Explicador. Trump sai, Putin chega: o golpe diplomático que deixa Xi Jinping no centro do tabuleiro mundial

Sucessão das duas visitas deu ao líder chinês um trunfo raro: receber, em menos de uma semana, os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, dois rivais centrais da atual ordem internacional

Francisco Laranjeira

Xi Jinping quase não teve tempo para recolher a passadeira vermelha. Poucos dias depois de Donald Trump ter concluído uma visita de Estado à China, Vladimir Putin chegou esta terça-feira a Pequim para uma visita de dois dias destinada a reforçar a cooperação estratégica entre Moscovo e Pequim, noticia o ‘El Confidencial’.

A sucessão das duas visitas deu ao líder chinês um trunfo raro: receber, em menos de uma semana, os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, dois rivais centrais da atual ordem internacional.

A mensagem é simples, mas poderosa. Num mundo dividido pela guerra na Ucrânia, pela rivalidade entre Washington e Pequim, pela pressão das sanções e pela disputa por energia, tecnologia e influência, Xi Jinping está a apresentar a China como uma potência indispensável. Nem Trump nem Putin quiseram ficar afastados de Pequim.

Porque é que isto favorece Xi?

O principal ganho para Xi Jinping é simbólico e estratégico. A China consegue mostrar que fala com todos, mesmo quando esses atores estão em conflito entre si. O ‘Global Times’, órgão próximo da linha oficial chinesa, escreveu antes da chegada de Putin que Pequim está a emergir como ponto central da diplomacia global, precisamente por receber em sucessão os líderes americano e russo.

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Este é o trunfo diplomático de Xi: não resolver todos os conflitos, mas tornar-se incontornável em quase todos. Para Washington, a China é rival económica, tecnológica e militar. Para Moscovo, é o principal parceiro estratégico e económico num momento de isolamento face ao Ocidente. Para Pequim, esse duplo papel permite ganhar margem de manobra.

O que conseguiu Xi com Trump?

A visita de Donald Trump a Pequim não produziu grandes acordos políticos ou comerciais, mas também não terminou em confronto. E isso, para Xi Jinping, já era uma vitória. O objetivo chinês passava por estabilizar a relação com os Estados Unidos, reduzir o risco de choques imprevisíveis e definir limites mínimos de convivência entre duas potências em competição.

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Segundo o ‘El Confidencial’, a cimeira foi marcada mais pelo simbolismo do que por resultados concretos. Esse ponto é importante: Xi não precisava necessariamente de um acordo histórico. Precisava de mostrar que consegue gerir Trump, um líder frequentemente descrito como volátil, sem permitir que a relação bilateral descarrilasse.

Ainda assim, a China deixou as suas linhas vermelhas em cima da mesa. Taiwan continua a ser a questão mais sensível para Pequim, e Xi terá alertado Trump de que uma má gestão deste tema poderia provocar um confronto direto entre as duas potências. O resultado foi uma visita sem grandes anúncios, mas com uma aparência de respeito e contenção diplomática.

E o que quer Putin em Pequim?

A relação com Vladimir Putin é de outra natureza. China e Rússia apresentam-se como parceiros estratégicos e assinalam agora o 25º aniversário do Tratado Sino-Russo de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa, assinado em 2001. O Kremlin afirmou que a visita de Putin estava prevista nesse enquadramento e que servirá para aprofundar a parceria entre os dois países.

Mas o momento da visita é politicamente relevante. Putin chega a Pequim logo depois de Trump, numa altura em que Moscovo quer garantir que uma eventual aproximação entre Estados Unidos e China não será feita à custa da Rússia. O presidente russo precisa de confirmar que continua a ter em Xi Jinping um aliado essencial.

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A China é hoje o principal parceiro comercial da Rússia e um comprador central de energia russa, num contexto em que Moscovo foi empurrada para fora de muitos mercados ocidentais após a invasão da Ucrânia. A parceria com Pequim tornou-se, por isso, uma peça vital da sobrevivência económica e diplomática russa.

A energia está no centro da relação?

Sim. Um dos temas esperados na agenda é o gasoduto Força da Sibéria 2, projeto que poderá transportar até 50 mil milhões de metros cúbicos adicionais de gás por ano da Rússia para a China, através da Mongólia. Para Moscovo, seria uma forma de redirecionar parte da energia que antes tinha como destino preferencial a Europa. Para Pequim, seria uma via adicional de abastecimento, embora a China procure evitar dependências excessivas de um só fornecedor.

