A ameaça de Donald Trump de impor novas tarifas aos países europeus, usando a Gronelândia como pretexto político, pôs fim à trégua comercial transatlântica alcançada no ano passado e voltou a colocar Bruxelas perante um dilema antigo: responder com retaliação firme ou ganhar tempo através da diplomacia.
Segundo o jornal ‘POLITICO’, a escalada forçou a União Europeia a reavaliar rapidamente o seu arsenal comercial, numa altura em que os líderes europeus se preparam para uma cimeira de emergência destinada a definir a resposta ao regresso da pressão tarifária americana.
Retaliação imediata sobre produtos americanos
Uma das opções mais diretas passa por reativar tarifas retaliatórias já aprovadas sobre cerca de 93 mil milhões de euros em produtos dos Estados Unidos. Estas medidas remontam à primeira vaga de tarifas impostas por Trump no ano passado e foram congeladas durante seis meses, em agosto.
Caso a Comissão Europeia não proponha a extensão dessa suspensão — e os 27 Estados-membros não concordem — o pacote entra automaticamente em vigor a 7 de fevereiro. Entre os produtos visados estão símbolos da indústria americana, como jeans da Levi’s, motos Harley-Davidson e bourbon do Kentucky, bem como bens provenientes de estados com forte peso republicano. Um dos exemplos é a soja, cuja taxação afetaria a Louisiana, estado de origem do presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.
A “bazuca” comercial de Bruxelas
A arma mais poderosa ao dispor da UE é o Instrumento Anticoerção, concebido para travar tentativas de pressão económica destinadas a forçar concessões políticas. Este mecanismo permite impor ou aumentar direitos aduaneiros, restringir importações e exportações através de quotas ou licenças e limitar o comércio de serviços.
Além disso, abre a porta a restrições no acesso a concursos públicos, investimento estrangeiro direto, direitos de propriedade intelectual e até aos mercados financeiros do bloco. No entanto, como sublinha o ‘POLITICO’, a sua ativação exigiria meses de negociações políticas e diplomáticas, tanto com Washington como entre as capitais europeias.
O instrumento nunca foi utilizado, o que levanta incertezas quanto à sua aplicação prática e à articulação entre a Comissão Europeia e os Estados-membros. França mostra-se recetiva, mas Alemanha e outros países mantêm reservas. “É uma das cartas na manga, mas não é exatamente a primeira que se joga”, afirmou o ministro das Finanças da Lituânia, Kristupas Vaitiekūnas.
A tentação — e os riscos — da aproximação à China
O recente acordo preliminar entre o Canadá e a China, que abriu o mercado canadiano a veículos elétricos chineses em troca de menores tarifas agrícolas, demonstrou que há alternativas à dependência de Washington. A mensagem implícita foi clara: existem outros parceiros comerciais.
Para Bruxelas, no entanto, o cenário é mais complexo. A China continua a ser o segundo maior parceiro comercial da UE, mas também representa uma ameaça competitiva crescente. A indústria automóvel alemã enfrenta simultaneamente preços elevados da energia e a concorrência de um país que é já o maior exportador mundial de automóveis.
A chamada sobrecapacidade chinesa — produção em massa que excede a procura interna e é despejada nos mercados externos — preocupa decisores políticos e empresariais europeus. “Para a UE, a China é um problema completamente diferente”, explicou o especialista em comércio David Kleimann, sublinhando que Pequim está a ultrapassar a Europa tanto nas exportações como na produção interna, o que exigirá mais barreiras e um comércio mais controlado.
A bomba financeira que ninguém quer ativar
Outro ponto sensível é a forte exposição europeia à dívida dos Estados Unidos. Segundo George Saravelos, responsável pela investigação cambial do Deutsche Bank, entidades públicas e privadas europeias detêm cerca de 8 biliões de dólares em ações e títulos da dívida americana, o equivalente a cerca de 7,4 biliões de euros, aproximadamente o dobro do resto do mundo combinado.
Uma venda forçada desses ativos poderia fazer disparar os custos de financiamento dos EUA, mas teria efeitos devastadores também na Europa, com quedas abruptas nos preços dos ativos e perdas avultadas para bancos e fundos de pensões. O cenário é descrito como uma forma de destruição financeira mútua assegurada, tornando improvável qualquer rutura brusca, ainda que um desacoplamento gradual seja considerado plausível.
Ganhar tempo como estratégia dominante
Perante este quadro, a moderação surge como a opção preferida de Bruxelas. “A prioridade é dialogar, não agravar a situação, e evitar a imposição de tarifas”, afirmou Olof Gill, porta-voz-adjunto da Comissão Europeia.
No âmbito do acordo comercial do ano passado, os Estados Unidos reduziram tarifas sobre a maioria dos produtos europeus para 15%, enquanto a UE ainda não eliminou as tarifas sobre bens industriais americanos, devido às ameaças de Trump que bloquearam uma votação no Parlamento Europeu. Este impasse beneficia, por agora, as empresas europeias, que enfrentam custos mais baixos do que as suas congéneres americanas.
Manter a unidade entre os Estados-membros será decisivo, sobretudo numa altura em que Trump ameaça alguns países, como França e Alemanha, enquanto poupa outros, como a Itália.
O que pode acontecer a seguir
Nos próximos dias, a tensão pode aumentar. A Supremo Tribunal dos EUA poderá pronunciar-se sobre algumas das tarifas já impostas, o que poderá complicar ainda mais a posição de Trump durante o Fórum Económico Mundial de Davos. Está prevista a presença de Ursula von der Leyen e de Donald Trump no evento, embora sem encontros bilaterais confirmados.
Esta quinta-feira, os líderes da UE reúnem-se em Bruxelas para uma cimeira de emergência. Não se espera uma resposta espetacular, mas sim uma avaliação cuidadosa sobre se a UE deve avançar para a retaliação ou manter as suas armas comerciais em reserva.
Se nenhuma solução for encontrada, as tarifas americanas entram em vigor a 1 de fevereiro e, uma semana depois, o pacote de retaliação europeu será automaticamente ativado. Nesse cenário, alertam analistas citados pelo ‘POLITICO’, a União Europeia e os Estados Unidos entrarão efetivamente numa nova guerra comercial.










