Férias sem restrições?… Não me parece!

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

Fico, sinceramente, muito espantado por ver Portugal inteiro a rumar para as férias. A nossa economia está de rastos (PIB desceu 7,6% em 2020 e prevê-se subir só 4,8% em 2021 – Dados do Banco de Portugal: bportugal.pt) e, a rapaziada, em vez de trabalhar, quer é “sopas e descanso”. E, de preferência, sem restrições de qualquer espécie. Anda tudo mortinho para que o governo decrete o “dia da liberdade”. Ter memória curta sempre foi uma caraterística nossa. Agora, assim tão curta? Era bom relembrar que o país confinou, ou seja, praticamente fechou, com consequências nefastas durante os meses de janeiro, fevereiro, março e abril deste ano. Leia-se: durante os meses mais produtivos do ano, de janeiro à Páscoa, a grande maioria esteve a meio gás, ou até menos. E, agora, e como se nada tivesse acontecido, queremos ir a banhos e, de preferência, livre de restrições que nos permitam conviver nas praias, nos restaurantes, nos bares e nas discotecas como se a pandemia, ela própria, também tirasse férias por esta altura.

Pois bem, parece-me que todos os que desejam ir de férias são os que não têm responsabilidades, que não são empresários nem empreendedores e, basicamente, ainda não sofreram verdadeiramente as consequências económicas da pandemia. Quem esteve o ano todo em “tele-manha”, a ganhar o mesmo ordenado durante quatro meses ou mais, está bastante confortável e até poupou dinheiro. Evitou gastar em almoços, em transportes e até em roupa ou calçado. Só que isso teve consequências para os lojistas, os trabalhadores da restauração e hotelaria, da cultura e espetáculos, entre outros. Alguém acredita que os proprietários dos bares ou das discotecas estão com muita vontade de ir de férias? Alguém acredita que os artistas, cantores, bailarinos, músicos etc. todos os que perderam o posto de trabalho devido à pandemia estão com vontade de ir de férias?

Faço um apelo aos nossos governantes: o país, a nossa economia e alguns sectores de atividade já sofreram tanto que, por favor, não cedam às pressões que vos estão a ser feitas para desconfinar e aliviar as restrições em tempo de férias. Aliviar agora, para que todos tenham umas férias fantásticas e para ter que voltar a fechar o país em outubro é um erro monumental, mais: é uma irresponsabilidade. ”Covid-19. Marta Temido admite a possibilidade de usar a Supertaça como evento-teste” (in sicnoticias.pt de 27/07/2021). Futebol Sra. Ministra? A sério? Futebol? É isso que é importante nos dias de hoje? Um jogo de bola? E, porque não os festivais musicais? E porquê a bola antes dos espetáculos culturais? Porque é ao ar livre, diz a Sra. Ministra. Há muito tempo que não vai à bola ou, certamente, nunca foi, Sra. Ministra. Embora ao ar livre, e embora com lotação restrita, o que ninguém controla é o que se passa antes e depois do jogo: adeptos amontoados a conviver sem distanciamento social nenhum e a quererem festejar os louros das suas equipes. Portanto, por muito que acredite, ou que lhe vendam que tudo estará controlado numa bolha, basta analisar os recentes eventos para perceber que não vai estar tudo controlado. No entanto, o conselho de ministros desta quinta-feira decidiu ceder e aligeirar as medidas. Errado. Convém evitar lamentações quando o caldo entornar. Até porque assim, vai entornar.

Aguentar firme agora e controlar a pandemia, mesmo que à custa das férias dos que, inconscientemente, só se querem divertir livremente, e mesmo que pondo em risco alguns votos para o governo, mas com isso salvaguardar o futuro da nossa economia, era crucial neste momento. Não deviamos vacilar agora. Não deviamos, pôr em risco a retoma previsível dos meses de outubro a dezembro. Senhores governantes, a confinar, a restringir e impor medidas de precaução, é agora, é em agosto que está tudo de férias (ou quer estar) e que, tradicionalmente, é um mês de fraca produção exceto para a hotelaria e a restauração do Algarve, Madeira e demais destinos estivais. Mas, mesmo estes, infelizmente, já estão a sofrer com a fraca afluência de turistas estrangeiros cujos governos recomendam vivamente que se abstenham de viajar para Portugal — ao contrário da Sardenha, que aceita a entrada de qualquer indigente nacional, classificado como grupo de risco COVID e que, como tal, está dispensado de comparecer presencialmente em tribunal e pode passear-se livremente pelas ruas de Porto Cervo sem máscara.

Mais, nestes tempos difíceis, deveria ser dirigida igualmente a bazuca ao canal HORECA (­Hoteis-Restaurantes-cafes) e não tentar que busquem a sua sobrevivência pelo aligeirar das restrições. Sei que são muitos os que não concordam comigo e que muitos advogam que deveríamos “abrir tudo” já e decretar o “dia da liberdade”. A esses, que não querem estragar as suas férias com restrições pergunto: Já não sofremos o suficiente? Querem ainda mais sofrimento? Não é altura, de uma vez por todas, de tomar juízo, de sacrificar um único período de férias com vista a salvaguardar a retoma da nossa economia de modo a podermos voltar a usufruir de muitos, e bons, períodos de férias nos próximos anos? Eu acredito que sim mas, os imediatistas e os que economicamente não sofreram com os confinamentos, certamente que preferem ter liberdade agora do que investir no amanhã.

O senhor Secretário de Estado da saúde veio, terça-feira, proclamar algo verdadeiramente inusitado: “Governo espera por peritos, mas ‘não está refém da ciência’” (in dn.pt de 27/07/2021). Sinceramente, creio que esta intervenção só pode estar fora de contexto porque, quero acreditar, que as decisões do governo relativas a questões de saúde pública tenham sido todas baseadas na ciência, nos cientistas e nos especialistas, e não na vontade e arbítrio de um qualquer governante com o intuito de contabilizar votos.

A Inglaterra decretou o seu “dia da liberdade”. A consequência foi: “Reino Unido com maior número de mortes desde março” (in sapo.pt de 27/07/2021). A felicidade de uns foi a morte de outros. Se era para ter mais mortos, então provavelmente não deveriam ter feito o que fizeram. Eu não desejo mais mortos em Portugal. Se fosse para ter mais mortos, mais valia não termos confinado de todo e prejudicado a economia. Por isso declaro: não ao futebol com publico! Não aos ajuntamentos! Não ao alívio do uso de máscara até os nossos números estarem outra vez controlados, algo que não estão. Temos mais casos, mais mortos do que tínhamos em maio quando alguém decidiu que se deveria festejar um título futebolístico na rua bem como hospedar uma final da Champions League.

Senhor Primeiro-Ministro, senhores governantes, não deitem tudo a perder. Resistam por favor. Sei que é difícil e que é impopular. Sei que o coro de protestos será elevado mas, Portugal não aguenta nem mais um dia de confinamento geral. Morrer na praia não é opção. Quem está de férias pode muito bem sofrer com as restrições porque, quem quer trabalhar, sofre com elas há sete meses consecutivos. A bem de todos nós, há que resistir aos populismos. O nosso futuro próximo, a nossa felicidade, depende disso.

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