Explicador. Como pode a União Europeia ‘sobreviver’ ao cerco de Moscovo, Washington, Pequim e das redes sociais

União Europeia atravessa um dos períodos mais instáveis e arriscados desde o fim da Guerra Fria

Francisco Laranjeira

A União Europeia atravessa um dos períodos mais instáveis e arriscados desde o fim da Guerra Fria. À ameaça histórica representada pela Rússia, que intensificou a sua guerra híbrida contra os aliados europeus da Ucrânia após a invasão iniciada há quase quatro anos, junta-se agora uma realidade até há pouco impensável: os EUA, sob a liderança de Donald Trump, são também percecionados como um fator de enfraquecimento, divisão e desestabilização do projeto europeu.

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Este duplo cerco — externo e interno —, segundo análise dos espanhóis do ‘El País’, apanha a UE num momento de fragilidade estratégica. O bloco enfrenta uma ofensiva concertada contra a sua arquitetura política, económica e de valores, num contexto internacional marcado pelo colapso da ordem pós-Guerra Fria e pelo regresso da lógica de poder entre grandes potências. Como resume Daniel Hamilton, investigador da Universidade Johns Hopkins, “os europeus ainda têm de se adaptar ao facto de que o mundo pós-Guerra Fria acabou e uma nova era de rutura começou”.

O choque vindo de Washington

O alerta europeu intensificou-se com a publicação recente da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que descreve a Europa como estando em “declínio total” e traça cenários de intervenção para “corrigir” essa situação. O documento foi recebido como um choque em Bruxelas, não apenas pelo tom crítico, mas por consagrar uma viragem declaradamente eurocética da administração americana.

Segundo os analistas, a estratégia americana procura legitimar forças políticas hostis ao projeto europeu, classificadas como “partidos patrióticos”, ao mesmo tempo que questiona princípios estruturantes da UE, incluindo a sua resposta às mudanças demográficas e o seu modelo regulatório. Para Constanze Stelzenmueller, da Brookings Institution, os Estados Unidos estão a projetar sobre a Europa as suas próprias ansiedades internas, num paralelismo que inclui a hostilidade da Rússia em relação à Ucrânia e da China face a Taiwan.

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Um bloco lento a reagir

Apesar da gravidade do momento, a resposta europeia tem sido hesitante. António Costa, presidente do Conselho Europeu, afirmou que os aliados não interferem na vida política uns dos outros, numa das declarações mais claras de rejeição da estratégia americana. Ainda assim, prevalece a perceção de que Trump procura reduzir a UE a um papel subalterno, tratando-a como um espaço a explorar economicamente e a fragmentar politicamente.

Na prática, as leis europeias, os Governos democráticos e a regulação do mercado digital surgem como obstáculos a essa ambição. A ofensiva inclui também o plano comunicacional e digital, com ataques reiterados às instituições europeias e à sua legitimidade democrática.

O papel das redes sociais e dos atores híbridos

Um dos vetores centrais desta pressão é o espaço digital. Elon Musk, proprietário do ‘X’ e da Tesla, lançou uma campanha aberta contra a União Europeia após a Comissão Europeia ter multado a plataforma em 120 milhões de euros. Musk acusa Bruxelas de ser antidemocrática e chegou a defender a “abolição da UE”, numa retórica que ecoa posições do ideólogo russo Alexander Dugin, próximo do Kremlin.

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Esta convergência entre discursos vindos de Washington, Moscovo e das redes sociais reforça uma estratégia clássica de “dividir para conquistar”. Trump procura negociar diretamente com os Estados-membros, recorrendo a tarifas se necessário, enquanto a Rússia tenta há anos explorar fissuras internas através da energia, do comércio e de operações de influência.

Dependências estratégicas e vulnerabilidades

A UE tenta reduzir a sua dependência da energia russa, da segurança americana e dos mercados chineses, mas enfrenta dificuldades estruturais. Como sublinha Hamilton, estas três potências estão, cada uma à sua maneira, envolvidas no enfraquecimento do projeto europeu, vendo a União como um obstáculo aos seus interesses estratégicos.

O cerco estende-se também à economia. A China fornece matérias-primas críticas para a transição verde e inunda o mercado europeu com produtos baratos, ameaçando a indústria do bloco. Sem uma resposta mais rápida, alertam especialistas, a UE corre o risco de perder autonomia económica.

Nos bastidores de Bruxelas, há tentativas de relativizar a gravidade da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, sublinhando que o documento não identifica explicitamente a Rússia como adversária e que formaliza posições já conhecidas de figuras como o vice-presidente JD Vance. Ainda assim, fontes diplomáticas europeias admitem uma mudança profunda no ambiente estratégico, agravada pelos contactos entre Trump e Vladimir Putin e pelas tentativas de negociar o fim da guerra na Ucrânia sem Kiev ou os europeus à mesa.

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A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi taxativa ao afirmar que a Europa vive o momento mais perigoso desde a II Guerra Mundial, recordando ataques híbridos recentes que afetaram infraestruturas civis no seu país e as ameaças americanas à Gronelândia.

A Rússia como ameaça central, os EUA como incógnita

Para Jamie Shea, antigo alto funcionário da NATO, a principal ameaça continua a ser a Rússia, cuja hostilidade se manifesta em invasões, sabotagens, ciberataques e interferência em infraestruturas críticas. Em contraste, argumenta, a pressão americana é sobretudo retórica, apesar de medidas como tarifas e a retirada parcial de tropas da Europa de Leste.

Shea defende que ainda não há motivos para pânico, sublinhando que a cooperação transatlântica persiste em áreas-chave, como o apoio militar à Ucrânia, os exercícios da NATO e as relações económicas. O verdadeiro teste, diz, será perceber se a administração Trump traduz a sua retórica em ações concretas a partir de 2026.

A resposta europeia em debate

A União Europeia intensificou os esforços para enfraquecer a economia de guerra russa e combater ameaças híbridas, mas reconhece limitações na sua capacidade de resposta. Especialistas defendem que a solução passa por “mais Europa”: concluir o mercado único, acelerar a integração económica e avançar com o alargamento aos países candidatos, incluindo a Ucrânia, para eliminar zonas de influência cinzenta exploradas por Moscovo.

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Como conclui Shea, trata-se de avançar e não de recuar para uma lógica de Estados-nação isolados. A sobrevivência do projeto europeu dependerá da sua capacidade de se adaptar a um mundo mais hostil, defender as suas democracias e afirmar-se como ator estratégico autónomo, num contexto em que o cerco à Europa já não é apenas retórico, mas estrutural.

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