Os Estados Unidos estarão a preparar uma redução significativa da sua contribuição militar para a NATO na Europa, numa decisão que pode obrigar os aliados europeus a assumir uma fatia muito maior da defesa convencional do continente. A informação foi avançada pelo jornal alemão ‘Der Spiegel’, depois de um enviado do secretário da Defesa americano, Pete Hegseth, ter comunicado a intenção de Washington numa reunião na sede da Aliança Atlântica, em Bruxelas.
Em causa está uma redução dos compromissos americanos no chamado ‘Modelo de Forças’ da NATO, estrutura criada após a invasão russa da Ucrânia para garantir uma resposta rápida a crises e ameaças contra o bloco. Este modelo define as capacidades e unidades militares que o Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa pode mobilizar para dissuadir ameaças e defender território aliado.
A decisão, ainda que esperada, terá surpreendido vários responsáveis aliados pela dimensão dos cortes previstos. Os Estados Unidos contribuem atualmente com quase metade das capacidades do modelo europeu, mas a Administração Trump tem pressionado há mais de um ano os parceiros europeus para uma repartição mais equilibrada dos encargos de defesa.
Segundo o ’20 Minutos’, Alexander Vélez-Green, assessor de Pete Hegseth, apresentou aos representantes dos países da NATO dados para justificar a decisão americana. A mensagem transmitida por Washington é clara: a Europa terá de compensar a redução das capacidades militares dos EUA e assumir um papel muito mais robusto na sua própria defesa convencional.
Entre as áreas em análise estará uma forte redução da contribuição americana em bombardeiros estratégicos para a NATO. Também estará a ser considerada a retirada de um terço dos caças atualmente destacados para a defesa europeia. A compra de F-35 por países europeus, como Alemanha e Polónia, poderá ajudar a compensar parte dessa retirada, mas há uma diferença crítica: nenhum país europeu dispõe de bombardeiros estratégicos com capacidade para transportar armas nucleares.
Ainda assim, Washington terá garantido que a dissuasão nuclear na Europa continuará a ser um elemento central da sua política de defesa. O recuo americano deverá incidir sobretudo sobre capacidades convencionais, incluindo menor apoio em destróieres, submarinos, drones de reconhecimento e drones armados.
Na reunião em Bruxelas, o enviado da Casa Branca terá pedido aos países europeus que resolvam rapidamente as suas divergências e reforcem as capacidades em falta. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos terão manifestado disponibilidade para continuar a cooperar com os aliados, mesmo num cenário de redução da sua presença militar direta.
A eventual decisão pode representar um ponto de viragem para a NATO. A Aliança já parte do princípio de que a presença americana na Europa será reduzida, mas tem insistido na necessidade de previsibilidade para que os aliados possam adaptar os seus planos de defesa. O problema é que a meta assumida no ano passado de elevar a despesa militar para 5% do PIB continua longe de ser cumprida pela maioria dos países.
Para a Europa, o aviso é estratégico e financeiro. Se os EUA avançarem com cortes desta dimensão, os governos europeus terão de acelerar compras militares, reforçar capacidades industriais e assumir responsabilidades que, durante décadas, dependeram em larga medida do poder militar americano.





