Férias escolares longas são más para a economia… e Portugal é um exemplo disso

As tradicionais férias de verão nos países do sul da Europa, como Portugal, Espanha e Itália, que se estendem por cerca de três meses, estão a ser alvo de críticas por parte do UniCredit.

Executive Digest
Junho 19, 2025
11:00

As tradicionais férias de verão nos países do sul da Europa, como Portugal, Espanha e Itália, que se estendem por cerca de três meses, estão a ser alvo de críticas por parte do UniCredit.

Num relatório dirigido a investidores, economistas do banco italiano alertam que este modelo, enraizado em hábitos antigos, tem implicações económicas negativas significativas, que vão desde a perda de conhecimento escolar à limitação da empregabilidade das mulheres, passando pelo agravamento das desigualdades sociais.

“Estas férias longas prejudicam a acumulação de capital humano, reduzem a empregabilidade feminina e acentuam a desigualdade educacional”, sintetiza Edoardo Campanella, economista-chefe da UniCredit Research, de acordo com o ‘elEconomista’.

O relatório analisa o caso italiano, onde as escolas encerram até 99 dias por ano – mais do que em Portugal (92), Grécia (87) ou Espanha (84) – e compara com países como a Alemanha (46), França (56) ou Países Baixos (42), onde as pausas de verão são significativamente mais curtas.

Para o banco, a origem deste modelo prende-se com tradições agrárias e fatores climáticos, nomeadamente a ausência de sistemas de refrigeração nas escolas do sul europeu. Ainda assim, o desenho do calendário escolar é, acima de tudo, uma decisão política.

A comparação com a França é ilustrativa: embora o número total de dias de férias seja semelhante, os franceses distribuem-nos melhor ao longo do ano, com pausas mais frequentes e menos prolongadas no verão.

Segundo o UniCredit, há ampla evidência de que férias prolongadas afetam negativamente o desempenho académico. Estudos referidos no relatório apontam que os alunos podem perder entre 25% e 30% do que aprenderam durante o ano, sobretudo em disciplinas como a matemática. Para países com fraco desempenho nos testes internacionais PISA, como Portugal, Espanha e Itália, esta perda representa um obstáculo adicional ao desenvolvimento do capital humano.

A questão vai além do sistema educativo, com impacto direto na economia. As férias prolongadas dificultam a conciliação entre vida profissional e familiar, sobretudo para mulheres, cuja participação no mercado de trabalho no sul da Europa continua abaixo da média europeia. Ao mesmo tempo, o verão prolongado aprofunda as desigualdades sociais: enquanto famílias com rendimentos mais elevados conseguem compensar as pausas com atividades educativas e culturais, as crianças de meios mais desfavorecidos tendem a regressar à escola em desvantagem.

Para inverter este cenário, o UniCredit sugere duas vias de reforma: redistribuir os períodos de férias escolares ao longo do ano letivo, reduzindo a concentração no verão, ou encurtar o recesso de verão para julho e agosto. Ambas as soluções exigem investimento público, mas podem traduzir-se em ganhos duradouros para a produtividade, o equilíbrio social e o crescimento económico.

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