O homicídio de Henry Nowak, jovem de 18 anos morto à facada em Southampton, está a ser explorado por figuras da extrema-direita europeia e por movimentos populistas internacionais, apesar dos apelos da família para que o caso não seja usado para fins políticos. A peça do The Guardian relata que políticos da Polónia, França e Espanha centraram a reação em raça e imigração, usando imagens dos últimos momentos de vida do jovem para sustentar mensagens contra o multiculturalismo.
Nowak foi esfaqueado cinco vezes por Vickrum Digwa, cidadão britânico de 23 anos, que acabou condenado a prisão perpétua, com pena mínima de 21 anos. As imagens da polícia mostram o jovem algemado enquanto estava a morrer, depois de o agressor ter mentido às autoridades, alegando que tinha sido alvo de insultos racistas.
A família de Henry Nowak pediu que a morte não fosse instrumentalizada politicamente e que o debate se concentrasse no combate à criminalidade com facas. Ainda assim, várias figuras da direita radical europeia usaram o caso para acusar o Reino Unido de insegurança, degradação social e falhanço das políticas migratórias.
Políticos polacos falam em ataques contra cidadãos polacos
Marta Czech, membro da formação de extrema-direita Confederação da Coroa Polaca, foi questionada sobre o assassino de Nowak durante uma reunião de ativistas em Hammersmith, no oeste de Londres. A política apelou à defesa dos polacos no país e no estrangeiro, afirmando que era necessário unir forças contra este tipo de ataques.
O pai de Henry Nowak será de ascendência polaca, de acordo com o The Guardian. Essa ligação foi usada por dirigentes polacos da direita radical para apresentar o caso como um símbolo de ameaça aos interesses e à segurança dos cidadãos polacos fora do país.
Ewa Zajączkowska-Hernik, eurodeputada polaca ligada ao grupo de Viktor Orbán, descreveu Digwa como “um indiano”, apesar de este ser cidadão britânico, e atribuiu o caso à imigração em massa. Numa publicação no Facebook, defendeu que a história simbolizava a descida do Reino Unido “às profundezas da terra”, associando o crime àquilo que considera serem os efeitos da “propaganda de esquerda” e do politicamente correto.
Zemmour e Abascal entram no debate
Em França, Éric Zemmour também comentou o caso. O político da extrema-direita francesa afirmou que o homicídio de Henry Nowak era uma metáfora do que estaria a acontecer no Ocidente, defendendo que o “nativo” é tratado como suspeito enquanto o agressor imigrante é protegido pelaquilo que chamou a “religião do antirracismo”.
Zemmour já tinha organizado protestos em França após a violação e homicídio de Lola Daviet, de 12 anos, em 2022, apesar da oposição da família da vítima. Agora, voltou a usar um crime violento para enquadrar uma mensagem política centrada na imigração e na identidade europeia.
Em Espanha, Santiago Abascal, líder do Vox, escreveu na rede social X que “o povo britânico arde de raiva” perante a morte de Nowak. O dirigente acusou os meios de comunicação tradicionais de silêncio e responsabilizou aquilo que chamou “elites globalistas” pelas atrocidades que, na sua leitura, se repetem diariamente na Europa.
Caso também chegou à direita radical japonesa
A reação ultrapassou a Europa. Um agregador de notícias de direita radical no Japão, o Hoshu-Sokuhou, publicou um artigo sobre o ataque, enquadrando-o como exemplo do alegado fracasso do multiculturalismo.
O texto citado pelo The Guardian concluiu que o caso demonstraria uma perda de foco da polícia, acusada de privilegiar considerações políticas e raciais em vez do dever fundamental de proteger a vida dos cidadãos.
No Reino Unido, Nigel Farage, líder do Reform UK, sugeriu que a reação pública deveria ser de “raiva pura e fria” perante a atuação da polícia. Durante uma intervenção no Parlamento britânico, Farage voltou a associar o episódio à ideia de policiamento a duas velocidades, citando orientações antirracistas emitidas por responsáveis policiais.
Keir Starmer critica apelos à raiva
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, pareceu criticar os comentários de Farage na Câmara dos Comuns, defendendo que este era um momento para “trabalho sério, não raiva”. Starmer afirmou ainda que não havia justificação para mais violência ou desordem.
O caso já tinha provocado tensão em Southampton, onde se registaram distúrbios após o homicídio. A reação política intensificou o debate sobre segurança, imigração, policiamento e instrumentalização de crimes violentos por movimentos populistas.
Ex-polícia obrigada a fugir após acusação falsa nas redes sociais
A onda de desinformação em torno do caso atingiu também uma antiga agente da polícia. Christi Hill, que serviu como polícia durante 12 anos, foi obrigada a procurar um espaço seguro depois de ter sido falsamente acusada online de estar envolvida na detenção de Nowak enquanto este agonizava.
A antiga agente criticou as redes sociais e plataformas de inteligência artificial, incluindo o Grok, de Elon Musk, por terem ajudado a espalhar a alegação falsa de que ela era uma das agentes que algemou o jovem depois de este ter sido esfaqueado por Digwa.
O procurador-geral britânico recebeu entretanto vários pedidos para rever a pena aplicada a Digwa ao abrigo do mecanismo que permite contestar sentenças consideradas demasiado brandas. Para já, o caso continua a alimentar um debate político que a família da vítima tentou evitar desde o início: o uso de um homicídio para aprofundar divisões sobre raça, imigração e segurança.













