Explicador. Tudo começou em Ceuta e acabou num conflito dentro de Schengen: Espanha e Itália mantêm controlos mútuos

Espanha e Itália mantêm este sábado um braço de ferro diplomático desencadeado pelos acontecimentos de Ceuta, com verificações extraordinárias em portos e aeroportos e acusações mútuas que estão longe de desaparecer

Francisco Laranjeira

Uma crise migratória numa cidade espanhola no Norte de África acabou por criar controlos de fronteira entre dois dos maiores países da União Europeia. Espanha e Itália mantêm este sábado um braço de ferro diplomático desencadeado pelos acontecimentos de Ceuta, com verificações extraordinárias em portos e aeroportos e acusações mútuas que estão longe de desaparecer.

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O Governo de Giorgia Meloni mantém os controlos sobre as chegadas provenientes de Espanha e já deixou claro que só os levantará quando considerar “completamente afastados” os riscos para a segurança italiana. Roma tinha apontado o 15 de agosto como a primeira data para uma eventual reavaliação, devido aos apelos nas redes sociais para uma nova tentativa de entrada em massa em Ceuta. Os controlos, porém, continuam em vigor.

Como é que Ceuta criou uma fronteira entre Espanha e Itália?

Tudo começou depois dos acontecimentos de 30 e 31 de julho, quando dezenas de milhares de pessoas entraram irregularmente em Ceuta a partir de Marrocos. Itália respondeu a 31 de julho com a reintrodução temporária de controlos sobre passageiros provenientes de Espanha, alegando riscos migratórios e de segurança para o restante espaço europeu.

Como os dois países não partilham uma fronteira terrestre, as verificações concentram-se nas ligações aéreas e marítimas. Na prática, passageiros provenientes de Espanha podem ser sujeitos a controlos adicionais de documentação à chegada aos portos e aeroportos italianos.

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Roma sustenta que a medida visa sobretudo cidadãos de países terceiros e não pretende restringir a livre circulação dos espanhóis ou de outros cidadãos da União Europeia. Para quem viaja, contudo, os controlos podem significar mais verificações, filas e maiores tempos de espera.

Espanha respondeu na mesma moeda

Madrid considerou a decisão italiana injustificada e discriminatória e tentou convencer Roma a levantar os controlos. Sem sucesso. O Governo espanhol chegou a dar um ultimato a Itália, exigindo o fim das medidas até 9 de agosto e ameaçando adotar “medidas proporcionais”.

A resposta do Governo de Giorgia Meloni foi taxativa: “A Itália não aceita ultimatos ou imposições vindas do exterior” em matérias relacionadas com a segurança nacional e o controlo das fronteiras.

Espanha acabou por concretizar a ameaça. O Governo de Pedro Sánchez reintroduziu também controlos sobre viajantes provenientes de Itália, estando previsto que as medidas espanholas permaneçam em vigor até 7 de setembro.

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O resultado é uma situação pouco habitual: dois importantes países do espaço Schengen estão a controlar reciprocamente passageiros que chegam do território do outro.

Itália invoca riscos de segurança e terrorismo

O ponto mais sensível do conflito está nas razões apresentadas por Roma. O Governo italiano argumenta que uma entrada descontrolada de milhares de pessoas em Ceuta representa uma vulnerabilidade para todo o espaço Schengen e afirma que não pode excluir riscos relacionados com terrorismo ou radicalização.

O ministro italiano do Interior, Matteo Piantedosi, sustentou que algumas zonas de Marrocos, incluindo áreas próximas de Ceuta, têm sido associadas a processos de recrutamento e radicalização jihadista.

Roma salienta ainda que circulam nas redes sociais mensagens destinadas a mobilizar milhares de pessoas para uma nova tentativa de entrada na cidade autónoma. As autoridades marroquinas reforçaram entretanto a presença das forças de segurança nas localidades próximas da fronteira, mas Itália considera que o risco não desapareceu.

