Ainda não há uma corrida oficial para substituir Keir Starmer, mas Westminster já começou a fazer contas. O colapso do Partido Trabalhista nas eleições locais inglesas e nas eleições escocesas e galesas reacendeu uma dinâmica muito britânica: quando um primeiro-ministro enfraquece, os nomes de potenciais sucessores começam a circular antes de qualquer disputa formal, relata o ‘ABC’.
A pressão aumentou depois da demissão de Wes Streeting, antigo secretário da Saúde, que afirmou ter perdido a confiança em Starmer e anunciou que disputará “qualquer corrida pela liderança” dentro do Labour. Ao mesmo tempo, o deputado Josh Simons anunciou que deixará o seu lugar para facilitar o regresso a Westminster de Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester e um dos nomes mais fortes numa eventual sucessão.
O debate já não é apenas sobre quem poderá liderar o partido. É também sobre que tipo de Partido Trabalhista poderá surgir depois de Starmer: mais moderado e próximo do centro, mais sindical e ligado à base tradicional, mais regional e focado no norte de Inglaterra, mais verde e social-democrata ou até mais atento à segurança e à defesa.
Como funciona uma corrida à liderança no Labour?
As regras do Partido Trabalhista tornam difícil uma candidatura improvisada. Qualquer candidato precisa do apoio de pelo menos 81 deputados, o equivalente a 20% dos 403 parlamentares trabalhistas na Câmara dos Comuns. Além disso, cada deputado só pode apoiar um candidato, o que limita na prática o número de concorrentes viáveis.
As sondagens mostram um cenário complexo. Uma pesquisa da ‘Survation’ para o LabourList ainda coloca Starmer claramente à frente de Wes Streeting num confronto direto, por 53% contra 23%. Mas o primeiro-ministro perderia para Andy Burnham, que chegaria aos 61%, e também ficaria atrás de Angela Rayner e Ed Miliband.
Wes Streeting: o herdeiro da ala moderada
Wes Streeting, de 43 anos, é visto como uma das figuras mais ambiciosas e disciplinadas da nova geração trabalhista. Nascido em Londres e criado pela mãe em habitação social, construiu parte da sua narrativa política em torno da mobilidade social e da meritocracia.
Aberto sobre a sua homossexualidade e sobre a sua relação de mais de uma década com o consultor de comunicação Joe Dancey, Streeting ganhou peso na ala moderada do partido, próxima do blairismo. Entrou no Parlamento em 2015 e tornou-se uma das vozes mais mediáticas do Labour.
Como secretário da Saúde, defendeu reformas controversas no NHS, incluindo uma maior colaboração com o setor privado para reduzir a pressão sobre o sistema público. Em 2021, revelou ter sido diagnosticado com cancro renal, experiência que passou a usar para reforçar o argumento de que o serviço nacional de saúde precisa de modernização.
A sua frase mais marcante resume essa linha: “O nosso Serviço Nacional de Saúde precisa de se modernizar ou vai morrer.” Para os apoiantes, Streeting representa competência, disciplina e capacidade de comunicação. Para os críticos, simboliza o trabalhismo tecnocrático que afastou parte do eleitorado tradicional.
Angela Rayner: a força sindical e popular
Angela Rayner, de 46 anos, representa uma corrente muito diferente. Nascida em Stockport, no norte de Inglaterra, deixou a escola grávida aos 16 anos, cresceu em habitação social e entrou na política através do sindicalismo. A sua biografia tornou-se uma parte central da sua identidade política.
Durante anos, foi vista com desconfiança pelos setores moderados do Labour, sobretudo na transição entre a era Jeremy Corbyn e a liderança de Starmer. Mas acabou por se consolidar como uma figura mais pragmática do que muitos esperavam, mantendo forte popularidade entre os militantes de base e os sindicatos.
Rayner combina uma economia mais à esquerda com fortes ligações sindicais e uma capacidade rara de falar com eleitores da classe trabalhadora que se afastaram da linguagem técnica de Westminster. “Detesto quando as pessoas tentam-me rotular”, afirmou, numa frase que resume parte do seu apelo político.
O obstáculo é evidente: muitos deputados moderados receiam que uma guinada demasiado à esquerda volte a afastar eleitores centristas. Rayner também carrega o desgaste da demissão, em setembro de 2025, dos cargos de vice-primeira-ministra, ministra da Habitação e vice-líder do Labour, na sequência de uma controvérsia fiscal relacionada com a compra de um imóvel.
