Explicador. O negociador discreto da UE que fez Trump esperar por um acordo comercial

Social-democrata alemão, 70 anos, discreto e metódico, o presidente da comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu tornou-se, nos últimos meses, um dos maiores obstáculos internos ao avanço de um acordo comercial transatlântico

Francisco Laranjeira

Bernd Lange não parece o tipo de político capaz de irritar facilmente um presidente americano. Social-democrata alemão, 70 anos, discreto e metódico, o presidente da comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu tornou-se, nos últimos meses, um dos maiores obstáculos internos ao avanço de um acordo comercial transatlântico visto por muitos eurodeputados como demasiado favorável a Donald Trump, escreve o ‘POLITICO’.

O acordo tinha sido fechado em julho passado entre Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no resort de golfe do presidente americano em Turnberry, na Escócia. Depois, foi rapidamente transformado numa declaração conjunta e validado pelos Governos europeus. A lógica de Bruxelas era clara: cumprir a parte europeia, evitar uma guerra tarifária e preservar o que restava de estabilidade nas relações transatlânticas.

Lange tinha outra leitura. Apoiado por uma coligação de eurodeputados de centro-esquerda, liberais e verdes, desconfiados de Trump e críticos da assimetria do acordo, usou o papel do Parlamento Europeu na legislação de execução para exigir salvaguardas. O objetivo era garantir que a União Europeia pudesse recuperar concessões se Washington não cumprisse as suas promessas.

A tensão aumentou depois de Trump ameaçar anexar a Gronelândia e, mais tarde, ameaçar Espanha com um embargo comercial por causa da oposição à guerra americana no Irão. Para Lange e para os seus aliados no Parlamento Europeu, o acordo precisava de ser protegido contra mudanças bruscas de posição da Casa Branca.

“Claro que muita gente adotou a narrativa americana de que era preciso fazer tudo depressa, independentemente do conteúdo”, afirmou Lange ao ‘POLITICO’. “Mas esse não é o meu estilo”, acrescentou, numa entrevista no seu gabinete no Parlamento Europeu, em Bruxelas.

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O momento Gronelândia

A trégua comercial assinada em julho previa que a União Europeia aprovasse legislação para eliminar tarifas sobre produtos industriais americanos. Em troca, Washington comprometia-se a limitar a 15% as tarifas sobre a maioria das exportações europeias e a reduzir taxas aplicadas aos automóveis europeus.

Enquanto relator responsável por negociar a posição do Parlamento Europeu sobre essa legislação, Lange tornou-se uma figura decisiva na definição do ritmo das negociações. E decidiu travar.

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As primeiras fissuras no entendimento surgiram em agosto, pouco antes de Bruxelas e Washington publicarem a declaração conjunta que formalizava o acordo. Trump impôs então tarifas de 50% sobre mais de 400 produtos que continham aço e alumínio. Mas foi a ameaça, no início deste ano, de anexar a Gronelândia, território autónomo dinamarquês, que marcou o ponto de viragem.

A partir daí, a coligação parlamentar liderada por Lange endureceu a posição. Uma decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, em fevereiro, que derrubou as tarifas originais de Trump, e a tensão transatlântica gerada pelos ataques americano-israelitas ao Irão reforçaram a ideia de congelar o processo até o acordo ser mais resistente a Trump.

Esse bloqueio irritou o Partido Popular Europeu, a maior família política do Parlamento Europeu, que inclui Ursula von der Leyen e o chanceler alemão Friedrich Merz. Para a direita europeia, a prioridade era aprovar o pacto e dar estabilidade às empresas.

Željana Zovko, principal negociadora do PPE no processo, considerou que Lange foi longe demais. “Foi uma provação muito desnecessária e levou-nos à beira de uma guerra comercial”, afirmou ao ‘POLITICO’. “Num momento em que poderíamos ter focado a nossa atenção numa parceria estreita em segurança e em como trabalhar com a China, estávamos a lutar por migalhas e perdemos a visão geopolítica mais ampla.”

