“Fiz tudo por dinheiro de que não precisava”. Foi assim que Francesco Giorgi, companheiro da ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, Eva Kaili, confessou as suspeitas de corrupção que o envolvem no escândalo conhecido como ‘Qatargate’.
Giorgi, de 35 anos, natural de Milão, foi um dos quatro detidos na investigação da Procuradoria-Geral da Bélgica e, durante o interrogatório, chegou a chorar perante os magistrados e a implorar para que a namorada, Kaili, fosse libertada da prisão – está em prisão preventiva pelo menos até dia 22 de dezembro.
Documentos do depoimento prestado a 10 de dezembro foram consultados pelo La Repubblica, que relata que Giorgi assumiu as responsabilidades e admitiu ter movido dinheiro ilegalmente. No entanto, o italiano culpou os outros detidos pelo esquema de alegados subornos, pagos pelo Qatar a figuras de relevo em Bruxelas, com o objetivo de influenciar as políticas e decisões da UE a favor do país.
Ainda Giorgi aponta dedo a outros dois eurodeputados que ainda não foram detidos ou nomeados na investigação, o belga Marc Tarabella, e o italiano Andrea Cozollin, para quem Giorgi agora trabalhava como assessor.
Francesco Giorgi explicou que chegou a Bruxelas há 13 anos e que foi imediatamente contratado como assistente do então eurodeputado italiano Pier Antonio Panzieri (outro dos detidos), tornando-se o seu ‘protegido’. Quando não foi reeleito em 2019, Giorgi decidiu ir ajudar Panzieri na ONG que havia criado, a Fight Impunity. Ao mesmo tempo, Giorgi trabalhou com Cozzolino e admitiu que era ele o responsável por mover o dinheiro, vindo dos alegados subornos do Qatar ou Marrocos.
Aos procuradores, Giorgi disse que “partilhava tudo” com Panzeri e garantiu que o dinheiro encontrado em malas na casa que partilhava com Eva Kaili é dele e que a companheira não fazia a mínima ideia do esquema. Por isso, o italiano defende que Kaili “é inocente” e que devia ser libertada para poder cuidar da filha de ambos, com menos de dois anos.
A explicação terá falhado perante os magistrados, já que o pai de Eva Kaili, Alexandros, foi também detido pelas autoridades com uma mala cheia de dinheiro, quando se preparava para fugir da Grécia. Todos os bens da família, em território grego, foram congelados pelas autoridades.
Marc Tabarella, referido por Giorgi, foi alvo de buscas, mas as autoridades não encontraram dinheiro. Fontes do Parlamento Europeu adiantam ao El Mundo que Tabarella fez esforços a favor do governo do Qatar, pressionando delegações e diretores de comissões para que acordassem encontrar-se com políticos do Qatar quando estes visitassem Bruxelas ou Estrasburgo.
Os documentos revelam também que a trama do escândalo adensa-se, e envolve também Marrocos.
Dados da investigação apontam para o embaixador de Marrocos na Polónia, Abderrahim Atmoun e Yassine Mansouri, diretor dos serviços de inteligência marroquinos foram diretamente responsáveis por alguns dos alegados pagamentos intercetados na investigação à rede.
O objetivo seria também influenciar debates e resoluções do Parlamento Europeu que afetariam Rabat, como acordos de pesca, questões de migração ou de direitos humanos no Sahara.
Os procuradores acreditam que os pagamentos de alegados subornos do Qatar chegavam sob forma de presentes ou falsas doações para a ONG de Panzieri e do seu amigo Figá Talamanca, que tem a sua própria ONG no mesmo edifício. Já Marrocos, faria os pagamentos diretamente em dinheiro, em malas ou pastas que chegavam como bagagem diplomática.
A polícia belga está agora a tentar traçar a proveniência de todas as notas apreendidas (num total de mais de 1,5 milhões de euros), já que alguns maços estavam novos e ainda selados em plástico.







