Explicador. A NATO pode sobreviver sem os EUA? As bases, os soldados e o plano europeu em marcha

Bruxelas já começa a preparar planos de contingência para uma Aliança Atlântica com menos Washington, ou até para uma estrutura de defesa europeia mais autónoma

Francisco Laranjeira

A Europa está cada vez mais convencida de que precisa de reduzir a sua dependência dos Estados Unidos, sobretudo na área da Defesa, numa altura em que Donald Trump volta a pressionar os aliados europeus e a ameaçar uma retirada de apoio à NATO. O ’20 Minutos’ descreve um cenário em que Bruxelas já começa a preparar planos de contingência para uma Aliança Atlântica com menos Washington, ou até para uma estrutura de defesa europeia mais autónoma.

No centro desta discussão está uma hipótese que, até há poucos anos, parecia remota: a de uma NATO em que os EUA deixem de ser o garante absoluto da segurança europeia. O texto explica que os investimentos em Defesa, o destacamento de tropas, o peso político dos vários Estados-membros e o desenvolvimento tecnológico passam agora a fazer parte de uma equação mais ampla, em que a União Europeia tenta reforçar a sua autonomia militar.

Uma das frentes mais sensíveis é a das bases americanas instaladas em território europeu. Trump admitiu a possibilidade de reduzir a presença militar dos EUA, com destaque para Alemanha e Espanha, mas os especialistas ouvidos pelo ’20 Minutos’ sublinham que, no caso espanhol, Washington não poderia simplesmente ‘fechar’ essas infraestruturas, uma vez que estão sob soberania espanhola. Em Espanha, as bases de Rota e Morón acolhem entre 3.000 e 5.000 militares americanos cada uma, consoante a época do ano, enquanto a Alemanha continua a ser o aliado europeu com maior presença militar americana.

O texto sublinha também que o esforço financeiro dentro da NATO continua longe de ser equilibrado. Espanha aumentou os seus gastos com Defesa em 44,5% num ano, passando de 19,828 mil milhões de euros em 2024 para 28,660 mil milhões em 2025, mas continua entre os países que menos investem em percentagem do PIB. Nesse grupo surgem também Portugal, Albânia, Canadá e Bélgica. Já Polónia, Lituânia e Letónia lideram esse esforço, com Varsóvia acima dos 4% do PIB. A leitura feita é clara: uma parte importante do ónus da defesa ocidental recai hoje sobre os países mais expostos à ameaça russa.

Paralelamente, os próprios Estados Unidos reduziram o peso relativo do seu esforço militar na Aliança. O artigo nota que Washington baixou o investimento em Defesa para 3,19% no último ano e viu a sua contribuição total para a NATO descer de 64% para 60%, precisamente num momento de tensão máxima entre Trump e os restantes aliados.

Continue a ler após a publicidade

No terreno, os EUA mantêm cerca de 84 mil soldados destacados na Europa ao abrigo da NATO. Ainda assim, uma eventual resposta inicial à atual crise poderia passar mais por uma redistribuição dessas tropas do que por uma saída formal da Aliança, uma hipótese muito mais complexa do ponto de vista legal e político. Essa retirada exigiria aprovação do Congresso e uma maioria qualificada no Senado americano, além de levantar um paradoxo jurídico: os Estados Unidos teriam de notificar a si próprios da intenção de abandonar o Tratado de Washington.

Perante este cenário, volta a ganhar força uma velha ideia europeia: a criação de uma força militar comum. Pedro Sánchez insiste que esse passo deve ser dado ‘agora’, e Bruxelas recupera propostas antigas para uma maior integração operacional. Em janeiro, o comissário europeu da Defesa defendeu que a União precisaria de cerca de 100 mil soldados para responder de forma unificada aos desafios globais, insistindo que a Europa não pode continuar a agir apenas como uma soma de 27 exércitos nacionais.

Mais adiante, o ’20 Minutos’ explica que o caminho para a chamada autonomia estratégica europeia continua, ainda assim, a ser longo. Bruxelas aposta, para já, em mais cooperação entre exércitos nacionais e em instrumentos como o chamado ‘Schengen militar’, pensado para facilitar a mobilidade transfronteiriça de tropas em tempos de paz ou de conflito. Entre 2021 e 2024, a despesa com Defesa dos 27 Estados-membros aumentou mais de 30%, atingindo 326 mil milhões de euros em 2024, o equivalente a cerca de 1,9% do PIB da União Europeia.

Continue a ler após a publicidade

Sem os EUA, a Turquia poderá tornar-se ainda mais decisiva dentro da NATO. O país tem o segundo maior exército da Aliança e, mais do que os números, conta a sua localização estratégica. Bases como Incirlik, Konya e o comando terrestre em Izmir dão a Ancara um peso militar e geopolítico difícil de ignorar, sobretudo pela proximidade ao Médio Oriente e a outras zonas de tensão.

Apesar das fragilidades, a Europa continua a dispor de meios muito significativos. O continente tem duas potências nucleares, França e Reino Unido, quase cinco milhões de militares, cerca de 1,45 milhão de soldados nas forças armadas nacionais, mais de 3.100 tanques, perto de 7.000 aeronaves e uma vasta frota naval. O problema, sugere o artigo, não é a ausência total de capacidades, mas sim a dificuldade em coordená-las de forma verdadeiramente integrada num momento em que a proteção americana já não é vista como garantida.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.