Explicador. Como as crianças europeias estão a ser transformadas em assassinos. Redes sociais são palco de recrutamento por grupos criminosos

Redes criminosas descobriram nos menores — crianças ainda em idade escolar, muitas sem antecedentes criminais e sem contacto prévio com o mundo do crime — uma ferramenta barata e maleável que dificulta o rastreio por parte da polícia

Francisco Laranjeira
Dezembro 10, 2025
12:19

Crianças de apenas 12 anos, recrutadas através de videojogos, redes sociais e chats encriptados, estão a ser utilizadas pelas redes criminosas europeias para praticar intimidação, ajustes de contas e até tentativas de homicídio: esta é a nova forma de violência por encomenda que se espalha silenciosamente pela Europa, afetando sobretudo países como Espanha, Alemanha e França.

Segundo o jornal espanhol ‘El Mundo’, as redes criminosas descobriram nos menores — crianças ainda em idade escolar, muitas sem antecedentes criminais e sem contacto prévio com o mundo do crime — uma ferramenta barata e maleável que dificulta o rastreio por parte da polícia. “Procuram a aprovação, um sentimento de pertença; nesta idade, quando não se sentem muito confiantes, são muito fáceis de manipular”, explicou Jean -Philippe Lecouffe , diretor adjunto de Operações da Europol, citado pela agência ‘EFE’.

O responsável sublinhou que se trata de um fenómeno novo e “em expansão” e descreveu um processo de recrutamento que começa em plataformas onde os adultos raramente estão presentes: jogos de tiros, redes sociais de mensagens rápidas e canais encriptados impossíveis de monitorizar.

Muitas vezes, estes jovens, utilizados como intermediários descartáveis, nem sequer recebem grandes somas de dinheiro: em alguns casos, basta uma pequena compensação – uma PlayStation, alguns ténis – ou simplesmente a validação do grupo, mas noutros, as redes prometem-lhes dinheiro fácil e uma suposta notoriedade.

193 detenções em seis meses

Para combater esta forma de “violência em serviço”, a Europol criou, em abril último, a Task Force Operacional GRIMM, que reúne investigadores de 11 países e resultou em 193 detenções nos seus primeiros seis meses, relacionadas com assassinatos por encomenda, tentativas de homicídio e esquemas de recrutamento. Entre os detidos, encontram-se 63 autores dos crimes, 84 recrutadores, 40 facilitadores logísticos e até 6 instigadores, cinco dos quais são chefes do crime organizado.

Estes dados, divulgados na passada segunda-feira pela Europol, mostram ainda que os casos estão a multiplicar-se e revelam um padrão transfronteiriço em que a mobilidade é fundamental: o recrutamento ocorre num país, o crime é cometido noutro e o autor precisa de fugir imediatamente para um terceiro.

O fenómeno, inicialmente localizado na Suécia, espalhou-se por todo o continente e o GRIMM inclui agora a Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Islândia, Países Baixos, Noruega, Espanha, Suécia e Reino Unido.

Em Espanha, seis suspeitos — um deles menor de idade — foram detidos em julho último por planearem um homicídio, com armas de fogo já prontas a usar. “Estavam num estágio avançado”, diz Lecouffe.

Na Holanda, um triplo homicídio em março levou à captura de três jovens na Suécia e na Alemanha. Entretanto, na própria Alemanha, uma tentativa de homicídio em maio terminou meses depois com a detenção de dois homens, de 26 e 27 anos, nos Países Baixos.

Recrutamento transfronteiriço e crianças com menos de 12 anos

Lecouffe insistiu que os criminosos visam os adolescentes devido à sua vulnerabilidade emocional, à facilidade com que podem ser pressionados e à maior dificuldade legal em processá-los. “É assustador, mas a idade mais jovem que vimos, e que se está a tornar cada vez mais comum, é aos 12 anos. Muito jovem”, afirmou.

Salientou ainda que o tráfico de droga está por detrás da maioria destas encomendas: disputas por território, cadeias de abastecimento ou quantidades de droga entre grupos rivais, que tentam resolver através de intermediários de nível inferior para reduzir o risco para os seus próprios membros. “Querem tornar quase impossível rastrear a cadeia de abastecimento mais acima na hierarquia”, afirma.

Perante este aumento de casos, a Europol sublinhou que a Europa ainda se encontra numa fase “inicial” deste fenómeno e alerta que a falta de sensibilização pública e a proliferação de plataformas encriptadas deixam um amplo espaço onde o recrutamento pode florescer sem controlo. “Não conseguimos ver o que se passa nestas redes; nem os pais conseguem ver o que os seus filhos estão a fazer. Isto é muito preocupante”, conclui Lecouffe. “Quando explicamos o que está a acontecer, muitas pessoas ainda não acreditam que isto seja real.”

A agência europeia, sediada em Haia, planeia reforçar a partilha de informação entre países e apela a uma cooperação muito mais estreita com as empresas tecnológicas, a principal área onde se inicia o recrutamento destes jovens.

Questionado sobre o possível cenário de como as coisas podem evoluir, o subdiretor de operações é perentório: “O que estamos a ver é preocupante. Isto vai alastrar.” A resposta, insiste, não se pode limitar à polícia: as escolas, os serviços sociais, as comunidades locais e as famílias devem fazer parte do sistema de alerta precoce.

“Queremos proteger as crianças no mundo real, mas nem sempre nos esforçamos da mesma forma para as proteger online”, alertou Lecouffe, num cenário em que as organizações criminosas continuam a explorar este terreno obscuro onde adolescentes cada vez mais jovens são recrutados online e utilizados no mundo real como peões num mercado de violência em rápida expansão.

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