O colapso das negociações entre Rússia e Ucrânia em Genebra não foi apenas mais um impasse diplomático. Segundo uma análise publicada pelo ‘The Independent’, o processo tem sido marcado por uma lógica de pressão e chantagem que deixa Kiev encurralada entre Moscovo e Washington.
A expressão forte usada pelo jornal britânico pretende sublinhar a perceção de que a Ucrânia tem sido pressionada a aceitar concessões enquanto continua sob agressão militar. De um lado, a Rússia mantém a ocupação de cerca de 20% do território ucraniano e prossegue os ataques. Do outro, os EUA, principais mediadores, têm condicionado apoio político e militar a determinados entendimentos estratégicos.
Volodymyr Zelensky descreveu recentemente como “injusta” a atuação dos mediadores americanos, sinalizando desconforto com a forma como as negociações têm sido conduzidas. Para o ‘The Independent’, a pressão para que Kiev aceite compromissos territoriais ou de segurança aproxima-se mais de um ultimato do que de uma mediação equilibrada.
A narrativa russa e a realidade no terreno
Um dos pilares da posição de Moscovo é a alegação de que a invasão visou proteger falantes de russo no leste da Ucrânia. No entanto, o jornal destaca relatos de deslocados internos — muitos deles russófonos — que fugiram precisamente dos bombardeamentos russos. O argumento de “proteção” entra em choque com os efeitos concretos da guerra.
Além disso, a Rússia anexou territórios desde 2014, enquanto o pedido formal de adesão da Ucrânia à NATO só surgiu em 2019, após a primeira fase da invasão. Esta cronologia contraria a tese de que a expansão da Aliança Atlântica foi a causa inicial do conflito.
O papel dos Estados Unidos
O texto aponta que Washington prometeu ou forneceu cerca de 115 mil milhões de dólares (aproximadamente 106 mil milhões de euros) em apoio à Ucrânia, enquanto a Europa comprometeu quase o dobro desse valor. Ainda assim, a mediação tem sido dominada pelos EUA, sem participação formal europeia nas conversações mais recentes.
Para o ‘The Independent’, a pressão americana incluiu ameaças de redução de apoio e insistência em acordos considerados desfavoráveis a Kiev. As chamadas “garantias de segurança” oferecidas por Washington são igualmente questionadas, sobretudo num contexto em que a administração americana tem adotado posições imprevisíveis em relação a aliados tradicionais.
O que está realmente em causa?
O risco, segundo a análise, é que a Rússia consiga mais ganhos à mesa das negociações do que no campo de batalha. Após quase quatro anos de guerra em larga escala, Moscovo acumula perdas humanas significativas — estimadas em 1,2 milhões entre mortos e feridos — enquanto a NATO se expandiu com a entrada da Finlândia e da Suécia.
Ainda assim, um acordo que consolide ganhos territoriais russos ou imponha limitações estratégicas permanentes à Ucrânia poderá ser visto como uma capitulação disfarçada de compromisso.
E a Europa?
A ausência europeia nas negociações é apresentada como um dos pontos mais preocupantes. Apesar de possuir, em conjunto com a Ucrânia, capacidade militar significativa, a Europa tem deixado a condução diplomática nas mãos dos Estados Unidos.
O colapso das conversações em Genebra pode, assim, representar não apenas o fracasso de uma ronda negocial, mas um momento de redefinição estratégica. Para o ‘The Independent’, a questão central é saber se a Europa continuará dependente da mediação americana ou se assumirá um papel mais direto na defesa da segurança continental.



