Indústria alemã no centro da disputa

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O ceticismo de Lange em relação ao acordo de Turnberry também tem raízes no seu estado natal, a Baixa Saxónia, onde estão instaladas a Volkswagen e a siderúrgica Salzgitter. Para o eurodeputado, as tarifas impostas por Trump sobre produtos com aço e alumínio representavam uma violação grave da trégua comercial.

Mais do que isso, ameaçavam indústrias que sustentam milhares de empregos na região. A ligação de Lange ao mundo industrial vem de longe. Cresceu na Frísia, na costa alemã do Mar do Norte, numa família que tinha uma estação de serviço e uma oficina, e mantém uma paixão por motociclos e carros clássicos.

Aos 19 anos, juntou-se ao Partido Social-Democrata e seguiu o pai na ligação ao sindicato IG Metall, o maior da Alemanha. Continua próximo da estrutura sindical, que o vê como alguém atento ao impacto das decisões de Bruxelas nas empresas e nos trabalhadores.

Essa origem ajuda a explicar o seu estilo negocial. Lange não é descrito como naturalmente confrontacional, mas é capaz de levantar a voz à porta fechada para defender a indústria e o trabalho europeus. Também é visto como um negociador obcecado pelo detalhe, tanto nas emendas legislativas como nos pequenos gestos pessoais, como os poemas que escreve nos cartões de Natal que envia todos os anos.

O ‘polícia mau’ de Bruxelas

Nas negociações entre as instituições europeias, Lange acabou por desempenhar o papel de ‘polícia mau’, enquanto o comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, assumia a função de ‘polícia bom’. Esta divisão permitiu ao Parlamento Europeu pressionar Washington de forma indireta, num grau que a Comissão Europeia dificilmente poderia assumir de forma tão aberta.

Entre as exigências de Lange estava a introdução de salvaguardas contra futuras ameaças americanas. O eurodeputado quis ligar a execução do acordo à redução das tarifas impostas por Washington sobre produtos derivados de aço, através de uma cláusula específica. Também defendeu um mecanismo para suspender concessões tarifárias se Trump voltasse a ameaçar a integridade territorial da União Europeia, além de uma data de expiração em março de 2028, dez meses antes do fim previsto do mandato de Trump.

A Comissão Europeia e o Conselho resistiram a várias destas exigências, receando provocar Washington em excesso. As tensões atingiram o ponto mais alto no final de maio, poucos dias depois da mais recente ameaça tarifária de Trump.

Após horas de negociação, Šefčovič abandonou a sala visivelmente frustrado, de mangas arregaçadas, enquanto Lange insistia em linguagem mais dura para obrigar a Comissão a aumentar tarifas sobre produtos americanos se Washington não reduzisse as taxas sobre o aço dentro de um prazo definido.

O acordo possível

A pressão acabou por produzir um compromisso. Na ronda decisiva de negociações entre as instituições europeias, concluída na madrugada de 20 de maio, Lange aceitou uma formulação que dava maior margem de manobra à Comissão Europeia para avaliar se os Estados Unidos estavam a cumprir o acordo de Turnberry.

O texto final estabelece que a Comissão poderá suspender o acordo comercial se Washington não reduzir as tarifas sobre produtos europeus de aço e alumínio até ao final de 2026. A referência à proteção da integridade territorial da União Europeia ficou de fora e a data de expiração do acordo foi empurrada para o final de 2029, mais tarde do que Lange pretendia.

As vitórias do eurodeputado são, em grande medida, politicamente relevantes, mas não juridicamente vinculativas. Ainda assim, criam pressão pública sobre a Comissão Europeia e enviam uma mensagem a Washington: o Parlamento Europeu não está disposto a aprovar automaticamente concessões comerciais a um parceiro que já não inspira a mesma confiança.

O impasse chegou a irritar a Casa Branca. No mês passado, Trump ameaçou aumentar ainda mais as tarifas se a União Europeia não cumprisse as suas promessas até 4 de julho. O bloco evitou esse cenário depois de as instituições europeias chegarem a um compromisso que incorporou algumas das exigências de Lange.

O texto segue agora para votação final no plenário do Parlamento Europeu esta terça-feira. Lange está confiante numa vitória. Ao ‘POLITICO’, resumiu o resultado com uma referência aos Rolling Stones: “Nem sempre conseguimos aquilo que queremos.”

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