Explicador. Dos Açores à Turquia: sem os EUA, a Europa perde o seu escudo militar?

Resposta, olhando para a atual arquitetura da NATO, é desconfortável para várias capitais europeias

Revista de Imprensa

A decisão americana de retirar cerca de cinco mil militares de bases na Alemanha abriu um novo debate sobre a segurança europeia: até que ponto a Europa consegue defender-se sem os Estados Unidos? A resposta, olhando para a atual arquitetura da NATO, é desconfortável para várias capitais europeias. O continente tem mais investimento em Defesa, mais urgência estratégica e mais consciência do risco russo, mas continua dependente de uma rede militar americana que nenhum país europeu consegue substituir no imediato.

A medida foi anunciada num contexto de tensão entre Washington e aliados europeus e está a ser acompanhada com preocupação na NATO. Segundo a ‘Reuters’, a retirada de cinco mil militares da Alemanha pode fazer regressar a presença americana na Europa para níveis anteriores ao reforço ordenado depois da invasão russa da Ucrânia, em 2022. A mesma agência recorda que os EUA têm atualmente cerca de 85 mil militares no continente europeu. A ‘Euronews’ assinala que a legislação americana não impede uma retirada, mas exige consultas e justificações em caso de cortes relevantes.

O número, por si só, não explica tudo. Cinco mil soldados representam uma fração do contingente americano na Europa, mas o sinal político é muito maior. Como sublinha o major-general Arnaut Moreira à ‘CNN Portugal’, “a redução em cinco mil tem uma leitura de natureza política que é muito superior à leitura de natureza militar”. O problema é que, na defesa europeia, os militares americanos não são apenas homens no terreno: são comando, logística, inteligência, aviões, radares, mísseis, depósitos de armamento, capacidade nuclear e resposta rápida.

É por isso que a presença dos Estados Unidos funciona como uma espécie de “sistema operativo” da defesa europeia. A Europa tem forças próprias, exércitos nacionais e duas potências nucleares, França e Reino Unido, mas a engrenagem integrada que permite deslocar tropas, vigiar ameaças, abastecer meios, intercetar mísseis e projetar força continua assente, em larga medida, na infraestrutura americana.

O que significa a influência militar dos EUA na Europa?

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A influência americana na Europa concretiza-se de várias formas. A mais visível é a presença de tropas e bases. A menos visível, mas provavelmente a mais importante, é a capacidade de ligar todos os pontos: comando, comunicações, transporte, inteligência, defesa aérea, dissuasão nuclear e reforço rápido em caso de guerra.

A ‘CNN Portugal’ descreve uma teia que vai da Gronelândia à Turquia, dos Açores à Polónia, da Alemanha ao Mediterrâneo. No centro está a Alemanha, onde se encontram algumas das estruturas mais importantes do poder militar americano no continente.

Em Patch Barracks, em Vaihingen, opera o Comando Europeu dos Estados Unidos, o EUCOM. Em Kelley Barracks estão o comando americano para África e as forças de operações especiais. Em Wiesbaden funciona uma parte essencial do comando do Exército americano na Europa. E em Ramstein está uma das bases mais estratégicas de toda a NATO.

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Ramstein é mais do que uma base aérea. É um nó logístico e de comando. Por ali passam aviões de transporte, missões de evacuação médica, comunicações e operações que ligam os Estados Unidos ao teatro europeu, africano e do Médio Oriente. Não precisa de ter caças permanentemente estacionados para ser decisiva: a sua importância está na capacidade de manter a máquina militar a funcionar.

Onde entra Portugal nesta rede?

Portugal surge nesta arquitetura através da Base das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores. A sua posição no Atlântico faz dela uma infraestrutura relevante para reabastecimento, trânsito aéreo e vigilância marítima.

Num cenário de crise, a geografia volta a ser decisiva. A ponte militar entre os Estados Unidos e a Europa depende do Atlântico. As Lajes funcionam como ponto intermédio nessa travessia, uma espécie de estação estratégica entre o território continental americano e a Europa.

No outro extremo, a Base Espacial de Pituffik, na Gronelândia, tem uma função diferente: vigiar o Ártico e detetar ameaças balísticas. Ou seja, a rede americana não cobre apenas o centro da Europa; cobre as rotas de aproximação, os corredores marítimos, o espaço aéreo e os sinais de alerta precoce.

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Como se distribui o poder aéreo americano?

O poder aéreo americano está espalhado por vários pontos-chave. No Reino Unido, a RAF Lakenheath acolhe caças F-35 e F-15E. A base de Mildenhall tem funções de reabastecimento aéreo e operações especiais. Em Itália, Aviano garante capacidade de resposta no Mediterrâneo. Na Turquia, Incirlik é uma ponte para o flanco sul da NATO e para o Médio Oriente.

Esta distribuição não é aleatória. Como explica Arnaut Moreira, as bases aéreas e terrestres seguem uma linha diagonal que vai do Reino Unido à Turquia. Essa linha permite cobrir o norte da Europa, o centro do continente, o Mediterrâneo, o flanco sul e a aproximação ao Médio Oriente.

A presença americana também inclui sistemas de defesa antimíssil. A NATO assumiu formalmente em 2024 o comando do sistema Aegis Ashore em Redzikowo, na Polónia, que se junta à instalação de Deveselu, na Roménia, no escudo antimíssil aliado.

