Os dois médicos portugueses detidos pelas autoridades israelitas durante a interceção da flotilha humanitária “Sumud Global Flotilla”, que seguia em direção à Faixa de Gaza, deverão chegar esta sexta-feira de manhã a Portugal, após vários dias sob custódia israelita. Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias iniciaram na quinta-feira a viagem de regresso, numa operação de deportação coordenada pelas autoridades israelitas e turcas.
Segundo confirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, os dois cidadãos portugueses embarcaram ao início da tarde de quinta-feira em Israel com destino a Istambul, na Turquia, onde aguardaram a ligação aérea para o Porto. A chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro está prevista para esta sexta-feira de manhã.
Os dois médicos integravam a flotilha internacional que partiu da cidade turca de Marmaris com o objetivo de transportar ajuda humanitária até Gaza e contestar o bloqueio imposto por Israel ao enclave palestiniano. A missão reunia cerca de 430 ativistas de 44 países e mais de 50 embarcações. Entre os participantes encontravam-se cidadãos espanhóis, franceses, italianos, canadianos, malaios e turcos.
As embarcações foram intercetadas pelas forças israelitas em águas internacionais entre segunda e terça-feira, tendo todos os ocupantes sido capturados e conduzidos para o porto de Ashdod. Posteriormente, os ativistas ficaram detidos na prisão de Ktziot, localizada no deserto de Negev, até ao início do processo de deportação.
A situação ganhou dimensão internacional depois da divulgação, na quarta-feira, de um vídeo publicado pelo ministro israelita da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, no qual vários ativistas aparecem ajoelhados enquanto são alvo de provocações e humilhações. As imagens geraram críticas de vários governos e instituições internacionais, incluindo da União Europeia, que classificou o tratamento dado aos detidos como “completamente inaceitável”.
Em Portugal, o primeiro-ministro Luís Montenegro condenou publicamente as imagens divulgadas e defendeu mesmo a suspensão parcial do acordo comercial entre a União Europeia e Israel. Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros português considerou inaceitável o tratamento dado aos ativistas, incluindo aos dois cidadãos portugueses.
A pressão diplomática internacional aumentou nas últimas horas. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu acabou por distanciar-se da atuação do ministro Ben-Gvir, afirmando que “a maneira como o ministro Ben-Gvir lidou com os ativistas da flotilha não está em linha com os valores e normas de Israel”.
As críticas chegaram igualmente de aliados tradicionais de Israel. O embaixador norte-americano em Telavive, Mike Huckabee, descreveu como “desprezíveis” as ações do ministro israelita, acusando-o de “trair a dignidade da sua nação”. Apesar de anteriormente ter apelidado a iniciativa dos ativistas de “fraude-tilha” e de a considerar “um gesto estúpido”, o diplomata norte-americano acabou por associar-se às críticas após a divulgação do vídeo.
Também vários líderes europeus reagiram ao caso. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou na rede social X que “é inadmissível que os ativistas, entre os quais muitos cidadãos italianos, sejam submetidos a um tratamento que lesa a sua dignidade”, acrescentando que “a Itália exige um pedido de desculpas”.
Além dos portugueses, Israel iniciou esta quinta-feira a deportação de todos os ativistas estrangeiros detidos durante a operação. O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita indicou que os participantes internacionais começaram a abandonar o país ao longo do dia. A Turquia organizou voos especiais de repatriamento para dezenas de cidadãos turcos e para ativistas de outras nacionalidades, tendo a Turkish Airlines mobilizado três aviões para essa operação.
Entre os detidos encontrava-se ainda Zohar Regev, cidadã israelita participante na flotilha, que acabou libertada mediante o pagamento de uma caução de 5000 shekels, cerca de 1480 euros. O Tribunal de Ashkelon determinou que a ativista ficará impedida de entrar na Faixa de Gaza durante 60 dias e terá de se apresentar às autoridades israelitas sempre que solicitado.
O caso reacendeu o debate internacional em torno do bloqueio a Gaza e da resposta israelita a iniciativas civis de apoio humanitário, numa altura em que cresce a pressão diplomática sobre Telavive devido à situação humanitária no território palestiniano.







