Explicador: Porque é que cada vez mais investidores apostam no mercado secundário de crédito?

O mercado secundário de crédito privado está a ganhar um peso crescente nas estratégias de investimento institucionais, impulsionado pela maturidade do mercado e pela necessidade de responder a um contexto de menor liquidez e maior volatilidade.

André Manuel Mendes

O mercado secundário de crédito privado está a ganhar um peso crescente nas estratégias de investimento institucionais, impulsionado pela maturidade do mercado e pela necessidade de responder a um contexto de menor liquidez e maior volatilidade.

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Segundo Marco Busca, Head of Indirect Private Debt da Generali Asset Management, esta classe de ativos deixou de representar uma oportunidade pontual para assumir um papel central na construção de carteiras mais resilientes.

De acordo com o especialista, o crescimento das alocações ao crédito privado, aliado ao abrandamento das saídas de investimento nos últimos anos, tornou mais difícil o reequilíbrio das carteiras. Neste contexto, as transações no mercado secundário permitem aos investidores adquirir portfólios já geradores de rendimento, ao mesmo tempo que oferecem uma via eficiente de desinvestimento aos vendedores.

Outra das vantagens apontadas passa pela diversificação imediata. Ao investirem em carteiras já constituídas, os investidores conseguem exposição a diferentes gestores, geografias, setores e mutuários, reduzindo o risco associado aos chamados blind pools — fundos cujo portefólio ainda não está totalmente construído — e beneficiando de fluxos de caixa mais rápidos e previsíveis.

A crescente volatilidade dos mercados também tem contribuído para aumentar a atratividade deste segmento. Segundo Marco Busca, os períodos de disrupção tendem a gerar mais oportunidades de aquisição de ativos de elevada qualidade a preços mais competitivos, proporcionando maior visibilidade sobre o desempenho esperado.

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A evolução do mercado tem sido igualmente favorecida por uma maior disponibilidade de informação e por processos de análise mais padronizados, tornando estas operações mais escaláveis. O responsável da Generali Asset Management considera que o percurso é semelhante ao registado pelo mercado secundário de private equity há cerca de uma década, passando gradualmente de uma estratégia oportunista para uma alocação estrutural.

A análise sublinha, contudo, que o sucesso neste segmento depende cada vez mais da capacidade de seleção dos ativos. Com o aumento da dispersão entre gestores de crédito privado, os investidores mais experientes distinguem-se pela profundidade da análise realizada ao nível dos empréstimos subjacentes, avaliando fatores como a qualidade dos mutuários, a concentração setorial, a sustentabilidade dos fluxos de caixa e os riscos de incumprimento.

Além da análise dos ativos, a capacidade de executar operações complexas tornou-se um fator diferenciador. Investidores com maior experiência conseguem aceder a transações proprietárias, reestruturações lideradas por gestores e outras operações mais sofisticadas, onde a rapidez de execução e o conhecimento técnico são determinantes.

Marco Busca destaca ainda que os investimentos secundários apresentam diferenças relevantes face aos investimentos primários em crédito privado. Por serem adquiridos numa fase mais avançada do ciclo de vida dos ativos, oferecem maior transparência sobre o desempenho das carteiras, menor risco de investimento em ativos ainda por selecionar, menor duração e maior previsibilidade dos fluxos de caixa.

Em termos de rentabilidade, acrescenta, estas operações beneficiam não apenas do rendimento contratual dos empréstimos, mas também da possibilidade de adquirir ativos com desconto e de acelerar o retorno do capital investido, reduzindo os efeitos da denominada “J-curve”, típica dos investimentos privados.

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Apesar das oportunidades, o especialista alerta para vários riscos que estão a aumentar à medida que o mercado se torna mais competitivo. A pressão sobre os preços tem reduzido os descontos praticados, tornando qualquer erro na avaliação dos ativos potencialmente mais penalizador. Acrescem os riscos associados a análises insuficientemente detalhadas, à execução de operações complexas e ao alargamento das estratégias para segmentos menos familiares, como dívida subordinada ou ativos em situação de incumprimento.

O responsável acredita ainda que as gestoras de ativos ligadas ao setor segurador deverão assumir um papel cada vez mais relevante neste mercado. O horizonte de investimento de longo prazo e a estabilidade da sua base de capital encaixam bem nas características dos ativos secundários, permitindo reforçar a rentabilidade sem comprometer a liquidez. Ainda assim, admite que requisitos regulatórios, como as regras de solvência, e processos internos de aprovação podem limitar a rapidez de atuação em algumas operações.

Para Marco Busca, o mercado secundário de crédito privado está a consolidar-se como uma componente estrutural das carteiras institucionais, oferecendo uma combinação de maior transparência, eficiência de capital e potencial de retorno, apesar da crescente complexidade inerente a este tipo de investimento.

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