A partir da base naval de Rota, em Espanha, os Estados Unidos operam ainda contratorpedeiros equipados com o sistema Aegis, que patrulham o Mediterrâneo e o Atlântico. Estes navios trabalham em rede com sensores como o radar de Kürecik, na Turquia, capaz de detetar lançamentos a grande distância e enviar dados para os centros de comando.

Sem esta rede, a Europa não ficaria indefesa, mas ficaria muito mais exposta. Os sistemas europeus de defesa aérea existem, mas ainda não substituem de forma plena a cobertura americana contra ameaças balísticas de longo alcance.

O que é o “exército fantasma”?

Uma das peças menos conhecidas desta presença militar é o sistema de material pré-posicionado, conhecido como APS-2. A lógica é simples: em caso de guerra, transportar tanques, blindados e artilharia pesada dos Estados Unidos para a Europa demoraria demasiado tempo. A alternativa foi criar grandes armazéns militares no continente europeu, com equipamento pronto a ser usado.

Esses depósitos existem em países como Polónia, Alemanha, Países Baixos e Bélgica. Guardam tanques M1 Abrams, veículos Bradley, artilharia e outro material pesado, com manutenção permanente.

Num cenário de crise, os soldados podem voar dos Estados Unidos para a Europa e encontrar o equipamento já preparado. É isso que torna esta capacidade tão importante: não se trata apenas de ter tropas, mas de conseguir transformá-las rapidamente numa força de combate pesada.

A ‘CNN Portugal’ descreve esta estrutura como uma espécie de “exército fantasma”: não é visível no dia a dia, não aparece em grandes desfiles, mas pode ser ativada rapidamente numa emergência.

E a dissuasão nuclear?

A dependência europeia também passa pela dimensão nuclear. França e Reino Unido têm armas nucleares, mas os Estados Unidos mantêm na Europa um sistema de partilha nuclear no quadro da NATO. Estimativas públicas apontam para a presença de bombas nucleares táticas B61 em bases de vários países europeus, no âmbito desse arranjo. O Bulletin of the Atomic Scientists assinalou que os EUA têm vindo a modernizar a infraestrutura ligada à missão de partilha nuclear na Europa.

Estas armas permanecem sob controlo americano. Em caso extremo, poderiam ser transportadas por aviões de países aliados preparados para essa missão. O objetivo é dissuadir um adversário de atacar a NATO, mostrando que qualquer escalada poderia ter resposta nuclear.

Este é um dos pontos mais sensíveis da autonomia estratégica europeia. A Europa discute há anos a necessidade de reforçar a sua defesa, mas a dissuasão nuclear alargada dos EUA continua a ser uma garantia central para vários aliados, sobretudo no flanco leste.

Porque é que a retirada de cinco mil soldados preocupa tanto?

A retirada em si pode ser absorvida militarmente com dificuldade, mas não representa o colapso imediato da defesa europeia. O problema é o precedente.

Se os Estados Unidos retiram cinco mil militares da Alemanha, a pergunta seguinte é inevitável: poderão retirar mais? Poderão reduzir presença em Itália, Espanha, Polónia ou noutras bases? Poderão transformar uma garantia permanente numa presença mais intermitente? Poderão condicionar o apoio militar à Europa a disputas políticas com aliados?

A ‘Reuters’ refere que o presidente americano tem autoridade relevante enquanto comandante-chefe, embora o Congresso possa impor limites através do orçamento e de regras de consulta. A preocupação em Washington e nas capitais europeias é que uma redução feita sem coordenação possa enfraquecer a dissuasão perante a Rússia.

Por outras palavras, a questão não é apenas saber se a Europa substitui cinco mil soldados. É saber se consegue substituir aquilo que esses soldados representam: compromisso americano, capacidade de reforço rápido, comando integrado, logística e confiança política.

Como é que isto deixa a Europa?

Deixa a Europa mais pressionada, mais exposta e obrigada a acelerar decisões que foi adiando durante décadas.

A guerra na Ucrânia já tinha mostrado que a segurança europeia voltou a depender de defesa territorial, munições, blindados, artilharia, defesa aérea e capacidade industrial. A ameaça de retirada americana acrescenta outra camada: a Europa não pode continuar a depender dos EUA como se essa presença fosse politicamente automática e eterna.

Mas ganhar autonomia não é rápido. Exige dinheiro, indústria, coordenação, doutrina comum, compras conjuntas, capacidade de transporte estratégico, satélites, inteligência, defesa antimíssil e comando integrado. Tudo isto demora anos.

É esse o dilema europeu: os Estados Unidos podem reduzir presença em meses; a Europa só consegue substituir capacidades críticas em anos.

A ameaça de retirada americana não significa que a NATO esteja a acabar. Mas mostra que a aliança já não vive na mesma lógica de previsibilidade. Durante décadas, a defesa europeia assentou na certeza de que os EUA seriam o garante final da segurança do continente. Agora, essa certeza passou a ser uma variável política.

No fundo, a pergunta deixou de ser apenas quantos soldados americanos estão na Europa. A pergunta passou a ser outra: que parte da segurança europeia continua a depender de uma decisão tomada em Washington? E a resposta, para já, é quase tudo o que torna a NATO uma força verdadeiramente integrada.

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