Explicador: porque é que quase todos os glaciares europeus podem desaparecer até ao fim do século?

De acordo com a investigação, os glaciares da Europa Central estão a desaparecer mais rapidamente do que em qualquer outra região do mundo

Francisco Laranjeira

Os atuais planos globais para travar o aquecimento global permitirão salvar apenas 3% dos glaciares alpinos da Europa Central ao longo deste século, com a maioria a desaparecer já nas próximas duas décadas. A conclusão consta de um novo estudo científico liderado pela ETH Zurich, na Suíça, citado pelo ‘POLITICO’, que traça um cenário particularmente severo para o futuro dos Alpes europeus.

De acordo com a investigação, os glaciares da Europa Central estão a desaparecer mais rapidamente do que em qualquer outra região do mundo. À escala global, os cientistas estimam que 79% dos glaciares existentes não sobreviverão até 2100 caso os países não reforcem de forma significativa as políticas de redução das emissões de gases com efeito de estufa.

“Os Alpes, tal como os conhecemos hoje, mudarão completamente até ao final do século”, afirmou Lander Van Tricht, autor principal do estudo, em declarações ao ‘POLITICO’. Segundo o investigador, o impacto será profundo não apenas do ponto de vista ambiental, mas também económico, uma vez que muitas estâncias de esqui deixarão de ter acesso aos glaciares que sustentam parte da sua atividade.

Mesmo os glaciares de pequena dimensão desempenham um papel relevante, sublinha o estudo, ao fornecerem água a rios, ecossistemas e povoações a jusante. O seu desaparecimento alterará de forma estrutural a disponibilidade hídrica em várias regiões montanhosas da Europa.

Publicado na revista científica ‘Nature Climate Change’, o trabalho é o primeiro a calcular quantos glaciares poderão subsistir até ao final do século sob diferentes cenários de aquecimento global. Ao contrário de estudos anteriores, centrados sobretudo na massa ou no volume de gelo, esta investigação avalia a sobrevivência individual das cerca de 211 mil massas glaciais existentes no planeta.

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Os resultados indicam que, se o aquecimento global atingir 2,7 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais — o cenário associado às políticas climáticas atualmente em vigor — 97% dos glaciares da Europa Central desaparecerão. Isso significa que apenas cerca de 110 dos aproximadamente 3.200 glaciares da região sobreviverão até 2100.

Esses glaciares remanescentes situam-se quase exclusivamente nos Alpes. Nos Pirenéus, na Península Ibérica, prevê-se que os 15 glaciares ainda existentes desapareçam por completo até meados da década de 2030.

Mesmo em cenários mais favoráveis, em linha com os objetivos do Acordo de Paris, as perdas continuam a ser muito elevadas. Se o aquecimento for limitado a 1,5 graus, os Alpes perderão 87% dos seus glaciares; com um aumento de 2 graus, a percentagem sobe para 92%. Num cenário extremo de 4 graus, restariam apenas cerca de 20 glaciares alpinos até ao final do século.

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Em todos os cenários analisados, a maioria dos glaciares da Europa Central desaparecerá nas próximas duas décadas. Os investigadores identificam mesmo um “pico de extinção” logo após 2025, período em que a perda de glaciares será mais acelerada.

A explicação reside no facto de os glaciares alpinos serem, em geral, pequenos e particularmente sensíveis a variações de temperatura, como primaveras mais quentes. Apenas grandes massas de gelo, como o glaciar do Ródano, poderão resistir a um aquecimento de 2,7 graus, mas não sobreviveriam a um aumento de 4 graus, refere o ‘POLITICO’.

O fenómeno não se limita à Europa. O estudo aponta também para perdas severas no oeste do Canadá e dos Estados Unidos, onde se prevê que 96% das quase 18 mil massas glaciais desapareçam neste século com um aquecimento de 2,7 graus.

À escala global, os números são igualmente alarmantes: com 2,7 graus de aquecimento, 79% dos glaciares do planeta desaparecerão até 2100; com 4 graus, a percentagem sobe para 91%. Mesmo assim, reduções drásticas das emissões poderiam ainda salvar dezenas de milhares de glaciares, diminuindo a taxa de desaparecimento para 55% num cenário de 1,5 graus.

Ainda assim, a velocidade da perda surpreendeu os próprios cientistas. A meio do século, poderão desaparecer entre 2.000 e 4.000 glaciares por ano em todo o mundo — um número equivalente a todos os glaciares atualmente existentes nos Alpes num único ano, conclui o estudo.

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