Explicador. Chefe mafioso ou monarca absoluto: para que século da história nos remete Trump?

Transformação política promovida por Donald Trump está a tornar os EUA progressivamente irreconhecíveis no contexto da ordem liberal contemporânea

Francisco Laranjeira

A suspeita de que o trumpismo representa uma regressão histórica de contornos inquietantes ganha novos argumentos quase diariamente. O movimento MAGA, apresentado como promessa de renovação, é cada vez mais interpretado como uma visão identitária ancorada num passado idealizado e incompatível com o século XXI. De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, a transformação política promovida por Donald Trump está a tornar os EUA progressivamente irreconhecíveis no contexto da ordem liberal contemporânea.

Perante a erosão acelerada dessa ordem internacional, multiplicam-se as comparações históricas. Alguns observadores evocam a década de 1930, marcada pela ascensão do fascismo e pelo colapso simultâneo da democracia liberal e da economia de mercado em várias regiões do mundo. Outros recuam ainda mais no tempo e identificam paralelismos com o imperialismo armado do século XIX, quando a diplomacia das canhoneiras permitia às grandes potências impor os seus interesses através da intimidação e da coerção.

Há, contudo, quem vá mais longe nesta tentativa de enquadramento histórico. Os politólogos Stacie Goddard e Abraham Newman defendem que o mundo poderá estar a caminhar para uma forma de “neomonarquismo”, numa alusão ao período anterior à Paz de Vestfália, em 1648. Segundo esta leitura, estaria a emergir um sistema internacional que deixa de assentar na igualdade entre Estados soberanos para se organizar em torno de um núcleo restrito de hiperelites — líderes personalistas rodeados de círculos de lealdade — que exploram as interdependências económicas e militares modernas para acumular poder, recursos e prestígio.

Esta hipótese, embora especulativa, tem ganho visibilidade no debate académico e político. Ainda assim, não é consensual. O ensaísta e antigo dirigente universitário Michael Ignatieff rejeita a analogia com as monarquias absolutas, argumentando que o conceito de neomonarquismo atribui aos autocratas contemporâneos uma dignidade histórica que os soberanos de outrora possuíam, pelo menos, por direito dinástico.

Na leitura de Ignatieff, o líder mais poderoso do Ocidente aproxima-se mais da figura de um chefe mafioso do que de um monarca absoluto como Luís XIV, independentemente da forma como Donald Trump parece interpretar a célebre máxima “o Estado sou eu”. Segundo o ‘ABC’, esta distinção é central para compreender a natureza do poder exercido pelo trumpismo: menos institucional, mais personalista e sustentado por redes de lealdade e intimidação, em detrimento de regras e consensos duradouros.

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O debate sobre o significado histórico do trumpismo reflete, assim, uma inquietação mais profunda quanto ao rumo da política internacional. Entre nostalgias fabricadas, paralelismos extremos e rejeições categóricas, cresce a perceção de que a atual crise não é apenas conjuntural, mas pode estar a reconfigurar os fundamentos do sistema global tal como foi conhecido nas últimas décadas.

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