Este é um ponto essencial da relação: Putin precisa mais da China do que Xi precisa da Rússia. Moscovo procura mercado, financiamento, cobertura diplomática e margem estratégica. Pequim procura energia, influência e um parceiro útil no confronto indireto com o Ocidente, mas sem se comprometer totalmente com os custos da guerra russa.

A China está do lado da Rússia?

A China mantém oficialmente uma posição de neutralidade em relação à guerra na Ucrânia, mas essa neutralidade é contestada no Ocidente. Pequim não reconhece publicamente a invasão como uma agressão nos termos usados por Estados Unidos e União Europeia, continua a comprar energia russa e tem dado a Moscovo apoio económico e diplomático relevante. Ao mesmo tempo, nega fornecer ajuda letal à Rússia.

Xi Jinping não tem interesse numa derrota abrupta de Putin ou numa desestabilização do regime russo. Uma Rússia enfraquecida em excesso poderia criar instabilidade na fronteira norte da China e aumentar a pressão americana sobre Pequim. Mas Xi também não tem interesse numa guerra interminável que desgaste a economia global, aumente a pressão ocidental sobre empresas chinesas e mantenha a Europa alinhada com Washington.

É por isso que a relação China-Rússia é forte, mas não simétrica. Putin precisa de mostrar que não está isolado. Xi precisa de mostrar que tem influência sobre Moscovo, mas sem ser arrastado para a guerra.

E qual é o verdadeiro jogo de Xi?

O verdadeiro jogo de Xi Jinping é transformar a China numa potência de equilíbrio. Pequim quer ser suficientemente próxima de Moscovo para desafiar a ordem liderada pelos Estados Unidos, mas suficientemente aberta ao diálogo com Washington para evitar um confronto direto que prejudique a economia chinesa.

Ao receber Trump e Putin em sequência, Xi mostra três coisas. Primeiro, que a China é indispensável para qualquer conversa séria sobre estabilidade global. Segundo, que Pequim não aceita ser tratada como potência secundária. Terceiro, que os rivais da China também precisam dela.

A ‘Associated Press’ sublinha que a visita de Putin reforça a imagem de uma China que procura relações estáveis tanto com Washington como com Moscovo, ao mesmo tempo que se posiciona como ator central num cenário internacional fragmentado.

O que significa isto para a guerra na Ucrânia?

A guerra na Ucrânia continua a ser o teste mais difícil para este equilíbrio. Trump insiste em avançar com um processo de paz, enquanto Putin procura preservar margem militar e política. Xi, por sua vez, pode ser visto como um eventual mediador credível por falar com Moscovo e Washington, mas não há sinais claros de que queira assumir plenamente esse papel.

A China pode preferir influenciar o conflito sem o liderar diplomaticamente. Isso permite-lhe preservar a relação com a Rússia, evitar assumir responsabilidades por um eventual fracasso negocial e manter a imagem de potência racional perante países do Sul Global.

Há ainda um dado importante: Putin chega a Pequim num momento de pressão interna e militar. A Rússia tem sido alvo de ataques ucranianos com drones de longo alcance, e a segurança em torno do Kremlin tem sido reforçada. O meio independente russo iStories noticiou que Putin e o seu círculo estão em “alerta máximo” desde março, devido a receios de fugas de informação, conspirações internas e possíveis ataques com drones.

Conclusão: Xi está no centro, mas não controla tudo

O trunfo diplomático de Xi Jinping não é controlar Trump ou Putin. É conseguir que ambos tenham de passar por Pequim.

A China apresenta-se como potência estável num mundo instável, como interlocutor de Washington e como aliado indispensável de Moscovo. Mas esse equilíbrio é delicado. Se se aproximar demasiado de Trump, arrisca inquietar Putin. Se proteger demasiado Putin, arrisca sanções e maior pressão ocidental. Se tentar mediar a guerra, pode falhar. Se nada fizer, pode ser acusada de beneficiar do conflito.

Ainda assim, neste momento, a imagem que Pequim quer projetar é clara: enquanto Estados Unidos e Rússia procuram reposicionar-se, Xi Jinping recebe-os, escuta-os e mostra que a China já não está à margem do tabuleiro. Está no centro.

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