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Piantedosi insiste, contudo, que a medida não constitui uma ação hostil contra Espanha. Segundo o ministro, o problema não está na atuação das autoridades espanholas, mas na dificuldade de controlar uma crise migratória desta dimensão e nas possíveis consequências para outros países europeus.

Madrid contesta os argumentos italianos

Espanha rejeita esta leitura. O Governo de Pedro Sánchez salienta que a esmagadora maioria das pessoas que entrou irregularmente em Ceuta regressou entretanto a Marrocos e considera que não existem elementos que demonstrem um movimento de migrantes em direção a Itália.

Madrid argumenta ainda que Ceuta possui um regime específico no quadro de Schengen e que quem entra irregularmente na cidade autónoma não adquire automaticamente liberdade para circular pelo restante território europeu.

Para o Executivo espanhol, não existe por isso uma ameaça migratória proveniente de Ceuta que justifique controlos generalizados sobre passageiros que viajam de Espanha para Itália.

O confronto tornou-se particularmente incómodo devido à dimensão das relações entre os dois países. Mais de 11 milhões de passageiros viajaram de avião entre Espanha e Itália apenas no primeiro semestre deste ano, segundo dados da Aena citados pelo ‘El País’.

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Itália acusa Espanha de “represália”

A resposta espanhola agravou ainda mais o braço de ferro. Piantedosi acusa Madrid de ter adotado uma “lógica de represália” ao responder aos controlos italianos com medidas semelhantes.

Espanha, pelo contrário, apresenta a decisão como uma resposta proporcional à atuação de Roma. Antes disso, o Governo espanhol tinha acusado Itália de alimentar divisões dentro da União Europeia e de justificar a decisão com argumentos que Madrid considera desproporcionados.

Roma contrapõe que a reintrodução temporária de controlos internos está prevista nas regras europeias e recorda que vários Estados, incluindo a própria Espanha, já recorreram ao mecanismo noutras circunstâncias.

Mas Schengen foi realmente suspenso?

Não. Espanha e Itália continuam a integrar o espaço Schengen e os seus cidadãos mantêm o direito à livre circulação.

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O Código das Fronteiras Schengen permite que os Estados reintroduzam temporariamente controlos nas fronteiras internas quando considerem existir uma ameaça grave à ordem pública ou à segurança. A medida deve ser excecional, proporcional e utilizada como último recurso.

Ao longo dos últimos anos, países como França, Alemanha, Áustria, Dinamarca, Suécia ou Noruega recorreram a diferentes formas de controlo interno, sobretudo devido a preocupações relacionadas com migração e segurança.

A particularidade deste conflito está na origem da ameaça invocada: Itália controla passageiros provenientes de Espanha por causa de uma crise ocorrida em Ceuta, uma cidade espanhola no Norte de África e a milhares de quilómetros do território italiano.

A primeira data para rever os controlos chegou. Itália não recuou

A primeira data admitida por Roma para reavaliar os controlos já chegou, mas não trouxe qualquer recuo. Itália mantém agora a duração das medidas em aberto e condiciona o seu levantamento à avaliação dos riscos de segurança.

E este sábado é particularmente importante para essa avaliação. É precisamente para este dia que têm circulado nas redes sociais apelos a uma nova tentativa de entrada em massa em Ceuta. Marrocos reforçou a fronteira com centenas de elementos das forças de segurança e apoio militar, enquanto Espanha mantém igualmente um dispositivo reforçado na cidade autónoma.

O que acontecer em Ceuta poderá, por isso, influenciar a duração dos controlos italianos. Mas o conflito já ultrapassou a questão migratória que lhe deu origem: tornou-se uma disputa entre Madrid e Roma sobre segurança, proporcionalidade, solidariedade europeia e os limites à reintrodução de fronteiras dentro de Schengen.

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Uma crise que começou na fronteira entre Espanha e Marrocos acabou, assim, por criar outra muito mais a norte — entre dois países que passaram décadas a construir um espaço europeu onde essas fronteiras deveriam ser cada vez menos visíveis.

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