Extrema-direita britânica recebe 75% das doações de um empresário das criptomoedas perdoado por Donald Trump

O Reform UK, partido populista britânico liderado por Nigel Farage, recebeu uma doação de quatro milhões de libras de Ben Delo, empresário e investidor ligado ao setor das criptomoedas.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Reform UK, partido populista britânico liderado por Nigel Farage, recebeu uma doação de quatro milhões de libras de Ben Delo, empresário e investidor ligado ao setor das criptomoedas que foi condenado nos Estados Unidos por uma infração relacionada com o segredo bancário e posteriormente perdoado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump. O montante correspondeu a cerca de 75% de todas as contribuições recebidas pelo partido no segundo trimestre deste ano.

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Os números foram divulgados esta quinta-feira pelas autoridades eleitorais britânicas e mostram que o Reform UK angariou, no total, 5,3 milhões de libras entre abril e junho. O valor colocou o partido à frente dos seus principais adversários tradicionais em matéria de donativos, embora represente uma quebra significativa face aos mais de nove milhões de libras que tinha recebido em cada um dos dois trimestres anteriores.

A contribuição de Ben Delo representa, por si só, a maioria esmagadora do financiamento privado obtido pelo partido no período. O empresário anunciou este ano que iria regressar ao Reino Unido, depois de vários anos em Hong Kong, e revelou a intenção de se envolver na política britânica com o objetivo declarado de “salvar a Grã-Bretanha antes que o declínio se torne irreversível”.

Quem é Ben Delo e porque foi perdoado por Trump
Ben Delo é um dos nomes associados à indústria das criptomoedas e foi cofundador da BitMEX, uma plataforma de negociação de ativos digitais. Em 2022, declarou-se culpado nos Estados Unidos de uma infração relacionada com as regras de segredo bancário.

Os procuradores norte-americanos tinham acusado a empresa de não manter deliberadamente os mecanismos de controlo exigidos para prevenir o branqueamento de capitais. Delo acabou por se declarar culpado perante as autoridades norte-americanas e, no ano passado, recebeu um perdão presidencial concedido por Donald Trump.

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É precisamente esta ligação entre um grande donativo ao Reform UK e uma figura do setor das criptomoedas que foi alvo de uma condenação nos Estados Unidos e posteriormente beneficiou de um perdão presidencial que coloca a contribuição de quatro milhões de libras no centro da atenção sobre o financiamento do partido.

Reform UK supera Labour e conservadores nas doações do trimestre
Apesar de contar atualmente com apenas oito deputados no Parlamento britânico, o Reform UK conseguiu arrecadar mais dinheiro em donativos durante o segundo trimestre do que os dois principais partidos tradicionais do país.

O Partido Trabalhista, atualmente no Governo, recebeu 3,6 milhões de libras em donativos no mesmo período, excluindo financiamento público. Já o Partido Conservador, principal força da oposição oficial, angariou 2,8 milhões de libras.

O desempenho financeiro do Reform UK surge numa altura em que o partido continua a procurar transformar a forte popularidade demonstrada nas sondagens numa presença parlamentar mais significativa. Durante grande parte dos últimos dois anos, a formação liderou as sondagens de intenção de voto no Reino Unido, apesar de ter apenas oito deputados eleitos.

A situação começou, contudo, a alterar-se depois da saída de Keir Starmer do cargo de primeiro-ministro e da sua substituição por Andy Burnham, em julho, movimento que contribuiu para recuperar a posição do Partido Trabalhista junto dos eleitores.

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Maior doador do Reform UK não aparece nas contas deste trimestre
As contas divulgadas pelas autoridades eleitorais também mostram a ausência de outro dos principais financiadores do Reform UK: Christopher Harborne.

Harborne, também empresário ligado às criptomoedas, é britânico de nascimento e vive na Tailândia. Não foram registadas doações suas ao Reform UK durante o trimestre de abril a junho.

O nome de Harborne tornou-se particularmente relevante na política britânica depois de ter sido revelado que entregou cinco milhões de libras a Nigel Farage em 2024. O problema é que esse montante não foi declarado por Farage como uma doação política.

O caso está a ser analisado por responsáveis parlamentares, que procuram determinar se a operação violou as regras britânicas relativas à declaração de donativos e outros benefícios ligados à atividade política.

