Explicador. Quem é o misterioso ‘emissário’ de Trump que diz abrir portas na Casa Branca e quer Itália no lugar do Irão no Mundial?

Não é uma figura conhecida do grande público, não ocupa um cargo formal de primeira linha e raramente aparece no centro das decisões. Mas Paolo Zampolli tornou-se uma personagem recorrente no universo que rodeia Donald Trump

Francisco Laranjeira

Não é uma figura conhecida do grande público, não ocupa um cargo formal de primeira linha e raramente aparece no centro das decisões. Mas Paolo Zampolli tornou-se uma personagem recorrente no universo que rodeia Donald Trump: empresário, antigo agente de modelos e intermediário político, é apresentado pelo ‘El Español’ como um dos homens que melhor simboliza a transformação do acesso ao presidente dos Estados Unidos num ativo com valor próprio.

A sua mais recente proposta ajuda a perceber o tom da personagem: Zampolli sugeriu que a FIFA substituísse a seleção iraniana pela italiana no Mundial’2026. A ideia surge num momento de forte tensão entre Washington e Teerão e reforça a imagem de um homem que se move entre política, negócios, relações pessoais e gestos de elevado impacto simbólico.

O seu papel, segundo o ‘El Español’, não cabe facilmente numa categoria tradicional. Não é diplomata, mas viaja com autoridades. Não assina contratos, mas apresenta-se como alguém capaz de os aproximar. Não decide oficialmente quem entra na Casa Branca, mas afirma saber como se chega ao centro do poder.

“20 mil milhões em 20 minutos”

Zampolli gosta de se apresentar através de uma frase feita: “20 mil milhões de dólares em 20 minutos”, ou seja, cerca de 18,6 mil milhões de euros em 20 minutos. A expressão é exagerada, mas revela a lógica com que construiu a sua imagem: a de alguém capaz de transformar proximidade política em negócios rápidos e milionários.

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O seu valor está precisamente aí. Zampolli apresenta-se como mediador entre Governos estrangeiros, investidores e o universo de Trump. O acesso, neste ecossistema, não é apenas uma vantagem social. É uma moeda.

A fórmula que descreve é simples: quem quer aproximar-se do presidente americano deve demonstrá-lo com números, compras, contratos e investimentos. De preferência, com empresas dos Estados Unidos. O próprio resume essa lógica numa recomendação direta: “Comprem ações da Boeing.”

O ‘El Español’ sublinha, porém, que há frequentemente uma distância entre a forma como Zampolli apresenta os negócios e aquilo que depois se confirma. Os valores reais tendem a ser mais baixos, os prazos mais longos e o seu papel menos decisivo do que sugere.

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Mas isso não elimina a sua influência. Porque o negócio de Zampolli não é necessariamente assinar acordos. É convencer os outros de que consegue abrir portas.

O poder da antecâmara

A força de Paolo Zampolli está na zona cinzenta entre o formal e o informal. Não aparece como responsável oficial por decisões, mas surge perto de quem as pode tomar. Não executa políticas públicas, mas move-se nos espaços onde Governos, empresários e figuras próximas de Trump procuram contacto.

É esse lugar que torna a personagem relevante. Num sistema em que o acesso ao presidente pode ser visto como o recurso mais valioso, a perceção de proximidade passa a ter valor real.

O ‘El Español’ descreve este fenómeno como uma alteração no método. A diplomacia tradicional, assente em embaixadas, equipas técnicas e canais institucionais, perde peso perante figuras que operam fora das estruturas oficiais, mas que dizem ter entrada direta junto do poder.

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Neste modelo, a diplomacia deixa de ser apenas um processo e passa a ser uma relação pessoal. E é nesse terreno que Zampolli se movimenta.

O homem que diz ter juntado Donald e Melania

Antes da política, Paolo Zampolli circulava noutro universo onde as relações também eram decisivas: o mundo das agências de modelos em Nova Iorque. Foi aí que construiu parte da sua rede social, apresentando pessoas, organizando contactos e tornando-se presença habitual em ambientes de dinheiro, fama e influência.

É também nesse período que surge um dos episódios mais repetidos da sua biografia: o encontro entre Donald Trump e Melania Knauss, em 1998. Zampolli afirma ter organizado a festa onde os dois se conheceram.

A história tornou-se parte da narrativa pública do empresário. Mas, segundo o ‘El Español’, esse mesmo ambiente social traz hoje uma carga política mais incómoda, porque era também um circuito onde circulava Jeffrey Epstein.

Melania Trump negou qualquer ligação a Epstein nesse contexto, e Zampolli posicionou-se como figura central da versão segundo a qual o encontro entre Donald e Melania aconteceu através dele. Ainda assim, o cenário em que essa história decorre continua a levantar perguntas: um mundo internacional de empresários, modelos, figuras ricas e contactos pessoais onde a reputação dependia tanto de quem se conhecia como daquilo que se fazia.

Epstein, Amanda Ungaro e o ruído em torno das relações pessoais

O nome de Zampolli voltou a ganhar atenção também por causa de Amanda Ungaro, modelo brasileira que conheceu no início dos anos 2000 e com quem manteve uma relação durante quase duas décadas.

Ungaro afirmou ter viajado, quando era menor de idade, no avião privado de Jeffrey Epstein, juntamente com outras jovens e figuras ligadas à indústria da moda. Não acusou diretamente Epstein de abuso, mas descreveu o ambiente como desconfortável e apresentou-se como alguém que circulou nesse universo.

A brasileira também disse ter sido próxima do círculo social dos Trump e participado em eventos privados. Mais recentemente, deu a entender que poderia revelar informações sobre essas ligações, embora sem apresentar provas verificáveis.

O ‘El Español’ enquadra este ruído como parte de uma disputa mais ampla em torno da narrativa pública de Zampolli e dos círculos em que se moveu. O caso ganha ainda mais densidade porque, no meio de uma disputa pela custódia do filho, o empresário contactou autoridades de imigração para se informar sobre a situação legal de Ungaro. Ela, que tinha problemas de vistos e um historial ligado a fraudes numa clínica de cirurgia plástica sem licença, acabou detida pela imigração e deportada após vários meses sob custódia.

Zampolli nega qualquer leitura política do caso e fala numa manobra contra si. As autoridades afastaram a existência de tratamento preferencial.

Não decide, mas aparece perto de quem decide

O traço comum nestas histórias é a localização de Zampolli: raramente no centro formal da decisão, quase sempre na antecâmara.

É essa posição que explica a sua relevância. Não precisa de assinar contratos para ser visto como alguém influente. Não precisa de ter cargo oficial para se apresentar como ponte. Não precisa de executar decisões para ser associado ao acesso a quem decide.

A proposta para que a FIFA substitua o Irão por Itália no Mundial de 2026 é apenas o episódio mais recente desta forma de atuar: uma sugestão politicamente carregada, feita por alguém que se move no cruzamento entre trumpismo, negócios e relações pessoais.

No fim, Paolo Zampolli parece ser menos importante pelo que decide e mais pelo que representa. É o facilitador de um mundo em que o acesso ao poder se tornou uma forma de capital. E, no universo de Trump, estar perto da porta pode ser quase tão valioso como estar dentro da sala.

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