Foguetão da SpaceX vai colidir com a Lua esta semana. Impacto poderá ser visível da Terra

Uma parte de um foguetão Falcon 9 da SpaceX deverá embater na superfície da Lua na esta terça-feira num acontecimento invulgar que, apesar de não representar qualquer perigo para a Terra, poderá oferecer aos cientistas uma oportunidade rara para estudar, em tempo real, os efeitos de um impacto no satélite natural.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma parte de um foguetão Falcon 9 da SpaceX deverá embater na superfície da Lua na esta terça-feira num acontecimento invulgar que, apesar de não representar qualquer perigo para a Terra, poderá oferecer aos cientistas uma oportunidade rara para estudar, em tempo real, os efeitos de um impacto no satélite natural. Dependendo das condições e da intensidade do fenómeno, tanto o clarão provocado pela colisão como a nuvem de poeira poderão ser observados a partir da Terra com equipamentos adequados.

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O objeto que deverá atingir a Lua corresponde ao estágio superior de um Falcon 9 utilizado no lançamento, a 15 de janeiro de 2025, de duas missões lunares: o módulo Blue Ghost-1, da empresa norte-americana Firefly, e o módulo japonês Resilience. Após concluir essa missão, o estágio do foguetão, com cerca de quatro toneladas de massa, ficou sem combustível suficiente para regressar à Terra ou seguir para uma órbita mais distante, permanecendo no espaço até que a gravidade alterou gradualmente a sua trajetória, colocando-o numa rota de colisão com a Lua.

Colisão prevista para a face visível da Lua
Segundo as previsões, o impacto deverá ocorrer na face visível da Lua, nas proximidades da cratera Einstein, a uma velocidade superior a sete vezes a velocidade do som.

Embora a colisão venha a deixar uma nova marca na superfície lunar, os especialistas consideram que o acontecimento representa sobretudo uma oportunidade científica pouco comum, permitindo observar diretamente a formação de uma cratera e a ejeção de material provocadas por um impacto conhecido e previsível.

Simulações apontam para uma enorme coluna de poeira
Uma investigação ainda sem revisão por pares, publicada no servidor de pré-publicações científicas arXiv, simulou os efeitos esperados da colisão.

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O estudo, liderado por William Jo, estudante da Universidade do Texas, utilizou modelos físicos para estimar o comportamento dos materiais projetados após o impacto. De acordo com essas simulações, a coluna central de detritos poderá atingir entre cerca de 75 e mais de 95 quilómetros de altura.

Outra investigação, coordenada pelo cientista planetário Benjamin Fernando, da Universidade do Novo México, estima que a cratera resultante tenha entre 20 e 30 metros de diâmetro. Ainda assim, os investigadores sublinham que será menor do que uma cratera provocada por um asteroide, uma vez que o estágio do foguetão é uma estrutura oca e menos densa.

O impacto poderá ser visto da Terra?
A possibilidade de observar diretamente o impacto continua a ser uma das maiores incógnitas.

William Jo explicou ao Space.com que os cálculos realizados pela sua equipa apontam para uma pluma de poeira significativamente mais brilhante do que o fundo escuro do céu durante os primeiros minutos após a colisão.

“Os nossos cálculos sugerem que a pluma deverá ser várias ordens de grandeza mais brilhante do que o fundo do céu escuro durante os primeiros minutos após o impacto. Assim, deverá ser visível, embora saliente que este corresponde apenas a um cenário de referência. O impacto real será diferente e os números apresentados são relativamente otimistas”, afirmou.

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Também a equipa liderada por Benjamin Fernando considera que tanto o clarão inicial como a nuvem de detritos poderão ser “potencialmente observáveis” a partir da Terra e através de equipamentos espaciais. No entanto, os investigadores admitem que a intensidade do fenómeno ainda é difícil de prever com precisão e poderá revelar-se demasiado ténue para telescópios de utilização comum.

Bill Gray, astrónomo responsável pelo software de rastreamento orbital Project Pluto e coautor do estudo, considera, ainda assim, que valerá a pena acompanhar o fenómeno.

“Provavelmente valerá a pena observar. Talvez consigamos ver o clarão. Talvez consigamos ver as rochas ejetadas da cratera. Talvez até ambos”, afirmou.

O impacto poderá ajudar futuras missões lunares
Para muitos investigadores, mais importante do que a eventual visibilidade do fenómeno é a informação científica que poderá ser recolhida.

A análise da nuvem de poeira, da dispersão dos detritos e da formação da cratera permitirá melhorar os modelos utilizados para prever os efeitos de futuras colisões na superfície lunar, um conhecimento considerado relevante numa altura em que aumenta o número de missões destinadas à Lua.

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William Jo considera que acontecimentos deste género são extremamente valiosos para a investigação.

“Observar este impacto dá-nos uma oportunidade rara para desenvolver a ciência relacionada com as plumas de ejeção e calibrar esses modelos com base num acontecimento real, algo importante para todas as futuras missões que venham a transportar equipamentos para a Lua”, afirmou.

Além de aprofundar o conhecimento sobre os impactos lunares, os cientistas esperam compreender melhor os riscos que os destroços espaciais poderão representar para futuras operações na superfície do satélite.

Colisão não representa qualquer risco para a Terra
Apesar da expectativa em torno do acontecimento, os especialistas sublinham que o impacto não representa qualquer perigo para a Terra nem provocará alterações significativas na superfície lunar.

Bill Gray recorda, contudo, que este episódio evidencia um problema crescente relacionado com a gestão dos detritos espaciais.

Segundo o astrónomo, a colisão demonstra uma “certa falta de cuidado” na forma como o hardware espacial utilizado nas missões é descartado após cumprir a sua função.

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O estudo destes impactos poderá ganhar ainda maior relevância nos próximos anos, numa altura em que a SpaceX continua a desenvolver o foguetão Starship, destinado a desempenhar um papel central nas futuras missões de exploração da Lua.

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