Farage nega ter cometido qualquer irregularidade. O líder do Reform UK sustenta que os cinco milhões de libras foram um presente pessoal e, por isso, não estavam sujeitos às regras que obrigam à declaração de determinadas contribuições políticas.

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Farage pode voltar a enfrentar eleições
A polémica em torno dos cinco milhões de libras de Harborne ganhou uma dimensão adicional devido à situação parlamentar de Nigel Farage.

O líder do Reform UK abandonou o Parlamento e voltou a candidatar-se nas eleições realizadas no mês passado, tendo conseguido ser novamente eleito. No entanto, se a investigação parlamentar concluir que houve uma violação das regras de declaração de donativos, Farage poderá perder o mandato e ser obrigado a disputar novamente a eleição no seu círculo eleitoral.

O caso constitui, por isso, um potencial problema político para o líder do Reform UK, numa altura em que o partido procura consolidar a sua influência no sistema político britânico.

A própria formação política não respondeu de imediato ao pedido de comentário feito pela Reuters sobre os novos dados relativos ao financiamento.

Governo britânico quer limitar donativos de cidadãos que vivem no estrangeiro
A divulgação da contribuição de Ben Delo ocorre também num momento em que o Governo britânico prepara alterações às regras de financiamento político.

As autoridades anunciaram este ano planos para apertar as regras aplicáveis às doações feitas por cidadãos britânicos residentes no estrangeiro. Entre as medidas previstas está um limite de 100 mil libras para as contribuições deste tipo.

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A eventual alteração assume particular relevância para partidos como o Reform UK, que têm recebido apoio financeiro de empresários britânicos com interesses e residência fora do Reino Unido.

A proposta surge num contexto de crescente escrutínio sobre a origem do dinheiro utilizado para financiar partidos e políticos britânicos, sobretudo quando estão em causa grandes contribuições individuais.

Uma doação representa três quartos da receita do Reform UK
Os números do segundo trimestre permitem medir a dimensão da contribuição de Delo para as finanças do Reform UK. Dos 5,3 milhões de libras angariados pelo partido entre abril e junho, quatro milhões vieram de uma única pessoa.

A doação corresponde, assim, a aproximadamente 75% de todas as contribuições recebidas pela formação política durante os três meses.

Apesar da dimensão da contribuição, o total trimestral ficou bastante abaixo dos valores registados anteriormente. O Reform UK tinha angariado mais de nove milhões de libras em cada um dos dois trimestres anteriores, o que significa que a receita proveniente de donativos caiu de forma acentuada no período mais recente.

Ainda assim, o partido conseguiu ultrapassar tanto o Labour como os Conservadores no montante de donativos privados recebido entre abril e junho.

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Reform UK continua a tentar transformar popularidade em poder político
A situação financeira do Reform UK deve ser enquadrada na evolução política da formação liderada por Farage. O partido conseguiu conquistar uma posição relevante no debate político britânico através de uma agenda populista e de uma forte presença pública do antigo rosto da campanha do Brexit.

Apesar de contar com apenas oito membros no Parlamento, a formação chegou a liderar as sondagens durante a maior parte dos dois anos anteriores. Essa vantagem, contudo, sofreu um revés após a mudança de liderança no Governo britânico e a entrada de Andy Burnham para o cargo de primeiro-ministro, que contribuiu para recuperar o apoio ao Partido Trabalhista.

O financiamento continua a ser uma questão particularmente sensível para o Reform UK, não apenas pelo volume das contribuições que recebe, mas também pela identidade de alguns dos seus principais financiadores e pelas dúvidas levantadas em torno de determinadas operações.

A doação de quatro milhões de libras de Ben Delo acrescenta agora um novo elemento a esse debate, sobretudo devido ao seu passado judicial nos Estados Unidos e ao perdão presidencial concedido por Donald Trump.

Ao mesmo tempo, o caso de Christopher Harborne mantém-se sob escrutínio parlamentar, depois dos cinco milhões de libras entregues a Farage em 2024 e que o político considera terem sido um presente pessoal, e não uma contribuição sujeita às regras de declaração.

O Reform UK encontra-se, assim, perante uma combinação de forte capacidade de mobilização financeira, elevada visibilidade política e crescente escrutínio sobre a origem e o enquadramento das contribuições que recebe, num momento em que o Governo britânico também prepara mudanças destinadas a apertar as regras aplicáveis ao financiamento da atividade política.

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