Fogo avançou a 50 km/h, cercou carros e ravinas e transformou a fuga numa armadilha mortal: os fatores-chave no incêndio trágico de Los Gallardos

Buscas prosseguem para localizar pessoas desaparecidas, enquanto as autoridades investigam a origem do fogo e tentam reconstruir a sequência de decisões que transformou o incêndio numa tragédia

Francisco Laranjeira

Espanha acordou esta sexta-feira de luto depois do incêndio florestal que deflagrou em Los Gallardos, em Almería, e que provocou pelo menos 12 mortos. As buscas prosseguem para localizar pessoas desaparecidas, enquanto as autoridades investigam a origem do fogo e tentam reconstruir a sequência de decisões que transformou o incêndio numa tragédia.

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Segundo o ’20 Minutos’, as primeiras indicações apontam para uma combinação fatal de fatores: vento forte, calor intenso, vegetação extremamente seca e a queda de um cabo ou poste elétrico. As autoridades da Andaluzia admitem que as linhas de transmissão de energia possam estar na origem das chamas, embora a investigação ainda esteja em curso.

O conselheiro da Presidência, Saúde e Emergências da Junta da Andaluzia, Antonio Sanz, apontou a queda de uma infraestrutura elétrica como possível início do incêndio. De acordo com vários meios locais, os ventos fortes terão derrubado um poste ou cabo, provocando uma faísca que deu origem ao fogo junto à estrada N-340A.

A Red Eléctrica esclareceu que a linha de alta tensão afetada pelo incêndio não lhe pertence. A Endesa também indicou que a infraestrutura em causa não é da sua propriedade, acrescentando que técnicos deslocados ao local concluíram tratar-se de uma instalação privada que, segundo a informação técnica disponível, não estaria energizada.

Depois da ignição, o fogo avançou com violência. As temperaturas superiores a 35 graus, a secura acumulada e o vento transformaram a vegetação em combustível. As chamas terão avançado a cerca de 50 quilómetros por hora e percorrido 15 quilómetros em apenas duas horas, ficando rapidamente fora de controlo.

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A tragédia agravou-se quando o incêndio entrou numa zona de casas dispersas, ravinas e barrancos. A população não estava concentrada num único núcleo habitacional, o que dificultou a evacuação. Perante a velocidade do fogo, muitos moradores tiveram de decidir em poucos minutos se permaneciam em casa ou tentavam fugir.

As autoridades defendem que, em situações deste tipo, o confinamento pode ser mais seguro do que uma fuga improvisada. Mas várias vítimas terão optado por abandonar as casas por conta própria. O terreno acidentado e as estradas estreitas acabaram por transformar a fuga numa armadilha.

De acordo com as autoridades andaluzas, quatro das vítimas mortais foram encontradas dentro de um carro. Outras sete pessoas terão morrido quando tentavam escapar através do leito seco de um rio, numa zona onde acabaram cercadas pelo calor e pelas chamas. O ministro regional das Emergências descreveu essa decisão como uma “armadilha” fatal.

O presidente da Junta da Andaluzia, Juanma Moreno, afirmou que a velocidade extrema do incêndio e a geografia da zona tornaram algumas vias de fuga praticamente impossíveis. O desfiladeiro de Bédar, um vale profundo, terá sido um dos pontos onde as chamas encurralaram várias pessoas sem hipótese de saída.

O presidente da Câmara de Bédar, Ángel Collados, indicou que um grupo de nove moradores, maioritariamente estrangeiros, decidiu fugir a pé, contrariando as recomendações para permanecerem nas habitações. Sete terão morrido, enquanto dois conseguiram escapar. A descoberta de bastões de caminhada na zona levantou ainda a hipótese de o fogo ter surpreendido excursionistas que passavam pela área.

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Entre os testemunhos recolhidos pela ‘EFE’ está o de Julia, uma moradora evacuada em Bédar, que descreveu momentos de pânico. Muitas das casas afetadas ficam isoladas nas montanhas, onde residem vários estrangeiros. “Muitos moradores ingleses, alemães e de outras nacionalidades foram apanhados de surpresa pelo fogo enquanto fugiam”, contou.

A mulher relatou que o primeiro sinal foi o cheiro a madeira queimada. Pouco depois, viu uma enorme coluna de fumo atrás da casa de uma vizinha. À medida que as chamas se aproximavam de Serena e de Los Matreros, o medo espalhou-se. “Pensei: ‘Isto apanhou-nos de surpresa e vamos arder aqui’”, recordou.

O alerta foi dado também pelos sinos da igreja, que começaram a tocar para avisar a população. Alguns moradores correram para tentar sair da zona, enquanto outros procuravam informações sobre transportes de evacuação. Julia acabou por abandonar a casa com o cão e seguir de carro em direção a Vera antes de as estradas serem cortadas.

O dispositivo de resposta é amplo. O Governo mobilizou 160 agentes da Guardia Civil, 52 veículos, dois helicópteros e dois drones, além de 220 elementos da Unidade Militar de Emergência com cerca de 70 veículos. O Ministério da Transição Ecológica enviou quatro aeronaves anfíbias e um helicóptero, juntando-se a centenas de operacionais no terreno.

As buscas concentram-se nas zonas onde o fogo já foi extinto, numa tentativa de localizar as pessoas que continuam desaparecidas. Participam unidades de resgate em montanha, elementos da Guardia Civil, equipas territoriais e meios especializados. A Guardia Civil está ainda encarregada de evacuações, controlo de tráfego e vigilância das zonas evacuadas para prevenir assaltos a habitações isoladas.

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Os esforços de combate ao incêndio centram-se agora em conter o flanco direito, para impedir que as chamas atinjam áreas cultivadas, e em atacar por via aérea o flanco esquerdo, considerado muito ativo e de difícil acesso devido aos desfiladeiros. As autoridades receiam ainda mudanças na direção do vento, que podem alterar rapidamente a evolução do fogo.

O incêndio de Los Gallardos é já uma das tragédias florestais mais graves registadas em Espanha nos últimos anos. A investigação terá agora de esclarecer a origem exata das chamas, a responsabilidade sobre a infraestrutura elétrica suspeita e as circunstâncias em que várias pessoas acabaram por escolher rotas de fuga que se revelaram fatais.

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