A União Europeia quer adaptar-se à velocidade da guerra moderna, dominada por inteligência artificial, drones e sistemas autónomos. O novo Programa para Inovação Ágil e Rápida em Defesa (AGILE), apresentado em março de 2026 pela Comissão Europeia, pretende encurtar drasticamente o tempo entre o desenvolvimento tecnológico e a sua aplicação operacional, financiando soluções disruptivas com maior rapidez e flexibilidade do que os atuais mecanismos europeus.
O contexto é claro: os conflitos recentes, como a guerra entre o Irão e os Estados Unidos ou a invasão russa da Ucrânia, demonstraram que a tecnologia passou a ser o próprio campo de batalha. Sistemas baseados em software, enxames de drones, ferramentas cibernéticas e inteligência artificial são atualizados em semanas — não em anos — alterando o equilíbrio de forças quase em tempo real.
Em que consiste o programa AGILE?
O AGILE é um instrumento de financiamento rápido concebido para levar tecnologias de defesa da fase de desenvolvimento até à utilização prática num prazo estimado de um a três anos. Ao contrário de programas anteriores, centra-se em projetos já relativamente maduros, que possam ser testados, validados e integrados nas forças armadas num horizonte curto.
Entre as áreas prioritárias estão sistemas de IA orientados para missões militares (apoio à decisão, consciência situacional, sistemas autónomos), computação quântica, robótica avançada e drones.
O programa prevê financiar não apenas o desenvolvimento técnico, mas também a transição para uso real, incluindo prototipagem, testes no terreno e produção inicial. As decisões de financiamento deverão ser tomadas em meses, e não em anos.
Uma das principais novidades é a simplificação das regras: empresas individuais poderão candidatar-se sem necessidade de formar grandes consórcios multinacionais; o financiamento pode cobrir até 100% dos custos elegíveis; e admite-se financiamento retroativo para trabalhos já realizados.
Na fase piloto inicial, estão previstos pelo menos 115 milhões de euros, destinados a cerca de 20 a 30 projetos. Cada projeto poderá receber entre um e cinco milhões de euros, dependendo da maturidade e dimensão. O financiamento virá diretamente do orçamento da União Europeia. O programa ainda necessita de aprovação do Parlamento Europeu e do Conselho, prevendo-se que as primeiras candidaturas possam abrir em 2027.
Porque considera a UE urgente este novo instrumento?
Existe um desfasamento entre a rapidez da inovação tecnológica e a lentidão dos processos europeus de contratação e financiamento. Em conflitos recentes, drones de baixo custo são redesenhados e reimplantados em poucas semanas, enquanto sistemas de IA e ferramentas cibernéticas são constantemente atualizados em contexto operacional.
Em contraste, os processos tradicionais europeus podem demorar vários anos desde a aprovação até à entrega operacional. Isso cria uma lacuna crítica: tecnologias existem, mas não chegam a tempo de serem relevantes no terreno.
Muitas inovações surgem em startups e pequenas e médias empresas (PME), que frequentemente não dispõem de recursos administrativos para navegar nos complexos mecanismos europeus. Como resultado, soluções são comercializadas fora da Europa ou nunca chegam aos utilizadores militares.
Um exemplo emblemático é o projeto Eurodrone (MALE RPAS), lançado em 2014 por Alemanha, França, Itália e Espanha. Concebido como um drone de média altitude e longa duração com dois motores turboélice, sofreu sucessivos atrasos e tem agora lançamento previsto apenas para 2031. O chefe do Estado-Maior da Força Aérea e Espacial francesa descreveu-o como “o drone de ontem que podemos ter amanhã”. Em outubro de 2025, França notificou formalmente os parceiros da sua intenção de abandonar o programa.
Face a estes atrasos, vários países europeus continuam dependentes de drones norte-americanos MQ-9 Reaper e israelitas Heron, mantendo-se tecnologicamente vulneráveis enquanto EUA e China lideram áreas como IA, ciberdefesa e sistemas autónomos.
Que outros programas já existem na UE para a defesa?
O AGILE junta-se a um conjunto de iniciativas já em curso. O Fundo Europeu de Defesa (FED) dispõe de 7,3 mil milhões de euros para o período 2021-2027, financiando investigação e desenvolvimento em áreas como IA, espaço, ciberdefesa e drones. Só para 2026, a Comissão mobilizou mil milhões de euros para I&D em equipamentos específicos, como intercetores endoatmosféricos, carros de combate, lançadores múltiplos de foguetes e embarcações semiautónomas.
O regime ReArm Europe e o Roteiro para a Transformação da Indústria de Defesa da UE, ambos de 2025, apontam para mais de 800 mil milhões de euros até 2030, visando acelerar a entrada no mercado e reforçar a autonomia estratégica.
Outras iniciativas incluem o Programa da Indústria Europeia de Defesa (EDIP), com 1,5 mil milhões de euros entre 2026 e 2027, o mecanismo SAFE, que mobiliza 150 mil milhões de euros em empréstimos, e a Defence Equity Facility, com 500 milhões de euros destinados a fundos privados que investem em inovação de defesa.
Ainda assim, os números mostram que a Europa continua atrás dos Estados Unidos e da China. Nos EUA, a Investigação, Desenvolvimento, Testes e Avaliação representa 16% do orçamento da defesa, contra apenas 4% na UE. Em 2024, os EUA investiram 138 mil milhões de euros nesta rubrica, enquanto a China terá investido cerca de 44 mil milhões de dólares entre 2023 e 2024, com foco em IA, tecnologia hipersónica e quântica.
Pode o AGILE permitir à UE acompanhar a guerra do futuro?
A questão central é saber se o AGILE conseguirá reduzir a distância entre inovação e aplicação prática. Novas tecnologias evoluem mais rapidamente do que podem ser adquiridas e implantadas, tornando-se obsoletas antes mesmo de serem utilizadas.
A UE reconhece que o seu modelo tradicional privilegia investigação de longo prazo e grandes consórcios, mas carece de instrumentos ágeis para inovação de alto risco e implementação rápida. O AGILE pretende preencher essa lacuna, financiando startups, PME e scale-ups com ciclos mais curtos, menor carga administrativa e acesso direto ao mercado.
Se aprovado, o programa poderá reforçar a soberania tecnológica europeia, melhorar a prontidão operacional das forças armadas e criar oportunidades económicas em setores de alta tecnologia. Resta saber se a nova abordagem conseguirá acompanhar o ritmo acelerado da guerra contemporânea, onde software, IA e drones redefinem o poder militar em tempo real.









