A sucessão de reuniões, minutas e contrapropostas entre Estados Unidos, Ucrânia e aliados europeus continua a marcar as negociações em torno de um eventual acordo de paz para o conflito ucraniano, desencadeadas após a fuga de informação do chamado “plano de 28 pontos” russo-americano. O debate público tem-se concentrado sobretudo nas questões territoriais e nas garantias de segurança para travar futuras agressões russas, mas começa a ganhar relevo uma dimensão menos visível e igualmente decisiva: a componente económica que Washington procura inscrever num eventual acordo.
Essa chamada “letra pequena” económica ainda está longe de ser definitiva ou consensual, mas revela a forma como os Estados Unidos encaram não só o conflito, como também o papel da Europa e o futuro da Rússia na ordem internacional. Entre os elementos que se repetem nos documentos em circulação destacam-se fundos de reconstrução e compensação favoráveis aos EUA, a criação de grandes centros de dados e a definição de zonas de comércio preferencial. Nas últimas semanas, responsáveis da Administração norte-americana terão entregue aos seus homólogos europeus vários documentos-síntese, com apenas uma página, onde é delineado o modelo económico que Washington pretende ver implementado na Ucrânia e na Rússia.
De acordo com informações divulgadas pelo Wall Street Journal, esses documentos preveem a utilização de cerca de 200 mil milhões de dólares em ativos russos congelados — maioritariamente localizados em França e na Bélgica — para financiar projetos em território ucraniano. Entre eles estará a construção de um grande centro de dados na região de Zaporíjia, atualmente parcialmente ocupada por tropas russas. A iniciativa surge em linha com uma das prioridades estratégicas da presidência de Donald Trump, que tem apostado fortemente na expansão de infraestruturas digitais, em particular centros de dados de grande escala.
Os números ilustram essa aposta: os Estados Unidos contam já com mais de 2.500 centros de dados e, em apenas três anos, o investimento anual neste sector passou de 13,8 mil milhões para 41,2 mil milhões de dólares, um crescimento de 200%. Desde o regresso de Trump à Casa Branca, o ritmo acelerou com a assinatura de uma ordem executiva destinada a simplificar o licenciamento federal destas infraestruturas, o anúncio de investimentos adicionais de 20 mil milhões de dólares e um dado revelador: em 2025, 74,3% da capacidade de novos centros em construção já estava comprometida antes do início das obras.
Segundo as informações avançadas ao Wall Street Journal, o centro de dados projetado para Zaporíjia seria construído e gerido por empresas norte-americanas, ficando os ucranianos remetidos, na melhor das hipóteses, para funções técnicas. O modelo salarial não é especificado. Acresce que a infraestrutura seria alimentada pela energia produzida pela central nuclear de Zaporíjia, atualmente sob controlo russo. Esta central, a maior da Europa, assegurava antes da invasão cerca de 20% da produção elétrica ucraniana e quase metade da energia nuclear do país, sendo considerada estratégica para os planos de Kiev de se tornar fornecedora de energia da União Europeia.
Donald Trump já havia defendido, numa conversa tensa com Volodymyr Zelenski em Março, que a central passasse para “propriedade americana”, alegando que essa seria “a melhor proteção” para a infraestrutura. A proposta foi rejeitada por Moscovo, que entretanto está a construir linhas de alta tensão para integrar a central na rede russa. Sem Zaporíjia, os planos ucranianos de exportação de energia para a Europa tornam-se possíveis apenas numa escala muito mais reduzida. Segundo estimativas do Ministério da Energia ucraniano, após reformas técnicas, o país poderia exportar até 2,73 gigawatts de eletricidade e substituir mais de cinco mil milhões de metros cúbicos de gás russo, cenário agora seriamente comprometido.
A nova Administração norte-americana não parece interessada em que a Ucrânia assuma esse papel energético na Europa. Os Estados Unidos beneficiaram amplamente do afastamento entre a UE e a Rússia, registando níveis recorde de exportações de gás natural liquefeito para o mercado europeu. No início de 2025, mais de 60% das exportações de GNL dos EUA tiveram como destino a União Europeia e o Reino Unido. Paralelamente, outro capítulo do plano revelado ao Wall Street Journal aponta para a reintegração da economia russa nos fluxos globais, com investimento de empresas americanas em sectores estratégicos — das terras raras à exploração petrolífera no Ártico — e o restabelecimento das exportações energéticas russas para a Europa Ocidental.
Nesse contexto, Washington acena a Moscovo com a possibilidade de recuperar a sua economia fragilizada através da venda de gás à Europa, ao mesmo tempo que se concentra nos negócios que Donald Trump acredita poder concretizar na Rússia. Desde Fevereiro, empresas norte-americanas com ligações próximas à actual Administração têm-se posicionado para beneficiar do plano de paz, mantendo contactos discretos com figuras próximas do Kremlin, inclusive em cidades como Miami.
Segundo esta arquitetura económica, cerca de 100 mil milhões de dólares em ativos russos congelados seriam canalizados para um fundo de investimento conjunto EUA-Rússia. Esta hipótese já tinha gerado forte reação na Europa. O Politico relatou que a cláusula provocou “indignação” entre responsáveis europeus, que a interpretaram como uma tentativa de repartir ativos entre Washington e Moscovo. Outros 200 mil milhões de dólares seriam destinados à reconstrução da Ucrânia, mas uma fuga de informação do Axios revelou que esses projetos ficariam sob supervisão de empresas americanas, com os Estados Unidos a arrecadarem “50% dos lucros da iniciativa”.
“É realmente lamentável que, num momento em que a Ucrânia atravessa tantas dificuldades, Washington tente aproveitar-se disso”, afirmou Timothy Garton Ash, investigador da Chatham House, sublinhando que este modelo não responde às necessidades reais da reconstrução ucraniana e pode deixar o país subfinanciado, com riscos acrescidos para a estabilidade económica da União Europeia. Bruxelas tem reiterado que a Ucrânia deve ser compensada financeiramente, inclusive com ativos soberanos russos, mas continua sem consenso político para utilizar esses fundos no esforço de guerra. Esta semana, os países europeus acordaram um empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kiev, sem recorrer aos ativos russos congelados.
Funcionários europeus que analisaram os documentos distribuídos pela Administração Trump admitiram ao Wall Street Journal não saber “até que ponto levar a sério” as propostas. Um comparou-as à ideia da “Riviera de Gaza” defendida por Trump; outro descreveu o plano como uma espécie de “Yalta económica”. A leitura é partilhada por líderes políticos. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi direto: “Sabemos que isto não tem nada a ver com a paz. Trata-se de negócios.”
Enquanto isso, o processo negocial prossegue, marcado por avanços e recuos constantes. A atenção pública mantém-se focada nas fronteiras e nas garantias de segurança, mas os contornos económicos do eventual acordo começam a revelar-se como um dos fatores mais controversos e potencialmente decisivos para o futuro da Ucrânia, da Europa e das relações com a Rússia.














