Nacional na região.
Otimismo cauteloso e reservas europeias
As autoridades americanas afirmaram que cerca de 90% do processo de paz já estará concluído, com Donald Trump a declarar que a paz nunca esteve tão próxima. O chanceler alemão, Friedrich Merz, ecoou esse otimismo, embora em privado tanto ele como Emmanuel Macron manifestem reservas quanto à abordagem dos negociadores americanos.
Zelensky sublinhou que os detalhes finais do eventual acordo com os Estados Unidos ainda terão de ser fechados nos próximos dias. Só depois disso as propostas serão apresentadas a Moscovo. Do lado russo, Peskov afirmou que o Kremlin ainda não recebeu qualquer texto formal para análise.
Segundo a lógica defendida pelo presidente ucraniano, um novo bloqueio por parte de Putin justificaria um reforço do apoio militar e das sanções ocidentais contra a Rússia. Ainda assim, Kiev mantém uma postura de prudência, consciente de que o desfecho das negociações permanece longe de garantido.













