Fim do “cavalo de Tróia energético”: queda de Orbán abre caminho ao corte do gás russo na Europa

Após anos de resistência às políticas de Bruxelas, Budapeste prepara-se agora para reduzir gradualmente a sua dependência do gás russo, alinhando-se com a estratégia da União Europeia.

Patrícia Moura Pinto

A derrota de Viktor Orbán nas eleições húngaras marca um momento histórico não apenas para o país, mas também para o futuro energético da União Europeia. Após 16 anos no poder, o líder eurocético deixa um legado profundamente ligado à dependência energética da Rússia, um tema que tem dividido Bruxelas e vários Estados-membros nos últimos anos.

De acordo com o El Economista, a saída de Orbán representa um ponto de viragem decisivo na estratégia europeia de redução da dependência do gás russo, num contexto em que a União Europeia já definiu metas ambiciosas para eliminar progressivamente estas importações.

Nos últimos meses, a Hungria, juntamente com a Eslováquia, foi um dos poucos países a opor-se às medidas europeias para limitar a importação de gás russo. Bruxelas estabeleceu o fim da compra de gás natural por gasoduto até ao final de 2026 e de gás natural liquefeito até 2027, permitindo apenas um período de transição para contratos já existentes.

Budapeste chegou mesmo a contestar estas decisões no Tribunal de Justiça da União Europeia, argumentando que se tratavam de mudanças estruturais no fornecimento energético – algo que exigiria unanimidade entre os Estados-membros.

Durante o mandato de Orbán, a Hungria tornou-se um dos principais canais de entrada de energia russa na Europa. Cerca de 80% do gás e 90% do petróleo consumidos no país têm origem na Rússia, o que reforçou a sua posição como um verdadeiro “cavalo de Troia energético” dentro da União Europeia.

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Peter Magyar promete mudança gradual até 2035

O novo líder, Peter Magyar, já anunciou uma mudança de rumo, embora sem rupturas imediatas. A estratégia passa por reduzir gradualmente a dependência da Rússia até 2035, evitando riscos de abastecimento no curto prazo.

O próprio afirmou que não pretende cortar o fornecimento de energia russa de um dia para o outro, mas sim garantir uma transição equilibrada, procurando fontes mais baratas e seguras ao longo do processo. Ainda assim, deixou claro que o objetivo final é afastar o país da dependência do Kremlin.

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Além disso, Magyar pretende reaproximar a Hungria das instituições europeias e desbloquear fundos comunitários, atualmente congelados devido a divergências políticas. Essa mudança de postura poderá facilitar negociações com Bruxelas e alinhar o país com a estratégia energética comum

A mudança política na Hungria tem implicações diretas no panorama energético europeu. Atualmente, apenas três países continuam a importar gás russo através do gasoduto TurkStream: Hungria, Eslováquia e, em menor escala, Áustria.

Segundo o El Economista, a permanência de Orbán no poder era vista como um fator-chave para a continuidade destes fluxos. A sua saída abre caminho a uma maior unidade europeia e acelera o processo de desvinculação energética da Rússia.

Ainda assim, os dados mostram que a dependência europeia não desapareceu por completo. Apesar das sanções e medidas adotadas, a dependência da Hungria em relação à energia russa aumentou nos últimos anos, passando de 61% antes da guerra para mais de 86%.

Novo plano energético aposta em renováveis e nuclear

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O futuro governo húngaro já delineou um plano para transformar o sistema energético do país. Entre as principais medidas está o reforço das energias renováveis, com o objetivo de duplicar a sua produção até 2040.

A aposta inclui a modernização da rede elétrica e o desenvolvimento de fontes como a energia eólica e geotérmica, ainda pouco exploradas no país. Paralelamente, Magyar pretende relançar o setor nuclear com o projeto Paks II, que prevê a introdução de pequenos reatores modulares com apoio internacional.

Atualmente, a energia nuclear representa cerca de 18% do consumo energético da Hungria, ficando atrás do petróleo e do gás natural, que continuam a dominar o mix energético.

Apesar da mudança política, especialistas alertam que o fim do gás russo na Europa não será imediato. A transição será gradual e dependerá da capacidade dos países em garantir alternativas energéticas estáveis.

Ainda assim, a saída de Orbán elimina um dos principais entraves políticos dentro da União Europeia, reforçando a coesão do bloco numa das suas áreas mais sensíveis.

A Europa e a Hungria parecem agora alinhadas numa nova direção: reduzir a dependência da Rússia sem comprometer a segurança energética. Um equilíbrio delicado, mas decisivo para o futuro do continente.

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