Uma vaga de calor intensa em vários países asiáticos está a pressionar os mercados de carvão e gás, numa altura em que a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão já provocou uma crise energética global com o encerramento do Estreito de Ormuz.
O ‘The Independent’ escreve que a combinação entre temperaturas extremas, maior uso de ar condicionado e escassez de gás está a criar uma ‘tempestade perfeita’ para falhas de abastecimento, com os meses mais quentes do ano ainda pela frente.
Na Índia, as temperaturas chegaram aos 47 graus Celsius em vários estados este mês, levando a procura de eletricidade a um recorde de 271 gigawatts durante quatro dias consecutivos. O valor já correspondia ao limite que a autoridade da rede elétrica indiana previa para todo o ano de 2026-2027, apesar de ainda faltarem três meses de verão.
O que está a acontecer?
O calor extremo está a aumentar de forma abrupta o consumo de eletricidade, sobretudo por causa dos aparelhos de ar condicionado. O Ministério da Energia da Índia confirmou que o pico de procura está ligado ao “maior uso de equipamentos de refrigeração”.
O problema é que a procura já não está apenas a subir em quantidade. Está também a mudar de calendário. Antes, os maiores picos surgiam em junho ou julho. Depois passaram para maio. Agora, segundo especialistas citados pelo ‘The Independent’, a Índia já registou picos muito elevados em abril.
A situação é agravada pela humidade. Com a chegada da monção, o calor torna-se mais difícil de suportar e os aparelhos de ar condicionado trabalham durante mais horas, incluindo à noite. Isto coloca pressão adicional sobre uma rede elétrica que precisa de responder a consumos cada vez mais prolongados.
Porque é que Ormuz agrava o problema?
O encerramento do Estreito de Ormuz, na sequência da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, reduziu a disponibilidade de petróleo e gás natural liquefeito no mercado internacional. Pelo estreito passa cerca de um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo e um terço do gás natural liquefeito.
A Índia é um dos grandes importadores de energia da Ásia e foi particularmente afetada. O Qatar, que fornecia cerca de 40% das importações indianas de gás natural liquefeito, reduziu fortemente os envios. Nova Deli tentou compensar com mais compras a Omã, Estados Unidos, Austrália, Nigéria, Angola, Mauritânia e Indonésia, mas a pressão mantém-se.
Como o gás está mais caro e mais escasso, as centrais a gás, que normalmente ajudam a cobrir a diferença entre a produção solar durante o dia e a procura elétrica à noite, estão a ser racionadas em vários pontos da região.
O carvão volta a ganhar peso
Com menos gás disponível, a pressão recai sobre o carvão. No minuto de maior procura elétrica na Índia, a 21 de maio, as centrais térmicas asseguraram 62,8% da carga real.
As reservas de carvão nas centrais térmicas indianas estão em pouco mais de 23 dias de consumo, abaixo da meta oficial de 30 dias. Para responder à procura, o Ministério da Energia já tinha ordenado às centrais a carvão que adiassem manutenções planeadas.
Este é o dilema central. A Índia está a expandir rapidamente as renováveis, mas a procura de eletricidade cresce ainda mais depressa. Em 2024, o carvão gerou 75% da eletricidade consumida no país, enquanto o gás representou menos de 3%.
O papel do ar condicionado
O ar condicionado é hoje uma das grandes variáveis do sistema energético indiano. Estes equipamentos já representam entre 60 e 70 gigawatts da procura elétrica de ponta no país.
A tendência é de forte crescimento. A Índia instala entre 10 e 15 milhões de novos aparelhos de ar condicionado por ano e deverá acrescentar entre 130 e 150 milhões na próxima década. Nas cidades indianas, a taxa de posse de ar condicionado ainda ronda apenas 15%, mas está a subir rapidamente.
Segundo um estudo do India Energy and Climate Center, da Universidade da Califórnia, Berkeley, sem intervenção política, os aparelhos de ar condicionado poderão representar mais de 30% da procura elétrica máxima da Índia em 2035.
O risco é simples: cada aparelho instalado hoje cria consumo futuro durante anos. Se esses equipamentos forem pouco eficientes, a rede ficará cada vez mais exposta a picos de procura, custos elevados e risco de apagões.
