A Finlândia está prestes a tornar-se o primeiro país do mundo a colocar em funcionamento um depósito geológico permanente para resíduos nucleares de alta atividade, um projeto que começou a ser planeado há mais de quatro décadas e que pretende armazenar combustível nuclear usado durante pelo menos 100 mil anos.
Segundo o jornal espanhol ’20 Minutos’, a Agência Finlandesa de Segurança Nuclear e Radiológica (STUK) concluiu que a instalação cumpre todos os requisitos legais de segurança, abrindo caminho para a atribuição da licença de funcionamento. Se o Governo finlandês der o aval final, o complexo poderá começar a receber resíduos antes do final de 2026.
Batizado de Onkalo — palavra finlandesa que significa “cavidade” —, o depósito está localizado em Eurajoki, na costa oeste da Finlândia, junto à central nuclear de Olkiluoto.
A STUK sublinha que esta é “a primeira vez no mundo” que uma instalação geológica para armazenamento definitivo de combustível nuclear irradiado chega à fase de licenciamento para operação. O processo sofreu três adiamentos, sobretudo devido a alterações técnicas introduzidas pela Posiva, empresa responsável pelo projeto e detida pelas produtoras de energia TVO e Fortum.
Apesar da avaliação positiva da agência reguladora, o projeto ainda necessita da aprovação formal do Governo finlandês. Depois disso, será necessária uma segunda autorização da STUK para confirmar que todos os sistemas estão prontos para iniciar as operações.
Um projeto com mais de 40 anos
A história de Onkalo começou em 1983, quando a Finlândia decidiu preparar uma solução definitiva para o armazenamento dos seus resíduos nucleares. A construção arrancou em 2004, a licença de construção foi atribuída em 2015 e as obras principais tiveram início no final de 2016.
Ao todo, o projeto representou um investimento de cerca de mil milhões de euros e ainda decorrem alguns trabalhos, apesar de a infraestrutura já se encontrar praticamente concluída.
O depósito foi concebido para armazenar cerca de 6.500 toneladas de combustível nuclear usado provenientes dos cinco reatores nucleares finlandeses. Atualmente, estes resíduos permanecem em instalações temporárias nas próprias centrais.
Como funciona o “cemitério” nuclear?
Os resíduos serão colocados em cerca de 3.300 contentores especiais de ferro fundido revestidos por uma espessa camada de cobre resistente à corrosão. Cada contentor mede aproximadamente cinco metros de altura e um metro de diâmetro.
Depois de encapsulados, os contentores serão transportados para galerias subterrâneas escavadas entre 400 e 450 metros de profundidade, sendo colocados em poços perfurados na rocha, a cerca de 430 metros abaixo da superfície.
Cada contentor ficará envolvido por bentonite, uma argila especial que se expande quando entra em contacto com a água e cria uma barreira adicional contra eventuais fugas de radioatividade. Os túneis serão depois selados com mais argila e outros materiais de enchimento.
Segundo a Posiva, a combinação entre os contentores, as barreiras de bentonite e a estabilidade geológica da rocha permitirá isolar completamente a radioatividade durante, pelo menos, 100 mil anos.
A escolha de Eurajoki não foi feita por acaso. Segundo a empresa, o subsolo da região é geologicamente muito estável, praticamente impermeável e apresenta uma atividade sísmica extremamente reduzida, características consideradas essenciais para garantir a segurança do armazenamento a tão longo prazo.
A instalação foi também concebida para funcionar de forma altamente automatizada, reduzindo ao mínimo a exposição dos trabalhadores durante o encapsulamento e deposição do combustível nuclear usado. Segundo o ’20 Minutos’, se receber a autorização final do Governo, Onkalo tornar-se-á a primeira instalação permanente deste género a entrar em funcionamento em todo o mundo.