Andy Burnham: o ‘rei do norte’
Andy Burnham é talvez o nome mais popular entre os potenciais sucessores, mas enfrenta um problema prático: não pode concorrer à liderança enquanto estiver fora da Câmara dos Comuns. É por isso que a saída anunciada do deputado Josh Simons ganhou tanta importância.
Presidente da Câmara da Grande Manchester desde 2017, Burnham construiu uma imagem de líder regional combativo, muito ligado às cidades industriais do norte de Inglaterra. Durante a pandemia, ganhou notoriedade pelos confrontos com o Governo conservador de Boris Johnson, exigindo mais apoios económicos para as regiões afetadas pelas restrições sanitárias.
Nascido em Liverpool, antigo jornalista e ex-assessor político, Burnham ocupou cargos importantes nos Governos de Tony Blair e Gordon Brown, mas foi-se afastando da imagem clássica do establishment londrino. A imprensa britânica chegou a descrevê-lo como “o rei do norte”, pela sua influência junto dos antigos bastiões trabalhistas do chamado ‘muro vermelho’.
“Quero voltar ao Parlamento para levar a todo o Reino Unido a mudança que trouxemos para a Grande Manchester”, afirmou. O seu perfil combina experiência governativa, popularidade regional e ligação a eleitores que abandonaram o Labour durante os anos do Brexit.
Ed Miliband: o regresso da social-democracia clássica
Ed Miliband já liderou o Partido Trabalhista e perdeu as eleições de 2015 para David Cameron, derrota que marcou profundamente a história recente do partido. Durante anos, foi visto como símbolo de fracasso eleitoral. Mas a política britânica tem uma capacidade particular de reabilitar figuras que pareciam terminadas.
Hoje responsável pela pasta da Energia e Segurança Climática, Miliband reconstruiu parte da sua reputação graças à centralidade crescente da transição energética. Filho de intelectuais judeus marxistas que fugiram do nazismo, formado em Filosofia, Política e Economia, continua a representar o perfil mais intelectual entre os potenciais candidatos.
A sua linha política aponta para uma social-democracia clássica e progressista, centrada no Estado, na desigualdade económica e no combate às alterações climáticas. A sua frase sobre energia sintetiza essa visão: “A era da segurança baseada em combustíveis fósseis acabou, e chegou a hora da segurança baseada em energia limpa.”
Segundo o ‘ABC’, Miliband tornou-se também uma das figuras mais ativas do Governo no debate sobre o impacto económico da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, em particular devido ao receio de uma nova crise energética.
Alistair Carns: defesa, patriotismo e segurança
Alistair Carns, ou Al Carns, é o nome menos estabelecido entre os potenciais sucessores, mas talvez o mais revelador de uma nova preocupação dentro do Labour. Veterano de guerra, nascido na Escócia em 1980 e criado num bairro operário de Aberdeen, serviu durante 24 anos nos Royal Marines e foi condecorado após missões no Iraque e no Afeganistão.
Entrou no Parlamento em 2024 e é atualmente subsecretário de Estado para as Forças Armadas. O seu perfil cresceu entre eleitores da classe trabalhadora preocupados com segurança nacional, defesa e identidade cultural — precisamente áreas onde o Labour perdeu terreno durante os anos do Brexit e com a ascensão do Reform UK.
Carns já admitiu ter votado nos conservadores no passado e defende que a esquerda britânica deve reconciliar-se com conceitos como nação, serviço militar e segurança. “Qual é o sentido do Partido Trabalhista se ele não consegue substituir o desespero e a frustração por esperança, estabilidade e propósito?”, questionou.
Ainda lhe falta a rede parlamentar e a influência interna dos outros nomes, mas a sua ascensão mostra que parte do Labour procura uma linguagem mais firme sobre defesa, patriotismo e coesão nacional.
O que está realmente em causa?
A eventual sucessão de Starmer não é apenas uma disputa de nomes. É uma disputa sobre a identidade do Partido Trabalhista.
Streeting representa o caminho moderado, reformista e próximo do centro. Rayner simboliza a ligação sindical e a autenticidade de classe. Burnham oferece uma ponte com o norte industrial e os antigos bastiões perdidos. Miliband encarna uma social-democracia verde e estatal. Carns aponta para uma esquerda mais confortável com defesa, segurança e patriotismo.
Para já, Starmer continua em Downing Street. Mas, em Westminster, as lideranças raramente começam a cair no dia em que há uma votação formal. Começam a cair quando o partido deixa de discutir apenas o presente e passa a imaginar quem poderá ocupar o lugar a seguir.






