Explicador. Fim de uma era na Hungria: queda de Orbán abala ‘manual’ político seguido por Trump

Peter Magyar, líder do partido Tisza, conquistou a maioria parlamentar com 138 lugares, garantindo condições para desmantelar o sistema político consolidado pelo Fidesz ao longo de mais de uma década

Francisco Laranjeira

A derrota de Viktor Orbán na Hungria, após 16 anos no poder, marca um dos momentos políticos mais relevantes da Europa recente — e levanta dúvidas sobre o futuro do modelo iliberal que influenciou líderes como Donald Trump, escreve o ‘El Confidencial’.

Peter Magyar, líder do partido Tisza, conquistou a maioria parlamentar com 138 lugares, garantindo condições para desmantelar o sistema político consolidado pelo Fidesz ao longo de mais de uma década. Esse sistema, construído desde 2010, assentava no controlo de instituições, na influência sobre os meios de comunicação e em alterações ao sistema eleitoral que favoreceram o partido no poder.

A queda de Orbán representa, assim, mais do que uma simples alternância democrática: é um golpe direto numa estratégia política que serviu de referência para movimentos populistas e conservadores em várias partes do mundo.

Donald Trump foi um dos que mais se inspirou no modelo húngaro. Durante anos, elogiou Orbán e adotou elementos semelhantes na sua estratégia política, desde o discurso anti-imigração até à contestação de resultados eleitorais. Tal como o líder húngaro, Trump também perdeu eleições — em 2020 — e regressou mais tarde ao poder após uma campanha intensa.

Mas há diferenças relevantes. Ao contrário de Trump, Orbán reconheceu a derrota eleitoral. “Os resultados são claros. São dolorosos, mas inequívocos”, afirmou, deixando ainda um aviso: “Não nos renderemos. Nunca, nunca, nunca.”

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Mais adiante, o ‘El Confidencial’ sublinha que o novo Governo enfrenta agora um duplo desafio: desmontar a máquina política construída por Orbán e manter a unidade de uma coligação heterogénea, que inclui desde antigos apoiantes do Fidesz até forças liberais e de esquerda.

“A curto prazo, a unidade será crucial para restaurar o Estado de Direito e os mecanismos democráticos”, explica Daniel Bartha, analista político em Budapeste. No entanto, alerta que divergências internas poderão emergir à medida que se aproximarem novas eleições.

Apesar da derrota, a influência de Orbán não desaparece. O Fidesz mantém presença a nível local e continua a contar com apoios internacionais relevantes. Trump já reafirmou o seu apoio “incondicional” ao líder húngaro, enquanto figuras da administração americana destacam a importância estratégica da Hungria.

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A dimensão internacional do resultado é evidente. Para muitos analistas, a queda de Orbán representa um revés para uma corrente ideológica que tem vindo a ganhar força, assente na oposição à imigração, ao ambientalismo e à chamada agenda “woke”.

Ainda assim, o cenário está longe de fechado. Especialistas admitem que um regresso do Fidesz não é impossível, embora improvável no curto prazo. Para isso, o partido teria de se reinventar e superar eventuais processos judiciais que poderão surgir após a mudança de poder.

Num contexto de tensões globais e disputas geopolíticas, a eleição na Hungria ganha um significado mais amplo. “Temos duas superpotências a tentar dividir a Europa — e o seu candidato perdeu”, resume o analista Ivan Krastev, apontando para um possível reforço da resiliência europeia.

Para já, a mensagem é clara: o modelo de Orbán sofreu o seu maior teste — e falhou. Resta saber se é um fim definitivo… ou apenas uma pausa numa estratégia que continua a influenciar a política global.

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