A Ucrânia está a tentar encontrar uma nova forma de responder a uma das armas russas que mais dificuldades tem provocado às suas defesas: os mísseis balísticos. E uma das soluções em cima da mesa passa por Elon Musk.
“Falei com Musk há alguns dias”, revelou Mykhailo Fedorov, antigo ministro da Defesa ucraniano, numa entrevista ao seu antigo conselheiro Sergiy Sternenko. O objetivo dos contactos é conseguir autorização para utilizar a rede de satélites Starlink na preparação e execução de ataques contra locais de lançamento de mísseis balísticos dentro da Rússia.
Fedorov reconhece, contudo, que não será uma negociação simples. “Obter um resultado positivo nessa comunicação é difícil”, admitiu, segundo o jornal espanhol ’20 Minutos’.
Encontrar os lançadores antes que voltem a disparar
A ideia de Kiev passa por utilizar a Starlink para melhorar a ligação e orientação de drones que procuram lançadores russos, incluindo nas regiões de Bryansk e Kursk.
Encontrar estes sistemas móveis em zonas florestais é particularmente difícil. Uma ligação por satélite que permitisse transmitir informação e controlar drones em tempo real já dentro do território russo poderia aumentar significativamente a capacidade ucraniana de localizar e atacar os lançadores.
A mudança de estratégia resulta, em grande medida, de uma realidade cada vez mais difícil para Kiev: não existem intercetores suficientes para destruir todos os mísseis que a Rússia dispara.
Segundo Fedorov, a Ucrânia recebe atualmente, num mês, menos intercetores para os sistemas Patriot do que o número de mísseis balísticos que a Rússia consegue lançar numa única semana.
195 mísseis lançados, apenas 29 abatidos
Os números de julho ajudam a explicar a urgência. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Defesa ucraniano, a Rússia lançou 195 mísseis balísticos durante esse mês e apenas 29 foram intercetados.
Em dois dos ataques mais recentes, já em agosto, o resultado foi ainda mais desequilibrado: de 55 mísseis lançados, apenas um terá sido abatido.
A pressão poderá aumentar com o fornecimento de mais mísseis da Coreia do Norte à Rússia, enquanto a escassez mundial de intercetores Patriot limita a capacidade dos aliados para reforçarem rapidamente as defesas ucranianas.
Kiev continua a pedir mais munições, mas Fedorov e analistas militares consideram que, pelo menos nos próximos meses, as entregas permanecerão muito abaixo das necessidades.
Se não consegue abater o míssil, atacar o lançador
É neste contexto que ganha força uma estratégia diferente: em vez de esperar pelo míssil no ar, destruir o sistema que o lança.
A curto prazo, atacar os pontos de lançamento é visto por responsáveis e especialistas ucranianos como uma das poucas formas de reduzir significativamente a ameaça. Para isso, porém, Kiev precisa de detetar rapidamente os lançadores e conseguir atingir alvos a longa distância.
A Ucrânia está também a desenvolver os seus próprios mísseis balísticos. Fedorov afirma que foram realizados recentemente testes bem-sucedidos, mas reconhece que serão necessários vários meses até ser possível avançar para uma produção em massa.
Também uma eventual produção de intercetores Patriot na Ucrânia, através de licenciamento dos Estados Unidos, ou o desenvolvimento de sistemas europeus alternativos demorará meses ou mesmo anos a produzir resultados significativos.
Kiev quer inteligência e armas dos aliados
A Ucrânia já utiliza drones para atingir fábricas, refinarias e outras infraestruturas a centenas de quilómetros da fronteira, mas continua sem dispor em quantidade suficiente de armamento capaz de destruir instalações fortificadas ligadas à produção de mísseis balísticos.
Mykola Belieskov, analista do Instituto de Estudos Estratégicos da Ucrânia, defende que os aliados poderiam ajudar fornecendo dados de inteligência para localizar os pontos de lançamento e armas de longo alcance capazes de os destruir.
“Não existem soluções fáceis” para enfrentar os mísseis balísticos russos, reconhece o especialista, citado pelo ’20 Minutos’. Mas limitar a resposta à defesa aérea poderá já não ser suficiente.
“Psicologicamente, estamos a desmoronar-nos”
Enquanto Kiev procura uma resposta tecnológica e militar, os efeitos da campanha russa são sentidos diariamente pela população. Julho foi o mês mais mortal para os civis ucranianos desde abril de 2022, segundo as Nações Unidas.
“Psicologicamente, estamos a desmoronar-nos por causa das explosões, da falta de sono e das notícias horríveis”, contou Olena Semeniak, residente em Kiev que passa grande parte das noites em abrigos antiaéreos.
Ainda assim, a pressão dos bombardeamentos não parece ter provocado uma mudança decisiva na disposição da população para continuar a guerra. Uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev indica que 69% dos residentes da capital e 60% dos ucranianos rejeitam retirar completamente as forças do Donbas para aceitar as exigências de Moscovo.
Para Kiev, porém, resistir implica encontrar rapidamente uma resposta para uma equação cada vez mais desfavorável: a Rússia consegue lançar mais mísseis do que a Ucrânia consegue intercetar. E é por isso que, perante a falta de Patriots, a solução pode passar por tentar destruir os lançadores antes de os mísseis sequer saírem do chão — uma estratégia para a qual Elon Musk poderá ter uma palavra decisiva.


