As renováveis ajudam, mas não resolvem tudo
A energia solar já está a ajudar a absorver parte do choque. No minuto de maior procura na Índia, a produção solar assegurou 22% da carga, segundo o Centre for Research on Energy and Clean Air. A nível global, a geração elétrica fóssil caiu 1% em março face ao ano anterior, enquanto a solar subiu 15% e a eólica 7,6%.
Mas há um problema: o pico de calor não acaba quando o sol se põe. Durante o dia, os painéis solares ajudam a alimentar a rede. Ao final da tarde e à noite, quando as temperaturas continuam elevadas e os aparelhos de ar condicionado permanecem ligados, a produção solar desaparece.
Sem baterias suficientes para armazenar a energia solar produzida durante o dia, a rede volta a depender de carvão e gás para assegurar o consumo noturno. É por isso que os especialistas defendem que a transição energética precisa agora de uma nova prioridade: não basta instalar mais renováveis, é preciso armazenar essa eletricidade e entregá-la quando é necessária.
A Índia tem atualmente cerca de 6 gigawatts de capacidade de armazenamento em baterias, mas precisará de 61 gigawatts até 2030. A diferença entre o que existe e o que será necessário é uma das fragilidades centrais do sistema.
O que pode ser feito?
Há duas respostas principais: mais armazenamento e aparelhos mais eficientes. O estudo da Universidade da Califórnia, Berkeley, conclui que duplicar a eficiência dos aparelhos de ar condicionado poderia reduzir a procura de ponta em 47 gigawatts até 2035. Esse valor equivale a cerca de 100 grandes centrais elétricas e poderia poupar até 2 mil milhões de libras, cerca de 2,3 mil milhões de euros, nas contas dos consumidores.
A Índia tem prevista para 2028 uma atualização das normas de eficiência energética para aparelhos de ar condicionado, com uma subida de 25% no limiar mínimo exigido. Os investigadores defendem, porém, um roteiro mais ambicioso, para que os equipamentos mais eficientes hoje disponíveis no mercado indiano se tornem o padrão mínimo até 2033.
O Governo indiano também tem apelado às famílias para deslocarem consumos para antes do pôr do sol, de forma a aproveitar melhor a produção solar e reduzir a dependência de combustíveis importados.
Porque isto importa para o clima?
O problema é circular. O aquecimento global aumenta a frequência, duração e intensidade das vagas de calor. Essas vagas de calor aumentam o uso de ar condicionado. Esse consumo adicional, quando alimentado por carvão e gás, gera mais emissões. E essas emissões agravam a crise climática que torna o calor mais extremo.
Segundo dados citados pelo ‘The Independent’, os dias de vaga de calor na Índia aumentaram desde 1961 e os episódios de calor húmido extremo tornaram-se mais frequentes. Um estudo da World Weather Attribution concluiu que a crise climática triplicou a probabilidade de fenómenos deste tipo.
Há também um impacto na saúde. Um estudo de 2024 indicou que a crise climática está a acrescentar entre 50 e 80 noites por ano com temperaturas superiores a 25 graus Celsius, afetando o sono, aumentando riscos para a saúde e elevando ainda mais a procura por refrigeração.
Uma crise que começa na energia, mas pode acabar em apagões
A pressão sobre a Índia é hoje o exemplo mais visível, mas a tendência é asiática. Em Seul, as temperaturas têm estado cerca de 13% acima da média histórica desde meados de maio. Em Xangai, a média está 12% acima do normal e, em Tóquio, cerca de 10%.
A Agência Internacional de Energia prevê que a percentagem de habitações com ar condicionado na Ásia suba de 36% em 2022 para 60% em 2050. Isto significa que a eletrificação do conforto térmico será uma das grandes pressões futuras sobre as redes elétricas.
O aviso dos especialistas é claro: sem baterias, eficiência energética e redes mais preparadas, cada verão extremo pode tornar-se mais um argumento para queimar carvão. E cada novo pico de calor pode aproximar a região de apagões ou de respostas de emergência caras e poluentes.
Num mundo em que o calor extremo cresce ao mesmo tempo que as guerras ameaçam rotas energéticas vitais, a segurança elétrica deixou de depender apenas da capacidade de produzir energia. Passou também a depender da capacidade de a guardar, usar melhor e evitar que milhões de aparelhos de ar condicionado transformem o alívio imediato num novo problema climático.



