O mercado do ouro está a atravessar um período de elevada turbulência em 2026, marcado por fortes oscilações de preço e por um papel cada vez mais determinante dos bancos centrais.
Depois de atingir níveis superiores a 5.500 dólares por onça, impulsionado pela procura institucional e pela incerteza geopolítica, o metal precioso registou correções acentuadas, refletindo movimentos de realização de lucros e uma maior procura por liquidez num contexto de risco elevado.
A instabilidade no Médio Oriente, nomeadamente a guerra no Irão, está a influenciar diretamente a estratégia dos bancos centrais, como explica a análise da XTB. Se, por um lado, várias autoridades monetárias continuam a apostar no reforço das reservas de ouro como forma de diversificação face ao dólar, por outro começam a surgir sinais de utilização do metal para responder a pressões económicas e cambiais.
A China destaca-se como um dos principais motores da procura. O Banco Popular da China soma já 17 meses consecutivos de compras de ouro, com as reservas a atingirem 74,38 milhões de onças no final de março. Apesar de uma descida do valor em dólares, devido à recente queda dos preços, Pequim continua a aumentar a quantidade de ouro em carteira, numa estratégia que visa reforçar a credibilidade do yuan, reduzir a dependência do dólar e proteger-se contra potenciais sanções financeiras.
No extremo oposto está a Turquia. O banco central turco reduziu as suas reservas em mais de 118 toneladas em apenas duas semanas, recorrendo à venda direta de ouro e a operações de swap para sustentar a lira e reforçar a liquidez em moeda estrangeira. Esta estratégia surge num contexto de forte desvalorização da moeda turca, que perdeu cerca de 15% face ao dólar no último ano e mais de 80% nos últimos cinco anos.
Apesar destes movimentos divergentes, a tendência global mantém-se. O World Gold Council estima que as compras dos bancos centrais deverão atingir cerca de 850 toneladas em 2026, um valor próximo dos máximos históricos e quase o dobro da média anual registada na década anterior. Inquéritos recentes indicam que 43% dos bancos centrais planeiam aumentar as suas reservas de ouro e 95% antecipam um crescimento contínuo nos próximos cinco anos.
Entre os países mais ativos ou com planos de reforço das reservas estão, além da China, economias como a Polónia, Índia, Cazaquistão, Uzbequistão, Malásia, Indonésia, República Checa e Sérvia. Ainda que alguns países possam, pontualmente, passar para o lado da venda por motivos de liquidez ou sanções, a base de compradores continua a alargar-se.
Desde 2022, os bancos centrais consolidaram-se como o principal pilar da procura global de ouro. Com uma perspetiva de investimento de longo prazo e pouca sensibilidade às flutuações de curto prazo, estas instituições sustentam os fundamentos do metal precioso. Num cenário em que persistem dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida global e a estabilidade do dólar, os especialistas acreditam que o ouro deverá continuar a beneficiar de uma tendência estruturalmente positiva, apesar da volatilidade no curto prazo.




